Disse Freud que sempre haveria guerras, enquanto as condições de vida das nações fossem amplamente diferentes, assim como o valor da vida individual. Em cada nação, elevadas normas de conduta moral exigem dos indivíduos, para ser membros da comunidade, um grande autodomínio, renúncia à satisfação dos instintos e, acima de tudo, acatar o impedimento de fazer uso de vantagens auferidas pela prática da mentira e da fraude na competição com seus semelhantes.
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Era um pacifista declarado e entendia profundamente que nada é mais nocivo e destrutivo a tudo que é precioso nos bens comuns da humanidade, confundiu as inteligências mais lúcidas ou degradou de forma mais completa o que há de mais elevado do que a guerra. Até a ciência perdeu a imparcialidade apaixonada, colaborando para produzir armas poderosas de extermínio, como na Segunda Guerra Mundial.
Sendo judeu, foi diretamente afetado pelo que acontecia em Viena. Já tinha sido alertado a sair da cidade pela ex-cliente e psicanalista princesa Marie Bonaparte, sobrinha bisneta de Napoleão Bonaparte e esposa do príncipe Jorge da Grécia e Dinamarca.
Foi essa preciosa amiga que salvou toda a sua obra, a essa altura, condenada pelo Partido Social Nacionalista, encabeçado por Adolf Hitler, apesar da insistência de Freud em permanecer em sua terra natal. E só aceitou ir para Londres quando nazistas prenderam sua filha Anna. Foram horas de terror e angústia, até a encontrarem e conseguirem, graças aos laços diplomáticos da princesa, libertá-la.
Assim, conseguiu fugir de um dos piores horrores que o mundo já assistiu. E, depois disso, esforços e acordos internacionais foram feitos entre as nações e mantidos para evitar que se repetissem tamanhas atrocidades.
Entretanto, após uma trégua no pós-guerra mundial, esses acordos foram desrespeitados por alguns países e novas guerras explodiram no mundo. Desde que reassumiu a presidência dos EUA, Trump tem provocado o mundo. Xenofóbico, expulsa imigrantes, impõe tarifaços para “fazer a América grande de novo”. Bombardeia navios no Caribe, alegando narcotráfico, bloqueia petroleiro indo para a China, sequestra Maduro e quer agregar a Groenlândia ... ninguém ameaça seu quintal, a saber, as Américas.
Uma personalidade narcísica. Volto a Freud: as crianças, antes da moralização imposta pela educação, fruíam da perversão polimorfa. Ou seja, qualquer tipo de gozo das vontades vivido como permitido, nas mais diversas situações e sem barreiras. Se impedidos, birras, escândalos, emburros, desafios e violência.
Crianças sem pudor algum exibem suas legítimas raivas, seu ciúme, vontades de gozo sobre o que é do outro, mais fraco. Éramos enfants terribles, antes de assimilarmos as leis da linguagem e da cultura em que vivemos. Ou seja, a lei simbólica.
E, então, quando educados, aprendemos a fazer sacrifícios de nossa vontade de gozo, de nossa violência sobre o outro. Essa é a única forma de viver pacificamente na civilização. E, para aprender, tivemos de aceitar limites impostos por nossos educadores, ou sofreríamos castigos e, principalmente, o que mais temíamos: a perda do amor e o abandono na nossa dependência absoluta.
Trump é ousadia e nada teme. E quem não tem medo, também não tem cuidado. Vem quebrando todos os acordos e ferindo leis de direito internacionais para pegar o que quer. A partir disso, podemos esperar qualquer coisa. Inclusive, a volta da barbárie e o perigo de desencadeamento de um conflito mundial, caso outros países fortes, como China e Rússia, decidam responder na mesma moeda.
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De fato, as duas já vêm agindo da mesma maneira contra Taiwan e Ucrânia. Não sou especialista em relações internacionais, mas, como psicanalista, sempre ressalto nos artigos que escrevo que a única maneira de viver de forma civilizada é respeitando o trabalho da civilização e a lei simbólica em favor do mais fraco, impedindo o avanço do mais forte; leia-se, o mais rico. E essa queda de leis, hoje, é nosso maior perigo.
