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Carolina Figueira
Carolina Figueira
Carolina Figueira é historiadora da alimentação e pesquisadora do gosto alimentar. Doutora em história (UÉvora/UFMG), leciona no ensino superior em gastronomia da Faculdade Senac Minas. Desenvolve projetos sobre alimentação, cultura e sociedade.
HISTÓRIA À MESA

Se você gosta de biscoito tipo 'Lotus', esse texto é para você

Antes de repetir modas importadas, convém prestar atenção em preparos locais, menos industrializados, mas profundamente enraizados em trajetórias regionais

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Passei uma parte de janeiro na Bahia. No Sul da Bahia, com aquele mar quentinho, aquela paz e um tanto de comida boa. A viagem, no entanto, começou antes do litoral. Ir até o extremo Sul da Bahia de carro implica aceitar o caminho como parte da experiência. E caminhos, às vezes, surpreendem mais do que podemos esperar.

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Saímos de Belo Horizonte e fizemos uma parada estratégica em Teófilo Otoni, para dormir, recuperar as forças e comer algumas coisas diferentes. A cidade entrou no roteiro como pausa logística, mas acabou ficando por outros motivos.


Eu nunca havia estado em Teófilo Otoni. Por acaso (e esses acasos importam), o hotel escolhido tinha uma padaria logo embaixo. Eu carregava a informação de um biscoito chamado fófa, preparo recorrente na região e frequentemente associado à colonização alemã no Vale do Mucuri. Eu já sabia que não teria tempo para ir ao mercado, onde, segundo relatos, estariam as melhores versões de fófa.


Deixei as malas no quarto e rapidamente desci. Observei a vitrine da padaria. Nada indicava “fófa”. Nenhuma etiqueta, nenhum anúncio. A atendente, porém, anunciou com entusiasmo: fófas haviam acabado de sair do forno. Música para meus ouvidos. No caixa, a proprietária da padaria trouxe uma informação decisiva: ali, o preparo é feito com rapadura. Não admitem o uso de açúcar mascavo, comum em outras versões encontradas pela cidade.


O preparo leva farinha de trigo, manteiga ou margarina, rapadura ou açúcar mascavo, gengibre e especiarias como canela e cravo. A textura é diferente do que eu imaginava. Não é pão e não é bolo. Também não se encaixa na ideia de biscoito crocante. É, na verdade, uma espécie de biscoito macio, feito com especiarias e razoavelmente semelhante a um pão de mel (mas leva rapadura ou açúcar mascavo em lugar de mel).


Costuma-se narrar a fófa como herança do pfefferkuchen ou pfeffernüsse alemão – o tal fefecurren, aportuguesado pela fonética. Muitos estudos sobre a colonização alemã no Vale do Mucuri documentam fluxos migratórios, processos de integração e transformações sociais em Teófilo Otoni, mas não registram diretamente a fófa como patrimônio alimentar da região. A associação permanece como hipótese forte, plausível, mas ainda pouco explorada por pesquisas em história e cultura da alimentação. O biscoito circula mais pela memória oral, pelo balcão da padaria, pela repetição cotidiana.


Em tempos de hype do biscoito speculoos, mais conhecido pelo Biscoff Lotus, esse produto belga, com especiarias, caramelizado, crocante, convertido em referência global de gosto, talvez valha deslocar o olhar. Antes de repetir modas importadas, convém prestar atenção em preparos locais, menos industrializados, mas profundamente enraizados em trajetórias regionais.


A fófa opera em outra lógica. Não busca padronização, nem circulação em larga escala. Depende do forno, da mão, da escolha dos ingredientes e da intensidade das especiarias. É justamente aí que reside um viés muito interessante. Ao contrário dos produtos globalizados, que aprisionam o paladar para a repetição, a fófa opera pela variação. Esse preparo expressa um saber humano incorporado, transmitido pelo gesto e pela repetição cotidiana, não pela padronização.


Teófilo Otoni, aliás, oferece outros bons motivos para a parada. A carne de sol impressiona. Comi uma servida com tropeiro de feijão claro, úmido, bem cuidado, acompanhada de mandioca amarela no ponto certo. O restaurante se chama Pinguins. Vá com fome.

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E fica a pergunta, inevitável: alguém sabe se encontramos fófa sendo comercializada em Belo Horizonte?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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