Todo dia, eu acordava �s cinco horas da manh�. Eu tinha um carro em que fazia o transporte escolar. Pegava os meninos l� em Bento antes das seis horas e levava at� Santa Rita. Em Santa Rita, buscava um menino em uma fazenda e deixava na escola. Voltava pra casa, tirava leite, arrumava o que tinha que arrumar, voltava a Santa Rita e fazia a mesma coisa. Pegava os meninos na escola, levava na fazenda e trazia os professores pra Bento Rodrigues.
Eu vivia da fazenda. Fazia uma base de quinze queijos por dia. O soro eu aproveitava para tratar de porco. Vendia frango vivo ou abatido. Vendia ovos. Minha mulher tamb�m fazia uns doces para ajudar na renda. O dinheiro era razo�vel. Dava para viver. Girava em torno de R$ 6 mil ou mais. � razo�vel, mas tinha a despesa com os bichos, tinha muito cachorro e gato, pois vendia filhote de cachorro tamb�m, uns (da ra�a) pincher.
Atualmente, tinha umas vacas leiteiras, galinha, porcos, cachorro, gato e esses bichos assim. Eram 40 vacas e 200 galinhas, mas sobraram s� 125, que est�o aqui nesse galp�o. O resto morreu tudo. Meu terreno tinha 110 hectares. A �gua que tem l� � de maior valor. Uma �gua clarinha, boa demais da conta, vem do alto da serra. Chega muita �gua, umas tr�s polegadas de �gua. A �gua que vai na pocilga fica dia e noite correndo. Vai �gua na casa, pra todo lado. O Rio Tesoureiro, um c�rrego, aquele da cachoeira, passa na frente da propriedade.
Eu fa�o divisa com a Samarco. Uma empresa dela que chama Agrovertente. Procuraram-me v�rias vezes para comprar a propriedade, mas n�o quis vender. N�o tenho ideia de quanto perdi. Uma vida n�o tem pre�o. Um sonho. Uma propriedade. Eu n�o quis vender. Eles pagavam bem na �poca, R$ 15 mil por hectare, mas eu nem pensava na possibilidade. Se eu arrependi? Se eu sonhasse com essa situa��o... Mas na verdade eu n�o queria vender.
A parte produtiva da fazenda acabou. A casa e as benfeitorias acabaram. Desde que eu vim para c� h� 30 anos fiquei arrumando a fazenda do meu jeito. Estava quase pronto. Faltava pouco. Eu gostava de ver que estava quase do jeito que eu queria. Estava pensando em aumentar a produ��o de leite. Eu tinha at� uma m�quina para fazer um servi�o atr�s do curral. Ia fazer outro est�bulo l� e arrumar uma ordenha para aumentar a produ��o do leite. A minha ordenha era manual e eu fazia queijo. L� n�o tem linha de leite. Tem at� o projeto de uma cooperativa de leite aqui em Mariana, mas n�o saiu do papel. Vendia queijo em Bento Rodrigues, Santa Rita e Ant�nio Pereira. Meu queijo era m�dia cura. N�o fazia frescal. Fazia um queijo minas comum. Vendia bem, gra�as a Deus. Tamb�m vendia porco. Abatido ou vivo. Vendia leit�o.
Como � morar no hotel? Eu estou enrolado, n�? Como ficar tranquilo? Acabou com a minha vida. Mandaram eu alugar um s�tio, uma propriedade rural, mas est� dif�cil achar aqui perto. Estou olhando na proximidade de Mariana, mas na regi�o aqui n�o tem. � quase tudo da Samarco. Estou preocupado. Todo dia n�o sei aonde vou, o que vou fazer e tal. Eu n�o estou dormindo. Andei tomando uns rem�dios, uns calmantes, nem sei o que �. Para tranquilizar e tudo, mas n�o est� adiantando. Eu durmo tr�s horas no m�ximo.
O que foi o dia cinco de novembro? Acabou com minha vida. De manh� eu j� tinha feito o que tinha que fazer. � tarde eu atrasei para ir para Bento Rodrigues. Parece que foi o destino. Um rapazinho que trabalhava comigo estava cortando uma cana em Bento. A� busquei o menino na fazenda e quando estava chegando em Camargos fiquei sabendo da not�cia. Cheguei no alto estava tudo na lama. Eu acho que mesmo com tudo que aconteceu foi pouco. Faleceram quatro pessoas do Bento. Mas eu acho que Deus ainda foi bom, pois se fosse � noite n�o ficava ningu�m.