ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE) INVENTE-SE

A coragem de se tornar quem se é: o compromisso para 2026

Tornar-se quem se é não é um caminho confortável. Exige coragem. Coragem para abandonar padrões automáticos, hábitos repetidos sem consciência

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A virada do ano costuma ser tratada como um marco externo. Muda-se o número no calendário, renovam-se promessas, metas e listas do que precisa ser conquistado para que a vida, enfim, faça sentido. Há um desejo legítimo de recomeço, mas também uma pressa silenciosa em acertar, como se o novo ano exigisse uma versão melhorada de quem somos.

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Nesse movimento, muita gente se perde de si. Ajusta escolhas, comportamentos e desejos para caber em expectativas alheias, em comparações constantes e em modelos prontos de sucesso e felicidade. Quanto mais tenta corresponder, mais distante fica do que realmente importa. A felicidade, que parecia ser o objetivo, passa a se apresentar como algo sempre adiado, condicionado à próxima conquista, ao próximo reconhecimento, à próxima validação.

No consultório, esse afastamento aparece com frequência. Pessoas empenhadas em fazer dar certo, em serem felizes, produtivas e realizadas, mas que já não sabem responder com clareza quem são, o que desejam ou o que faz seus olhos brilharem. Quando convido alguém a escrever sobre si, quem sou eu, o que eu gosto de fazer, o que me dá prazer, não é raro encontrar o vazio da resposta. “Nunca parei para pensar nisso.” A vida segue, mas o sentido vai ficando pelo caminho. E viver sem sentido cansa.

A ciência tem mostrado o quanto essa desconexão cobra seu preço. A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, aponta que o bem-estar psicológico está diretamente ligado à autonomia, ao senso de competência pessoal e à possibilidade de fazer escolhas alinhadas aos próprios valores. Quando vivemos apenas para atender demandas externas, o corpo e a mente sinalizam. Surgem ansiedade, esgotamento, sensação de vazio e uma permanente impressão de inadequação.

O psiquiatra Viktor Frankl já dizia que o ser humano não adoece apenas pela dor, mas pela falta de sentido. Não se trata de eliminar dificuldades, mas de compreender para onde se está indo. Quando nos afastamos de quem somos, até podemos cumprir expectativas, mas perdemos algo essencial: a sensação de inteireza.

Tornar-se quem se é, no entanto, não é um caminho confortável. Exige coragem. Coragem para abandonar padrões automáticos, hábitos repetidos sem consciência, crenças herdadas que já não fazem sentido. Em muitos momentos, exige também rever vínculos, círculos e relações que sustentam mais o medo de desagradar e a esperança da recompensa do que a possibilidade de ser verdadeiro. Não porque o outro esteja errado, mas porque o custo de se anular passa a ser alto demais.

O filósofo Søren Kierkegaard afirmava que a pior forma de desespero é querer ser alguém que não se é. Ele nos lembra e nos alerta para uma dor silenciosa e comum, a de viver tentando sustentar uma identidade que não nasceu de dentro. O esforço de manter esse personagem pode até trazer reconhecimento,  mas cobra um preço emocional elevado.

A coragem de se tornar quem se é não aparece em grandes rupturas ou decisões espetaculares. Ela se constrói no cotidiano. Está em dizer não quando o corpo pede limite. Em parar de se comparar. Em escutar a própria intuição em meio ao ruído externo. Em alinhar pequenas escolhas aos próprios valores, mesmo quando isso gera desconforto, insegurança ou estranhamento. É um processo contínuo de ajuste, revisão e retorno a si.

Talvez o início de um novo ano peça menos acúmulo de objetivos e mais clareza sobre quem se deseja ser, respeitando o próprio ritmo para, então, caminhar com mais coerência.

Que este novo ano não seja apenas mais um recomeço no calendário, mas o início de um compromisso mais verdadeiro consigo mesmo. Porque tornar-se quem se é não é um luxo, nem um ato egoísta. É um gesto de responsabilidade com a própria vida. E isso, inevitavelmente, exige coragem.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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