Por Alexia Diniz
Em 2024, o dinheiro caiu na conta. O banco quebrou, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) pagou dentro do limite e a sensação foi de alívio. Parecia um problema resolvido, uma vida financeira normalizada.
Dois anos depois, aconteceu de novo. Outro banco pequeno, outra taxa alta, outra liquidação. Mais uma vez, o FGC entrou em ação e devolveu o dinheiro.
Hoje, essa pessoa está na quarta ficha do FGC. Já recebeu indenizações seguidas e, até 2028, praticamente não pode mais investir em bancos com risco de liquidação. Não porque o FGC acabou, mas porque o limite dela acabou.
Essa história deixa um recado. O FGC não foi criado para bancar uma estratégia baseada em pular de banco frágil em banco frágil. Ele existe para reduzir o impacto de um evento raro, não para virar plano A de investimento.
O que é a garantia do FGC?
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é uma entidade privada, mantida pelos próprios bancos, que funciona como um mecanismo de proteção para clientes e investidores em caso de quebra ou liquidação de instituições financeiras.
Na prática, ele age como um seguro. Se o banco quebra e o cliente tem um produto coberto, o FGC entra para ressarcir os valores dentro de regras previamente definidas. Isso evita que o prejuízo seja total, mas não elimina todos os problemas envolvidos.
É importante deixar claro desde o início: o FGC não impede bancos de quebrarem, não avalia a saúde das instituições e não garante que o dinheiro volte rapidamente. Ele apenas define até quanto o investidor pode ser ressarcido.
Qual o valor que o FGC garante?
A regra mais conhecida do FGC é a cobertura de até R$250 mil por CPF ou CNPJ, considerando o conjunto de produtos cobertos.
Mas existe uma regra menos divulgada, e muito mais perigosa, que limita o pagamento total do FGC a R$1 milhão por CPF ou CNPJ a cada período de quatro anos.
Isso significa que quem passa por sucessivas quebras bancárias pode, sim, atingir esse teto. A partir daí, mesmo que o banco quebre e o investimento esteja na lista de produtos cobertos, o FGC pode não pagar integralmente.
Exemplo:
Imagine a seguinte situação:
-
Você tinha R$250 mil no Banco A banco quebra FGC paga.
-
Depois, você coloca R$250 mil no Banco B banco quebra FGC paga.
-
Em seguida, investe mais R$250 mil no Banco C banco quebra FGC paga.
-
Resolve repetir no Banco D…
Nesse ponto, você já encostou no teto de R$1 milhão em 4 anos.
Se outro banco quebrar dentro desse período, o FGC pode não pagar tudo, ou simplesmente não pagar.
O limite de R$250 mil é por conglomerado, não por CNPJ
Um erro comum é achar que basta dividir o dinheiro entre vários bancos para aumentar a proteção do FGC. Muita gente imagina que, abrindo contas diferentes, automaticamente está mais protegido, mas não funciona assim.
Hoje, o limite de R$250 mil do FGC vale por pessoa (CPF ou CNPJ) dentro de um mesmo conglomerado financeiro, e não por cada banco isoladamente. Se duas instituições fazem parte do mesmo grupo econômico, o limite é compartilhado.
Na prática, isso muda bastante o jogo. Se uma pessoa tem R$250 mil no Inter e R$250 mil no Nubank, são conglomerados diferentes. Nesse caso, o FGC pode pagar R$500 mil no total.
Agora, se essa mesma pessoa tem R$250 mil no Will Bank e R$250 mil no Banco Master, que pertencem ao mesmo conglomerado, a proteção não dobra. O FGC considera tudo como uma única exposição e o valor máximo garantido será R$250 mil, não R$500 mil.
Por isso, antes de investir, não basta olhar o nome do banco ou a taxa oferecida. É fundamental entender quem está por trás da instituição e se ela faz parte de um conglomerado financeiro maior. Ignorar isso pode dar uma falsa sensação de segurança, e o prejuízo só aparece quando já é tarde demais.
O que o FGC faz?
Quando uma instituição financeira entra em intervenção ou liquidação, o FGC organiza o processo de ressarcimento dos clientes elegíveis. Isso envolve conferência de dados, definição de valores e liberação do pagamento.
Esse processo não é imediato. O dinheiro pode ficar indisponível por semanas ou meses, o que já é um problema relevante para quem precisa de liquidez ou estava usando aquele valor como reserva.
Além disso, o pagamento do FGC não cobre eventuais ganhos futuros. Ele devolve o valor principal e os rendimentos previstos até o limite, mas o tempo perdido e a insegurança ficam por conta do investidor.
Quais bancos são cobertos pelo FGC?
O FGC cobre bancos múltiplos, bancos comerciais, bancos de investimento, caixas econômicas e cooperativas financeiras que sejam associadas ao fundo. Isso vale tanto para grandes bancos quanto para instituições menores.
O ponto que costuma confundir muita gente é achar que, só porque dois bancos “têm FGC”, eles oferecem o mesmo nível de segurança. Não é assim que funciona. Estar no FGC não significa que o banco é sólido, bem gerido ou financeiramente saudável.
O FGC protege o produto, não o banco. Dois CDBs podem ter a mesma garantia formal, mas serem emitidos por instituições com riscos completamente diferentes. Em um, a chance de quebra é remota; no outro, a taxa alta existe justamente porque o risco é maior.
Em resumo: o FGC entra se algo der errado, mas a probabilidade de isso acontecer não é igual para todos os bancos.
Quais investimentos o FGC cobre?
O FGC não cobre qualquer investimento. Ele protege apenas produtos específicos.
Investimentos cobertos pelo FGC
-
CDB (Certificado de Depósito Bancário)
-
RDB (Recibo de Depósito Bancário)
-
LCI (Letra de Crédito Imobiliário)
-
LCA (Letra de Crédito do Agronegócio)
-
Poupança
-
Letra de Câmbio (LC)
Se você investiu em algum desses produtos, dentro do limite, há cobertura.
O que o FGC não garante?
Ficam fora da cobertura fundos de investimento, debêntures, CRI, CRA, ações, ETFs, COEs, previdência privada e qualquer aplicação fora da lista oficial.
Isso significa que, em caso de quebra, o prejuízo nesses produtos é integralmente do investidor, independentemente do valor aplicado.
Conclusão: não é só porque tem FGC que tá protegido
O FGC é uma proteção importante, mas não substitui análise e bom senso. Ele existe para reduzir o prejuízo em situações pontuais, não para sustentar decisões tomadas apenas com base em juros altos.
Em momentos como o atual, com bancos quebrando e muita gente reinvestindo no impulso, o cuidado precisa ser redobrado. Olhar só para a taxa e ignorar quem está por trás do produto é uma forma silenciosa de assumir risco demais.
Antes de aplicar, vale sempre a pergunta básica: quem está com o seu dinheiro e por quê precisa pagar tanto para ficar com ele? Nem todo prejuízo vem de golpe ou fraude. Muitos nascem de escolhas mal avaliadas, feitas achando que o FGC resolve tudo.
No fim das contas, investir bem não é correr atrás do maior rendimento possível. É saber onde o dinheiro está, quais riscos existem e evitar transformar um mecanismo de proteção em muleta.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
