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Com 4 indicações ao Oscar, "O agente secreto" lava a alma do Brasil real-lugardafinancas.com
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Luiz Carlos Azedo

Com 4 indicações ao Oscar, "O agente secreto" lava a alma do Brasil real

O público internacional pode não dominar o português, mas reconhece a atmosfera, o conflito, o trauma, a humanidade ferida, o riso que escapa na sombra

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No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Ariano Suassuna destacou uma frase de Machado de Assis, sobre os maus governos e a má política, que lhe serviu de chave mestra para entender o Brasil: “O ‘país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco.” Essa cisão não é apenas política: atravessa também a cultura, a forma como nos vemos e como conseguimos ser vistos pelo mundo.

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É nesse ponto que o cinema brasileiro, quando alcança seu novo patamar, deixa de ser apenas arte e passa a ser um momento em que o Brasil real se impõe, sem pedir licença ao Brasil oficial. E é exatamente isso que “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, realiza ao chegar ao Oscar com quatro indicações — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Escalação de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura — igualando o recorde de “Cidade de Deus” e, mais importante, disputando as categorias centrais da indústria que decide, ano após ano, quem entra no cânone universal do audiovisual.

Mas para entender por que esse feito “lava a alma” do Brasil real, é preciso voltar à literatura, porque o que o desafio comum entre um prêmio Nobel e o Oscar é ultrapassar um obstáculo invisível: a barreira da língua. Do ponto de vista cultural, a língua pode ser uma espécie de Muralha da China, que separa mundos, limita circulações e impõe hierarquias.

Milan Kundera, em “A cortina”, um grande ensaio literário, observa como o romance ocidental nasceu para investigar a condição humana, mas como a língua molda o escritor e condiciona o alcance da sua obra.

Não é irrelevante que Kundera tenha atravessado a fronteira do reconhecimento internacional por meio do francês, e não pelo tcheco — como se o mundo, para reconhecer um autor, exigisse primeiro um “passaporte linguístico”.

No cinema, essa exigência é ainda mais dura. Porque, diferentemente da literatura — onde a tradução é uma ponte antiga, poderosa e relativamente respeitada —, no audiovisual o idioma funciona muitas vezes como uma triagem: o sotaque vira obstáculo; a legenda vira resistência; o não inglês vira exceção.

É por isso que existe uma diferença decisiva entre disputar o “Melhor Filme Internacional” e o “Melhor Filme”. No primeiro caso, o cinema estrangeiro é reconhecido; no segundo, deixa de ser periférico e vai para a sala principal. “O agente secreto” está na porta da sala principal, como quem diz, sem cerimônia: “Nós também somos o mundo.”

O escritor russo Leon Tolstói (“Guerra e paz”, “Anna Karenina”) aconselhava: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” Não se trata de provincianismo; é a verdade. Nas particularidades — no cheiro, no gesto, na rua, no medo, na alegria, na violência banalizada, na música, na “vida banal” aparece aquilo que é humano o suficiente para ser reconhecido em qualquer latitude.


Recife universal

Kleber Mendonça Filho transforma o Recife, uma cidade emblemática do Nordeste brasileiro, fundada em 1537, em microcosmo do Brasil. De forma “nua e crua”, mostra a fricção permanente entre o Brasil oficial e o Brasil real como experiência estética sensível. Não “explica” o país; faz aparecer. Pois é aí que a barreira da língua começa a ceder. O público internacional pode não dominar o português, mas reconhece o essencial: a atmosfera, o conflito, o trauma, a humanidade ferida, o riso que escapa mesmo na sombra, a dignidade que insiste. A aldeia está pintada com tal intensidade que se torna universal.

O Oscar, por décadas, funcionou como uma espécie de “clube linguístico”. A língua inglesa estabelecia a norma estética e moral, como se a condição humana só alcançasse sua forma completa quando pronunciada no idioma anglo-saxão. O cinema de outras línguas era frequentemente empurrado para o “setor internacional”, um território de reconhecimento controlado, de prestígio restrito.

Essa barreira está sendo rompida. O mundo se move, os públicos se acostumaram à diversidade linguística graças ao streaming, os festivais e à circulação global. Os bons filmes não cabem mais no rótulo de estrangeiro e confrontam a onda xenofóbica que varre o mundo.

“Ainda estou aqui”, indicado a “Melhor Filme” e vencedor como “Melhor Filme Internacional”, abriu um precedente histórico para o Brasil, que “O agente secreto” agora consolida. ao insistir na sala principal e ampliar a presença brasileira no núcleo simbólico da premiação. O Brasil, por muito tempo, foi visto como paisagem, exotismo ou alegoria. Agora, aparece como personagem do mundo sem pedir tradução da alma.

O cinema americano costuma privilegiar uma ideia muito específica de carisma, dicção, presença e “centralidade cultural”. Em outras palavras: o ator precisa ser percebido como protagonista do imaginário do mundo. E, tradicionalmente, o imaginário do mundo — no Oscar — fala inglês. É por isso que a indicação de Wagner Moura tem um peso que vai além do feito individual: ela é um gesto de ruptura no lugar mais difícil.

Não se trata apenas de “um brasileiro indicado”. Trata-se de um brasileiro indicado sem apagar sua marca, com seu corpo, seu ritmo, sua assinatura humana e cultural. Seu sotaque, que antes era visto como ruído, passa a ser ouvido como estilo. A “barreira” foi ultrapassada pela identidade. “O agente secreto” fala sem pedir desculpas, transforma a estética local em universal e faz o mundo ler as legendas como nós.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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