Poucos de nós param para refletir sobre o poder real de uma pergunta. Quando fazemos um questionamento, seja para o outro ou para nós mesmos, estamos orientando o nosso olhar, a nossa atenção e, muitas vezes, o nosso estado emocional.

Em geral, focamos na resposta, como se ela fosse o elemento mais importante do processo. No entanto, a direção da resposta já está contida na pergunta. É ela que orienta o olhar, organiza o pensamento e define se seguimos em frente ou se permanecemos presos ao mesmo lugar.

Durante minha certificação internacional em Coaching, tive contato mais profundo com a Programação Neurolinguística, conhecida como PNL. Trata-se de um campo de estudo que investiga como pensamos, sentimos e agimos, e de que forma a linguagem que utilizamos, inclusive no diálogo interno, influencia nossos comportamentos, escolhas e resultados.

A PNL parte do princípio de que, ao mudarmos a forma como percebemos e nomeamos nossas experiências e desejos, ampliamos as possibilidades de promover mudanças de maneira consciente.

No dia a dia, quando algo não vai bem, é comum recorrer a perguntas como: Por que eu sou assim? Por que não consigo mudar? Por que eu fiz isso? Por que isso aconteceu?

Essas perguntas até trazem um certo alívio racional: organizam a história, dão explicações e criam sentido. Mas existe um limite sutil no qual a análise deixa de ser esclarecedora e passa a ser paralisante. Entender o motivo explica o ponto de partida, mas não garante o movimento.

Na Programação Neurolinguística, a diferença entre o “porquê” e o “para quê” não é apenas gramatical; é funcional. O “porquê” costuma direcionar o pensamento para o passado, para causas e justificativas. O “para quê”, por outro lado, desloca o foco para a intenção e para o futuro. Em termos práticos, mudamos o tipo de busca que o cérebro faz. Em vez de revisitar continuamente o que já aconteceu, ele começa a desenhar possibilidades e caminhos.

Pesquisas da psicologia cognitiva e da neurociência mostram que o foco atencional molda nossos circuitos mentais. Em reflexões anteriores desta coluna, já abordei como a ruminação mental, estudada por autoras como Susan Nolen-Hoeksema, está associada ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão. Quando a mente gira repetidamente em torno do “porquê”, sem avançar para a ação, o pensamento deixa de se organizar e, em alguns casos, passa a adoecer.

Isso não significa ignorar o passado. O “porquê” tem o seu valor, especialmente quando nos ajuda a acessar valores e princípios. Perguntar “por que isso é importante para mim?” permite compreender o que sustenta nossas escolhas e dá sentido às nossas decisões. O problema surge quando esses questionamentos passam a alimentar uma espiral de culpa e imobilidade.

O “para quê” nos convida a outro lugar. Ele nos devolve o protagonismo e transforma o problema em direção. Em vez de perguntar “por que eu ajo assim?”, a pergunta passa a ser “para que eu ajo assim?” ou “o que esse comportamento tenta resolver em mim?”. Mesmo hábitos que nos prejudicam costumam esconder uma intenção positiva, como aliviar o estresse, evitar frustrações, buscar pertencimento ou sensação de controle.

No cotidiano, isso aparece de forma simples. Alguém que procrastina pode descobrir, ao se perguntar para que está adiando, que está tentando evitar o medo de errar ou de não corresponder às expectativas. A partir dessa consciência, torna-se possível buscar estratégias mais saudáveis para alterar esse padrão de comportamento.

Um exercício prático pode ajudar nesse processo: diante de uma situação recorrente que incomoda, observe qual pergunta você costuma fazer. Em seguida, reformule conscientemente essa pergunta começando com “para quê”. Perceba como a sensação interna muda. Nem sempre a resposta surge de imediato, mas o simples deslocamento da pergunta já abre espaço para novas possibilidades.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

No fim das contas, talvez a pergunta mais transformadora não seja “por que isso me aconteceu?”, mas “para que essa experiência pode servir a partir de agora?”. O “porquê” nos ajuda a compreender o terreno onde estamos pisando; o “para quê” aponta o destino e nos convida a caminhar. Afinal, como escreveu William James, um dos pais da psicologia moderna: “o pensamento é apenas um meio para o fim da ação”.

compartilhe