Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Por Isabel Gonçalves
Nos últimos dias, uma propaganda de consórcio voltada diretamente para jovens chamou minha atenção. “Você vai conseguir comprar uma casa como seus pais conseguiram”. A frase acende dois alertas sobre o momento que vivemos. De um lado, a dificuldade crescente de conquistar a casa própria, de outro, o retorno do consórcio como uma alternativa cada vez mais popular.
Não é coincidência que esse tipo de mensagem esteja circulando agora. Com juros elevados, financiamentos cada vez mais caros e uma geração que está chegando no mercado de trabalho agora, o consórcio passou a ser apresentado como solução possível e, em muitos casos, como a única alternativa viável. Mas a pergunta que fica é: essa modalidade realmente atende às necessidades dos jovens ou apenas se aproveita de um cenário de frustração e adiamento de sonhos?
Por que os consórcios passaram a mirar a Geração Z?
Dados mostram que a participação de jovens entre 18 e 29 anos subiu quase 9%. O interesse das administradoras e bancos na Geração Z não surgiu do nada. Ele é resposta direta a um cenário em que financiar ficou caro e comprar bens de alto valor parece cada vez mais distante para quem está começando a vida adulta.
Com a taxa Selic em 15% deixando os juros elevados, o financiamento tradicional perdeu espaço. As parcelas ficam mais pesadas e o custo final dispara. Além disso, a exigência de entrada é uma barreira difícil de superar em um país onde “poupança” quase não faz parte do vocabulário. Nesse contexto, o consórcio aparece como uma alternativa possível porque promete parcelas menores e ausência de juros.
Além disso, a Geração Z tende a rejeitar dívidas caras e demonstra mais preocupação com planejamento financeiro. Por isso, hoje o marketing mudou. Os consórcios falam menos de produto e mais de objetivos de vida. Para o jovem, porém, a escolha exige atenção. Nem toda solução que parece acessível no começo faz sentido no longo prazo.
O que atrai os jovens no consórcio?
O principal atrativo do consórcio para a Geração Z é simples: ele parece mais barato. Ausência de juros e parcelas mais baratas brilham os olhos. Além disso, a chamada “poupança forçada” tem grande parte dos argumentos. O consórcio costuma ser vendido como uma forma de criar disciplina e manter o foco em um objetivo de médio ou longo prazo.
O discurso de longo prazo conversa com uma geração que já entendeu que comprar tudo agora é cada vez menos viável. Como o bem não é entregue de imediato, o consórcio passa a sensação de que não é uma dívida comum, mas sim um compromisso controlado, quando na verdade é sim uma dívida e com taxas que ganham um nome diferente do que o temido “juros” e o custo efetivo total igual ou maior que o financiamento.
Qual a diferença entre consórcio e financiamento?
Na prática, a principal diferença entre consórcio e financiamento está no momento em que o bem é entregue. No financiamento, você compra agora e paga depois. No consórcio, você paga antes e só compra quando for contemplado.
Taxa de administração vs Juros
Outro ponto central é que, embora o discurso do consórcio repita que não há juros, isso não significa ausência de custo. Na prática, trata-se de um autofinanciamento pago, em que taxa de administração, fundo de reserva e seguro são diluídos ao longo do contrato. Somados, esses valores podem tornar o custo efetivo total do consórcio bem mais caro do que a propaganda sugere.
Uma das maiores confusões sobre o consórcio está na comparação entre taxa de administração e juros. Embora a taxa não seja chamada de juro, ela também representa um custo, e precisa entrar na conta.
Exemplo:
Consórcio
Imagine uma carta de crédito de R$50 mil em um consórcio de veículos com prazo de 60 meses. Considerando:
-
Taxa de administração: 20%
-
Fundo de reserva: 3%
Só de taxas, isso representa R$11.500 a mais (R$10 mil de administração + R$1.500 de fundo). Ao final do plano, o valor total pago será de aproximadamente R$61.500, sem considerar reajustes anuais da carta, que costumam acompanhar a inflação ou o preço do bem e podem aumentar ainda mais esse total.
Financiamento
Já no financiamento, considerando uma taxa de 2% ao mês e prazo de 48 meses, financiar R$50 mil resultaria em um custo total próximo de R$78 mil a R$80 mil ao final do contrato. Isso significa algo em torno de R$28 mil a R$30 mil pagos apenas em juros.
