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Carlos Starling
Carlos Starling
GOSTO DE CARNAVAL

Ó abram alas

Que as únicas coisas verdadeiramente contagiosas sejam o riso e a alegria. E que eles passem, soberanos, sem deixar vítimas pelo caminho

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“Abram alas” é uma expressão que atravessa o carnaval como um estandarte sonoro. Tornou-se célebre em 1899, quando Chiquinha Gonzaga compôs a marcha “Ó abre alas”, considerada a primeira marcha brasileira. O pedido era literal: que se abrisse espaço para o cordão passar. Mas como toda boa frase brasileira, ganhou vida própria. “Abram alas” virou ordem festiva, licença poética, anúncio de que algo — ou alguém — vem aí e exige passagem. Chiquinha quebrou paradigmas para si mesma e para todas as mulheres.

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Convém notar, com alguma ironia histórica, que nem sempre as alas se abriram para todos com a mesma generosidade.

Lilia Schwarcz (a quem sou eternamente grato por prefaciar o meu livro), conta com a serenidade de quem olha o Brasil pelo retrovisor da história — que o nosso carnaval não nasceu propriamente aqui, nem nasceu propriamente santo. Muito antes do entrudo português respingar farinha nas ruas coloniais, já havia, na Europa, festas pagãs em que se celebrava a fartura, a colheita, o corpo e seus apetites. Eram rituais de excesso, quase sempre anteriores à primavera, quando o frio começava a ceder e os homens, agradecidos, exageravam.

A Igreja Católica, sábia como toda instituição milenar, fez o que costuma fazer com aquilo que não consegue eliminar: incorporou. O período de festa passou a anteceder a Quaresma — os 40 dias de recolhimento, jejum e penitência que preparam a Páscoa. Antes da abstinência, a abundância. Antes do silêncio, o barulho. A própria palavra “carnaval” traz no ventre essa contradição: do latim carne vale, algo como “adeus à carne”, ou “chutar o balde”. Despede-se da carne celebrando-a com disciplina quase litúrgica.

Assim, o que começou como rito pagão virou prelúdio cristão. O excesso ganhou calendário. O pecado, hora marcada. O desregramento, autorização temporária. Herdamos tudo isso com a criatividade de quem mistura fé, batuque e sobrevivência.

O país mudou de roupa, mas não mudou inteiramente de temperamento. Civilizamos o entrudo, criamos clubes, marchinhas, bloquinhos, cordões, depois escolas de samba, camarotes climatizados e transmissões em alta definição. Mas a velha licença moral continuou rondando a festa. Enquanto muitos lavam a alma, alguns lavam dinheiro e princípios éticos, que vão para o lixo junto com as cinzas na quarta-feira.

Gosto de carnaval. Gosto da irreverência das marchinhas e da música que nasce do improviso, da costureira que vira artista, do operário que vira rei por algumas horas. Adoro me arriscar na composição de marchinhas em parceria com meu colega Cássio Jaburú. “A picadura do mosquito é dura”, para alertar sobre a importância do combate ao mosquito da dengue, e “Com álcool na mão”, para valorizar a higienização das mãos na prevenção da COVID, foram algumas dessas obras primas do meu rastro carnavalesco.

Todo ano a história se repete com a disciplina de um samba-enredo: blocos cheios, calor escorrendo pelas costas, copos que passam de mão em mão como se a sede fosse coletiva. E, no meio da multidão, a ideia antiga e resistente de que a fantasia concede poderes extraordinários. Não concede. Fantasia só cobre o corpo; não apaga o direito alheio.

Há quem chame de galanteio o que é invasão. De ousadia o que é constrangimento. De brincadeira o que é violência. O beijo roubado, essa expressão pitoresca, carrega na verdade um verbo complicado: roubar. O corpo da mulher não é território festivo. Não é avenida pública. Não é adereço do cenário.

No tempo do entrudo, as mulheres eram alvo fácil da “diversão”. Hoje ainda são, embora tenhamos aprendido palavras novas como “não é não”, “importunação” e “consentimento”. Aprendemos a nomear; ainda estamos aprendendo a respeitar. A cada carnaval, as delegacias recebem relatos que não cabem na marchinha. E o trauma não obedece ao calendário litúrgico. Ele não termina na quarta-feira de cinzas.

Minha profissão me ensinou a desconfiar das euforias coletivas — observo outro desfile, menos visível e mais persistente. Enquanto a bateria pede passagem, microrganismos também pedem. O vírus não usa fantasia, mas sabe aproveitar aglomeração. Ele gosta de calor humano, de proximidade sem ventilação, de copos compartilhados e beijos distribuídos com generosidade geométrica.

Carnaval é, do ponto de vista epidemiológico, um laboratório a céu aberto. Em poucos dias concentram-se encontros que, em tempos ordinários, levariam meses para acontecer. A probabilidade estatística faz sua própria marchinha silenciosa: infecções respiratórias, meningites virais, mononucleose — a famosa doença do beijo — e as infecções sexualmente transmissíveis, sempre à espreita da confiança excessiva. Difícil para o senso comum correlacionar um câncer linfático (linfoma) à um ósculo fortuito no meio de uma folia. Mas, pergunte ao vírus de Epstein-Barr, que ele talvez te conte o que o teor alcoólico lhe sonegou. Saliento, esse Epstein, não é aquele do Trump. Ambos têm CPF brasileiro, como descobriu o brilhante jornalista Jamil Chade.

Não escrevo isso para transformar alegria em boletim médico. A festa é necessária. O povo que não celebra adoece de outra coisa, mais profunda e difícil de tratar. Mas a liberdade que o carnaval simboliza não pode ser confundida com dispensa de responsabilidade.

Talvez o que ainda nos falte seja compreender que consentimento é tão essencial quanto fantasia. Que preservativo é tão indispensável quanto o abadá. Que vacinação em dia é cuidado, não paranoia. Que respeito não tira o brilho da festa — ao contrário, dá-lhe dignidade.

“Abram alas”, diz a marchinha. Pois abramos, sim.

Abramos alas para a alegria — mas também para o respeito.

Abramos alas para o riso — mas não para a violência.

Abramos alas para a festa — mas não para a imprudência.

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Que as únicas coisas verdadeiramente contagiosas sejam o riso e a alegria. E que eles passem, soberanos, sem deixar vítimas pelo caminho. Amém!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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