J� dei mais de 100 entrevistas. Eu gosto de falar e acho importante contar a hist�ria. Depois de tudo que aconteceu, eu fui limpar a casa do meu chefe, no domingo passado (22 de novembro), e ele me mostrou um v�deo que gravou da �gua chegando no Bento. S� a� que eu vi a gravidade. A �gua correu a menos de 100 metros de onde eu estava. Eles ficaram loucos achando que a �gua tinha passado por cima de mim.
Foi Deus, sabe, que me usou naquele momento. Para gritar e ter for�a. Ele n�o me deixou olhar para tr�s hora nenhuma. Fui usada por Deus para fazer isso e gritar para as pessoas. Sou cat�lica. Ia a missa �s vezes na igreja de S�o Bento e �s vezes na Nossa Senhora das Merc�s. A das Merc�s ficou, mas a de S�o Bento acabou. Eu acredito em Deus.
Na hora em que a barragem rompeu, eu estava trabalhando na empresa de meio ambiente, a Brandt (terceirizada da Samarco para reflorestamento), terminando o dia e fazendo uma reuni�o com o chefe, para falar como foi o dia. Come�amos a escutar um barulho. J� eram quase quatro horas da tarde. Os meninos t�m mania de brincar e chamar o �nibus l� de Bento Rodrigues de pau de arara. Um deles falou: “� o pau de arara que est� vindo a�”. O �nibus passou e a zoeira continuou.
Eu falei: “N�, gente, mas esse barulho est� muito forte. O que � isso?”. Olhava para um lado e para o outro e n�o via nada. O t�cnico de seguran�a saiu do escrit�rio. Ele estava falando no telefone com a esposa dele. Ele ligou a r�dio da caminhonete e s� ouviu essas duas palavras: barragem rompeu.
Ele falou: “Gente, � a barragem que est� vindo a�”. Sa� correndo igual a uma doida, peguei minha moto e fui gritando: “Corre, gente!”. A empresa fica a uns 300 metros de Bento. Peguei minha moto, que � uma cinquentinha, e sa� gritando: “A barragem estourou, a barragem estourou, corre gente!”. Eles ficaram na fazenda. O meu chefe com as outras cinco pessoas. Eles correram para um lado e eu corri para o outro.
Eles gritavam: “Volta, Paula, volta, Paula”. S� que n�o ouvia nada. Sa� igual a uma doida, gritando. Fui l� na minha casa, avisei o pessoal da minha casa, avisei a rua toda. S� avisei. Meu filho estava em casa com minha m�e. Eu sabia que eles iam dar um jeito. Entrei na Rua do Cascalho avisando o pessoal. S� gritando, gritando, gritando. A moto acabou a gasolina, eu a deixei em um lugar um pouquinho mais alto e sa� correndo mais para baixo, ainda chamando as pessoas.
Tinha um caminh�o. De um pessoal que foi levar uma areia l�. J� tinham colocado bastante gente em cima do caminh�o. Eu ajudei a colocar mais gente em cima. Jogava crian�a, gente idosa, tudo para cima do caminh�o. Tinha uma Kombi tamb�m. Nisso eu corri para baixo e vinham Ant�nio e Pedro, meus dois primos, carregando uma crian�a. Pediram ajuda e ajudei a carreg�-los tamb�m.
Veio uma caminhonete e os colocou no carro. Quando n�o tinha mais ningu�m para vir eu corri e a� empurrei minha moto e fui levando ela l� para cima. Quando cheguei l�, a lama passou. Dois minutos depois. L� em cima, eu fui ver onde estava meu povo. Encontrei com meu filho e fui encontrando com o pessoal. Quando olhei para tr�s, n�o tinha mais Bento. S� l� no alto que resolvi olhar para tr�s. Quando olhei, n�o tinha mais Bento, n�o.
N�o chorei. Bateu uma tristeza muito grande. Em quest�o de apenas oito minutos a gente perder tudo que tinha. O sossego... A casinha... A nossa casa era um ponto de refer�ncia. Minha m�e enfeitava tudo com pneu pendurado e colocava flores, plantava flores nos pneus. Tinha uma escada de pedra, uma cerca de bambu toda pintada de marrom. O espa�o que faz�amos churrasco. Era uma casa diferente.
�s vezes, passava gente l� e perguntava: “Aqui � um bar?”. N�o � casa de fam�lia mesmo. E sempre fazia as reuni�es entre fam�lia. Cada domingo era o almo�o na casa de um irm�o. A gente sempre foi unido. A� um dia era almo�o na casa do meu irm�o, da minha irm�, um dia l� em casa, na casa do meu outro irm�o. Era uma fam�lia muito unida. Ainda n�o voltei l�, mas quero voltar para ver como ficou. A gente s� v� pela internet, pelos jornais. Quero ver como ficou.
Tenho um filho, Jo�o Pedro, de cinco anos. Ele mora comigo, minha m�e e meu pai. Todo dia � noite ele me acorda e pergunta: “Mam�e, aqui em Mariana n�o tem varragem? Ele fala assim: varragem. Fica perguntando: “N�s n�o vamos precisar correr para morro mais n�o? Tem certeza?” Ele fica tamb�m preocupado daqui ter varragem. Toda noite. Vou at� marcar um psic�logo para ele. Meu filho � muito esperto e todo dia ele lembra tudo porque ele saiu correndo. Ele fala: “Mam�e, salvei vov�, dindinha e vov� e a senhora salvou o resto do povo”.
Desde o dia 5 estamos no hotel. A gente est� a� esperando a Samarco alugar uma casa para pelo menos ter a nossa vida de volta. Essa semana voltei a trabalhar, mas n�o � a mesma coisa. Estou trabalhando no canil, onde est�o recebendo os animais, cavalo, galinha e cachorro. Nossa empresa est� mexendo l�, mas � super diferente do que a gente fazia. � gratificante porque os animais s�o muito bem tratados.
Eu trabalho em uma empresa terceirizada da Samarco e desejo que os culpados sejam punidos, que fa�am uma nova Vila Bento Rodrigues. A nossa hist�ria n�o pode acabar no dia cinco. Temos muita hist�ria para contar ainda e a gente era uma comunidade unida. N�o pode ficar todo mundo longe. N�o queremos ser como a rosa que desabrocha e cai. Queremos ser como o repolho que fica junto. Voltar � nossa vida, nossa vila, ter as nossas atividades, o nosso sossego.
A mineradora n�o pode fechar porque a gente precisa do emprego. Mariana inteira depende da mineradora. S� tem que ser punida, mas n�o pode fechar, pois a gente depende dela. N�o teve um alarme para avisar. O alarme foi a nossa empresa, a Brandt.