Me chamam de ave de rapina, mas a ave que admiro mesmo são os urubus. Do alto de onde moro, acompanho de perto a dança das nuvens, o balé dos eucaliptos e o voo dos urubus. Contrastando com azuis de todas as tonalidades, vejo de perto esse mestre da leveza que poucos apreciam. O urubu, é um filósofo alado de plumagem negra, ensina-nos diariamente sobre a arte de viver sem pesos desnecessários. Já os considero meus vizinhos. De vez em quando pousam no beiral da minha varanda. Trocamos os olhares e quase nos cumprimentamos. Eles sabem que eu os admiro.

 



Enquanto acumulamos preocupações, o urubu simplesmente se deixa levar pelas correntes térmicas, aproveitando o que a natureza oferece sem cobrar nada em troca. Ele não pergunta de onde vem o vento, apenas abre as asas e aceita o convite para bailar.

Vejo-os aqui do alto, flutuando, e penso em quantas reuniões, compromissos e angústias poderiam ser resolvidos se adotássemos um pouco dessa leveza. O urubu não tem pressa. O urubu não tem agenda. O urubu não tem smartphone com notificações intermináveis pipocando a cada segundo.

Há quem o considere um animal repugnante, injustiça total! O urubu é o mais higiênico dos seres, passando horas limpando suas penas. E ainda presta um serviço inestimável à saúde pública, transformando a morte em vida nova, a carniça em energia para seu voo majestoso.

Apesar de também termos a capacidade de transformar o pútrido em propulsão, não o fazemos com a frequência e a sutileza necessária. Lembro-me de quando criança, no interior de Minas, meu avô apontava para aqueles pontos negros circulando no céu e dizia: "Olha lá, os urubus estão fazendo roda. Vai chover." E quase sempre chovia mesmo. O urubu era o nosso repórter do clima, não precisava de satélites nem de aplicativos de previsão do tempo para entender os segredos das nuvens. Acho que combinava com elas a hora de chover.

Nós complicamos tudo. Inventamos problemas para depois nos gabamos de encontrar soluções. Criamos labirintos existenciais e depois nos perdemos neles, como se a vida fosse um jogo de xadrez quando, na verdade, ela bem poderia ser um simples planar.

O urubu sabe disso. Ele não luta contra o vento, mas usa sua força para subir mais alto. Não se desespera com as tempestades, apenas aguarda em algum pouso seguro até que passem. Não se angustia com o amanhã, pois sabe que sempre haverá algum resto, alguma sobra, algum descarte do qual poderá extrair o necessário para continuar seu voo.

Como sentinelas, posicionados no alto dos prédios, observam a insanidade urbana abaixo. Parecem rir de nossas correrias, de nossas filas, de nossos engarrafamentos.

Certa vez, numa tarde preguiçosa de domingo, observei um urubu planar por quase uma hora sem dar uma única batida de asas. Apenas ajustes sutis, micro ajustes na envergadura, na inclinação, no ângulo das penas. E assim ele desenhava círculos perfeitos, subindo cada vez mais alto, sem esforço aparente, como se zombasse da lei da gravidade. Hoje terá festa no céu, pensei.

Pensei também, em quantos problemas resolvi na vida batendo asas freneticamente, gastando energias preciosas, quando poderia ter apenas procurado a corrente térmica adequada e me deixado levar por ela. Quantas vezes complicamos o simples, adensamos o rarefeito, escurecemos o translúcido?

O urubu é um zen-budista alado. Não se apega a territórios – vai onde o vento o leva e a carniça o chama. Não acumula posses – carrega apenas o essencial em seu corpo aerodinâmico. Não guarda rancores – divide pacificamente o banquete com seus semelhantes. Não teme a morte – convive com ela diariamente, transformando-a em combustível para a vida.

E nós? Nós construímos cofres, cercas, muros. Acumulamos objetos que não usamos, guardamos mágoas que nos envenenam, fugimos da ideia da morte como se isso nos tornasse imortais. Pior, sujamos o mundo, nossa casa.

Se há uma filosofia do urubu, ela poderia ser resumida assim: use o que está disponível, não force o que não pode ser forçado, aceite os ciclos naturais, e, principalmente, entenda que a leveza não está na ausência de problemas, mas na forma como os sobrevoamos. Se sujou, limpe. Se poluiu, despolua.

Às vezes, no meio de uma crise existencial, de um problema aparentemente insolúvel, de uma decisão impossível, eu me pergunto: como um urubu resolveria isso? E a resposta geralmente envolve alguma forma de distanciamento, de ganhar altura, de ver o problema de cima, percebendo sua verdadeira dimensão no grande panorama da existência.


Não que o urubu não tenha problemas. Tem, como todos os seres vivos. Caça, perda de habitat e atropelamentos ameaçam a sobrevivência dos urubus. Mas ele não transforma esses problemas em tragédias. Não faz do obstáculo uma montanha. Não confunde contratempo com fim do mundo. Para o urubu, tudo é passageiro, tudo é transitório, tudo é parte de um ciclo maior que continua girando, independentemente de nossas pequenas aflições.

Ah, se pudéssemos incorporar um pouco dessa sabedoria! Se pudéssemos, vez ou outra, abrir as asas de nossa imaginação e nos deixar levar pelas correntes invisíveis que nos circundam, sem angustia, sem medo, sem resistência!

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O urubu nos ensina que a verdadeira leveza não está em evitar os problemas, mas em sobrevoá-los com a perspectiva correta. Não está em fugir das dificuldades, mas em usá-las como impulso para subir mais alto. Não está em negar a realidade, por mais dura que seja, mas em transformá-la em combustível para nosso próprio voo.

Entre térmicas ascendentes e planadores eficientes, o urubu segue sua jornada pelos céus do Brasil, indiferente às nossas complicações, alheio às nossas neuroses, livre das amarras que nós mesmos criamos para nos prender ao chão.

Talvez seja por isso que o olhamos com tanto preconceito – não pelo que ele é, mas pelo que ele nos lembra: que poderíamos ser mais leves, mais simples, mais eficientes em nossa passagem por este mundo.

Da próxima vez que você se sentir sobrecarregado, olhe para o céu. Se tiver sorte, verá um urubu desenhando círculos perfeitos no azul infinito. E talvez, só talvez, entenda um pouco mais sobre a arte de viver levemente em um mundo que insiste em nos puxar para baixo.

compartilhe