Perceba que não é simplesmente “dá na mesma”. O consórcio tende a ter um custo nominal menor, mas envolve incerteza sobre quando você será contemplado e pode sofrer reajustes ao longo do tempo. O financiamento sai mais caro, porém você recebe o bem imediatamente. No fim, a decisão envolve não só o valor total pago, mas também o tempo, a urgência e o custo de oportunidade do dinheiro.
Sorteio, lance e incerteza: o tempo não está sob seu controle
No consórcio, a contemplação acontece de duas formas: por sorteio ou por lance. No sorteio, todos os participantes concorrem mensalmente, sem garantia de quando serão chamados.
Já o lance funciona como uma antecipação de parcelas. Quem oferece o maior valor tem mais chances de ser contemplado. O problema é que isso exige dinheiro extra. O ponto central de tudo é a incerteza. Não dá para saber se a carta de crédito virá no começo, que é o ideal, no meio ou apenas no final do plano.
Para quem precisa do bem com urgência, essa espera pode virar frustração. Por isso, entender essa dinâmica é essencial antes de entrar em um consórcio acreditando que a contemplação será rápida.
Devo fazer um consórcio ou um investimento?
A verdade é que para muitos jovens, investir é a alternativa mais inteligente.
Pensa comigo: um investimento em renda fixa rendendo 15% (taxa Selic) vai te dar muito mais retorno do que um consórcio que rende a variação do valor do bem consorciado, ou seja, em média a inflação (4%).
Então, financeiramente, se você não tem pressa e tem disciplina para investir mensalmente, a dica é investir Beneficie-se dos 11% de diferença. E o melhor, sem juros, sem taxa de administração e, principalmente, com liquidez. O dinheiro continua sendo do investidor, disponível para mudar de plano se a realidade financeira mudar.
Além disso, investir preserva a autonomia. Diferente do consórcio, não há sorteio, lance ou contrato longo. E diferente do financiamento, não há dívida.
Se surgir um imprevisto, o plano pode ser ajustado. Ah, e dá pra planejar tudo isso certinho com o nosso simulador de investimentos!
Quando o consórcio pode fazer sentido e quando ele é armadilha?
Por mais que esteja longe do ideal, o consórcio não é vilão. Mas ele funciona melhor em situações bem específicas:
-
Quando há disciplina financeira, mas não muita
Manter os pagamentos em dia é essencial para não pagar multas nem comprometer o plano. A poupança forçada dá um empurrão para quem não consegue juntar dinheiro. -
Se o jovem já tem reserva financeira
Ter uma reserva evita atrasos e reduz o risco em caso de imprevistos. Além de que não faz sentido assumir um compromisso financeiro, sem dar o primeiro passo que é a reserva de emergência.
Em outros cenários, o consórcio pode gerar frustração e prejuízo:
-
Entrar achando que a contemplação será rápida
Sorteio não é garantia e lance exige dinheiro extra. Grupos atuais costumam ter centenas de participantes (às vezes até mil ou mais) e apenas um é sorteado por mês. E para ser vencedor de lances hoje, pode ter que chegar a 80% do valor do bem. -
Comprometer renda sem margem de segurança
Qualquer imprevisto pode virar atraso, multa ou desistência com perda financeira. E atraso te tira dos sorteios e da chance de dar lances. Ou seja, reduz ainda mais a chance de contemplação. -
Ignorar reajustes e custos ao longo do tempo
Taxa de administração, fundo de reserva e correções impactam o valor final. Ah, e vale lembrar que a prestação do consórcio vai sempre subir enquanto a do financiamento de veículos é estável e a do financiamento de imóveis pode até cair. -
Confundir consórcio com investimento
O consórcio não rende e não protege contra a inflação.
Conclusão: vale a pena para os jovens fazer um consórcio?
O consórcio pode, sim, ser uma ferramenta de planejamento financeiro, mas apenas quando usado com consciência. Para a Geração Z, ele surge como alternativa possível, não como solução mágica.
O risco está em entrar movido pela promessa de “comprar sem juros” e ignorar o tempo e os custos envolvidos. A ideia de que o consórcio é um planejamento e "investimento" para conquistar um objetivo de médio prazo é pura jogada de marketing. E aí, quando falta informação, o que parecia planejamento pode virar frustração e dinheiro perdido.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Antes de assinar qualquer contrato, a pergunta mais importante não é quanto custa a parcela, mas se o consórcio realmente faz sentido para a sua realidade financeira hoje. E mais importante que a pergunta, é para quem você a faz. Informação, nesse caso, vale mais do que qualquer promessa bem embalada.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
