Escrevo esta coluna de estreia me sentindo um pouco enferrujada. Como jornalista, há mais de uma década migrei para o “outro lado do balcão”, como costumamos nos referir a quem trocou a emoção das redações pela estabilidade do mundo corporativo. Já faz alguns anos que passo o dia escrevendo, é verdade. Mas, na maior parte do tempo, são orientações, documentos estratégicos, planejamento... Elaborar algo mais pessoal parece, então, um desafio.

De toda forma, a ideia aqui é trocar com você aí do outro lado — lendo estas letras provavelmente espremidas numa tela na palma da sua mão — um pouco das impressões de alguém que está imersa no universo da tecnologia, mas com o pé na crítica, fruto da minha formação jornalística e cultural. São reflexões sobre esse modo de viver nos anos 20 do século 21, oscilando entre o real e o virtual.

 

Esta semana, não pude deixar de pensar sobre como a tecnologia foi capaz de refazer a geopolítica cultural — e a forma como esse fenômeno será cada vez mais potencializado pela inteligência artificial. Abri os olhos na última segunda-feira e comecei a rolar o feed em busca das notícias da final do Super Bowl, evento mais importante daquele esporte com bola oval — para mim, menos pelo jogo em si do que pelas apresentações épicas que incendeiam o chamado halftime show.

Não estava atrás das informações do placar, claro. Queria ver a repercussão da apresentação do porto-riquenho Bad Bunny, que na semana passada já havia dominado o noticiário cultural ao emplacar três Grammys (incluindo o de álbum do ano, nunca antes dado a uma produção em língua não inglesa). O "Conejo Malo" não apenas dominou o palco mais norte-americano do planeta; ele o fez sem pedir licença ou tradução. Em um show praticamente todo em espanhol, marcado por referências à cultura latina, ele deu uma aula de idioma e outra de geografia: relembrou a quem pudesse ter esquecido que América não é sinônimo de “United States”.

Quem nunca havia ouvido falar do artista não passou incólume nas duas últimas semanas. Apesar do reggaeton não ter no Brasil sua maior audiência, o artista estará aqui depois do carnaval para dois shows praticamente esgotados em São Paulo. Benito tem mais de 50 milhões de inscritos em seu canal no YouTube (superando em 20 milhões o de Lady Gaga) e passa de 360 milhões de visualizações apenas em um dos hits do seu último álbum. À medida que artistas e criadores passam a deter os meios de produção e distribuição digital, eles não precisam mais da validação do mainstream tradicional para serem globais. Eles hackearam o centro.

Essa descentralização de narrativas e o fortalecimento de identidades será ainda mais acelerada pela inteligência artificial. Tecnologias como a dublagem automática com sincronia labial já começam a habitar o YouTube, por exemplo. Quando as barreiras linguísticas caem, o que sobra é a potência do conteúdo e a força do nicho. Como Wagner Moura muito bem lembrou ao reforçar que, para nós brasileiros, o que Hollywood chama de "melhor filme" é, na verdade, “filme estrangeiro”, estamos diante de um mundo que não precisa ser traduzido, explicado. Reconhecer esses territórios é descobrir tendências que nascem em pequenos grupos locais, mas que se tornam gigantescas quando reunidas globalmente pela rede. 

Essa lógica fica clara quando olhamos para fenômenos como Minecraft. Para quem ainda não cruzou com ele, trata-se de um jogo de construção em blocos — uma espécie de Lego digital — que se tornou um dos maiores ecossistemas culturais do YouTube, ultrapassando a marca de 2 trilhões de visualizações nesse tipo de conteúdo dentro da plataforma. Mais que um jogo, Minecraft se tornou um gênero próprio de entretenimento, no qual criadores constroem narrativas complexas, arquiteturas próprias e comunidades globais sem nunca terem pedido licença a ninguém. É a cultura de hiper-nicho em sua máxima potência — movimentando milhões de dólares na economia mundial.

Esse é o convite que faço a você nesta coluna quinzenal: olhar com atenção para o que acontece na cultura digital e seus impactos na nossa vida. É um convite para repensar a lógica do que consideramos importante ou central e identificar os filtros com os quais olhamos para o mundo. Afinal, nem tudo o que reluz é inovação, e nem tudo o que é viral é vazio. A tecnologia é um instrumento, que precisa daquilo que nos define como seres humanos: consciência, compreensão e, por que não, sotaque. Em um cenário onde a IA é capaz de traduzir o que falamos para qualquer língua, o que você escolheria dizer?


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