Quando um homem vai à farmácia comprar um medicamento para disfunção erétil, como a tadalafila, quase nunca comenta o assunto com amigos. A conversa costuma ser rápida, discreta, às vezes feita em voz baixa e, muitas vezes, a única pessoa que participa desse momento é o farmacêutico.

João Elias, farmacêutico há 25 anos, diz que já viu essa cena se repetir várias vezes. “Me dá um perigoso’”, conta. “O que pude perceber, e o que alguns clientes chegam a dizer, é que eles têm medo de falhar. Às vezes, é com uma amante ou com alguém que acabara de conhecer”, relata.

Esse tipo de confidência, segundo João, nem sempre fica apenas no balcão. Ele lembra de um caso que, na versão contada pelo cliente, terminou em crise conjugal. O homem usava a tadalafila e a esposa sabia. Em casa, ela percebeu que a cartela estava com um comprimido a menos e estranhou. “Antes tinha quatro, agora tem três”, teria dito ela. O marido tentou justificar com um motivo qualquer, mas a conversa virou discussão quando a esposa confrontou: “Com quem você usou? A gente não faz sexo há dias.” João afirma que o episódio terminou em divórcio, depois que a esposa concluiu que havia traição e que a “pista” veio justamente do comprimido que sumiu.

Além das histórias pessoais, João aponta uma mudança no perfil de quem compra o medicamento. “Antes, a maioria era de homens acima de 50. Hoje aparecem jovens de 26, 27 anos, às vezes até menos”, diz. Ele ressalta que sua percepção é baseada no que observa no dia a dia da farmácia, e que o aumento de procura entre mais jovens pode ter várias causas, ansiedade de desempenho, insegurança, estresse, uso de álcool, cansaço, comparação e até a banalização do remédio como solução rápida para um problema que pode ser emocional, relacional ou clínico.

Se o balcão vira espaço de desabafo, ele também vira espaço de risco, especialmente quando há automedicação. João conta que recebeu, tarde da noite, por volta das 23h, uma mensagem de um cliente perguntando se podia tomar a tadalafila. Antes de responder, ele fez uma pergunta básica: “Você usa remédio para o coração?” O homem disse que fazia uso de nitratos, medicamentos comuns em pacientes com problemas no coração. João orientou que ele não tomasse. A combinação é contraindicada e pode causar queda importante de pressão, com risco de desmaio e complicações graves.

A advertência não é sugestão de farmacêutico, está descrita em bulas e orientações oficiais do medicamento e é uma das razões pelas quais a tadalafila não deveria ser tratada como “remédio inofensivo”. Misturar tadalafila com nitratos pode derrubar a pressão de forma perigosa.

Esses relatos mostram dois lados: de um lado, o silêncio e a vergonha em torno da sexualidade masculina; de outro, a facilidade de recorrer a um comprimido sem investigar a causa do problema. A tadalafila pode, sim, ser um recurso válido para disfunção erétil quando indicada e acompanhada. A questão começa quando ela vira a única resposta disponível, quando substitui conversa, avaliação clínica e cuidado emocional. Sem entender o que está por trás do sintoma, o remédio pode apenas empurrar a raiz do problema para mais tarde.

João afirma que já atendeu homens que atravessam a cidade para comprar o medicamento “às escondidas”, mas não conseguem levar a mesma coragem para um consultório e dizer: “Estou inseguro e preciso de ajuda”. O padrão, segundo ele, se repete: urgência por uma solução rápida, medo de julgamento e dificuldade de pedir orientação. “Muita gente foi ensinada a resolver tudo sozinho. Mas tem coisa que não se resolve no escuro”, resume.

Se o balcão virou confessionário, será que falta um lugar seguro para os homens falarem de medo, insegurança e pressão por desempenho? Existem sim, o que falta é a disposição de usá-los e, principalmente, a capacidade de encarar que saúde sexual também é saúde emocional, relacional e física.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

A disfunção erétil pode ter causas variadas, desde estresse, ansiedade e conflitos no relacionamento até questões hormonais, cardiovasculares e efeitos de medicamentos. Por isso, a recomendação mais segura é procurar o médico e apoio psicológico ou terapia sexual. Falar sobre o problema não diminui ninguém; pelo contrário, evita riscos, reduz sofrimento e abre espaço para soluções reais que não dependem apenas de um comprimido.

compartilhe