Ter propósito ajuda a envelhecer melhor
A neurociência tem mostrado que sentir propósito é um estado psicológico concreto, capaz de influenciar diretamente o funcionamento do cérebro ao longo da vida
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Janeiro costuma ser o mês das resoluções. Embora o tema do propósito de vida seja frequentemente tratado como algo abstrato ou motivacional, a neurociência tem mostrado que sentir propósito é um estado psicológico concreto, capaz de influenciar diretamente o funcionamento do cérebro ao longo da vida.
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De acordo com a neurocientista e aromaterapeuta Daiana Petry, o propósito atua como um verdadeiro fator de proteção cerebral. “Não estamos falando de pensamento positivo ou de frases inspiradoras. O cérebro responde biologicamente quando a vida é percebida como significativa. Isso impacta desde a regulação emocional até a forma como tomamos decisões e lidamos com o estresse”, explica.
Uma pesquisa publicada no Jama Psychiatry acompanhou adultos ao longo do envelhecimento e identificou que pessoas com maior senso de propósito apresentaram menor risco de desenvolver Alzheimer e comprometimento cognitivo leve – mesmo quando fatores como escolaridade, renda e condições clínicas foram considerados. “O cérebro parece envelhecer melhor quando há uma sensação clara de direção”, destaca Daiana.
Exames de neuroimagem ajudam a explicar esse fenômeno. Pesquisas mostram que indivíduos com senso de propósito apresentam menor ativação de regiões cerebrais ligadas ao conflito interno e ao esforço excessivo durante a tomada de decisões, como o córtex cingulado anterior. Na prática, isso significa um cérebro que gasta menos energia lidando com ambivalência e indecisão, favorecendo escolhas mais consistentes e sustentáveis.
Segundo a especialista, é fundamental diferenciar propósito de motivação. “A motivação é instável, depende do contexto e oscila com facilidade. O propósito funciona como uma estrutura interna mais duradoura, que organiza prioridades e oferece direção mesmo em cenários adversos. Isso reduz a reatividade emocional e melhora a clareza mental”, afirma.
A neurociência contemporânea também amplia o olhar sobre saúde cerebral, indo além de fatores clássicos como genética, alimentação ou atividade física. Estados psicológicos profundos – como sentir que a vida vale a pena – passam a integrar essa equação.
Nesse contexto, o olfato surge como um aliado pouco explorado na regulação desses estados mentais. Diferentemente dos outros sentidos, a informação olfativa alcança diretamente estruturas do sistema límbico – como a amígdala, o hipocampo, o córtex cingulado anterior e áreas do córtex pré-frontal – sem passar pelos filtros iniciais do tálamo.
Estudos com óleos essenciais como limão (Citrus limon) e sândalo (Santalum album) indicam que a inalação desses aromas pode modular a atividade do córtex pré-frontal, envolvido em planejamento, avaliação de valor e tomada de decisão, além do córtex cingulado anterior, associado ao autocontrole e ao alinhamento entre intenção e ação.
Mais do que promessas grandiosas, a ciência começa a deixar uma mensagem clara: quando o cérebro percebe sentido, ele funciona melhor – e essa pode ser uma das descobertas mais relevantes sobre comportamento humano dos últimos anos.
* Isabela Teixeira da Costa/Interina
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
