O ar que nos respira
Mesmo testemunhando a brutalidade dos nossos dias, continuamos a nos emocionar com a delicadeza, somos capazes de empatia
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Enquanto escrevo essas linhas o tempo me aproxima dos 67 anos. Daqui não consigo te ver, sequer sei se tem 18 ou 70 anos. Entre nós há, provavelmente, um parêntese – duas marcas na linha do tempo que registram o lugar em que cada um está no desenrolar da nossa aventura humana. Embora o planeta em que vivemos seja o mesmo, são diferentes os nossos pontos de observação e, portanto, também diversos os nossos olhares. Estranhamente, essas diferenças não têm sido boa notícia. Assim é a regra da modernidade: ou nos calamos ou brigamos.
Em todos nós há este incômodo com as turbulências do mundo atual, as incertezas, as ameaças e crises que chegam diariamente pelo noticiário e redes sociais. Não há como ser indiferente, mesmo que a reação fique no terreno do inconsciente e acrescente à rotina tristeza e desânimo. Na verdade, o mundo nunca viveu em paz e harmonia. Recentemente, depois da queda do muro de Berlim, quando houve um período de relativa calma, Francis Fukuyama escreveu que, não havendo mais opositores à democracia liberal e à economia de mercado, estaríamos vivendo, por falta do duelo entre projetos ideológicos, o fim da história. Não li nada além de comentários sobre a tese por falta de interesse, mas é curioso pensar que, na ausência de conflito entre duas correntes de pensamento e ambição, não haveria mais nada diferente a viver e a contar da experiência humana na Terra.
Alguns autores importantes, como Yuval Noah Harari, chegaram a prever a inauguração de uma nova era, sem mais pandemias, desigualdade e guerras. O progresso da ciência e a experiência acumulada pela humanidade eram os pilares dessas previsões. A covid, a constatação estatística do crescimento da desigualdade entre nós e a explosão de conflitos ao redor do mundo acabaram de forma abrupta e rude com o devaneio.
Experimentamos agora, com espanto e incredulidade, os primeiros ensaios do possível ressurgimento da era dos impérios, onde o multilateralismo cede espaço aos blocos monolíticos de poder e a força dita a relação entre os países, divididos entre regiões de prevalência de diferentes potências dominantes. Teremos assim, caso esses projetos megalômanos vinguem, a maioria das nações servindo de quintais às novas casas grandes. Não há como não se impressionar diante de um cavalo de pau dessa magnitude nas expectativas.
Na verdade, me parece, não houve mudança abrupta de rumo, mas a sequência natural de uma linha histórica de acontecimentos. Construímos uma civilização sobre uma fundação feita dos ossos dos vencidos, usando sangue e destruição como argamassa. Mesmo assim, aprendemos muito sobre democracia, respeito, tolerância, diversidade, distribuição de riquezas, importância da ciência e da tecnologia. Mas, convenhamos, os resultados dessas lições, de nobreza indiscutível, são bem ordinários. Ou podemos achar adjetivos amenos para o cenário de pobreza, fome, violência contra os diferentes, consumismo, monetização do ódio, crescimento dos orçamentos de guerra, racismo, opressão das mulheres, devastação ambiental e crise climática?
O que nos resta fazer? A história nos convida a descruzar os braços. Se os resultados são tão ruins e mesmo assim as lideranças mundiais insistem nos mesmos critérios, nos resta a insubmissão. Ainda temos a possibilidade e a capacidade de escrever nossas próprias histórias em outro caderno, as mãos libertas e dispostas a assumir as rédeas de nossas próprias vidas. O passado como memória ninguém consegue nos arrancar. Podemos optar por exercer o poder de escolha sobre o presente e o futuro, manter a esperança diante dessa ruína.
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Observem o ar que nos respira agora: o éter que nos enche os pulmões e a alma desde os tempos dos nossos mais antigos ancestrais. Mesmo testemunhando a brutalidade dos nossos dias, continuamos a nos emocionar com a delicadeza, somos capazes de empatia. Temos no peito um coração que acelera na presença da beleza. Somos fraternos, capazes de responder com solidariedade. Temos vontade de aprender, de melhorar, de deixar legados. Sentimos falta de poesia, amamos a arte, queremos o bem, a saúde e a paz. É da nossa natureza!
Sonhamos com cidades em que todos possam andar alegres e misturados, sem temer por nossa segurança. Costumamos ser corajosos quando precisamos nos superar e vencer nossas limitações. O amor segue sendo nossa essência. Então, por que não? Façamos cada um a sua parte. Basta desligar o modo automático - que a cada dia nos entreguemos à tarefa de vivê-lo com atenção e propósito. Que o bem seja o motor dos nossos gestos. Se assim o faz cada um, o coletivo assim o fará na sequência.
Não importa quanto anos terei e quantos você terá. A diferença dos nossos pontos de vista enriquecerá o mundo. Enquanto houver amor, vontade e coragem em nós, haverá esperança de construir enfim um mundo justo e belo, que nos traga orgulho de pertencimento. E eles não nos terão vencido.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
