“O filho de mil homens” (2011), livro de Valter Hugo Mãe, virou filme. Este escritor fantástico nascido em Saurimo, Angola, em 1971, é formado em direito e literatura portuguesa moderna e contemporânea. Vive em Portugal desde a infância.
Autor, entre outros livros, de “O remorso de Baltazar Serapião” (2006), pelo qual recebeu o Prêmio Literário José Saramago, e de “A máquina de fazer espanhóis” (2010), que lhe deu o Prêmio Portugal Telecom de Melhor Romance, Valter Hugo é também poeta premiado.
Sua escrita sensível nos captura com narrativas envolventes e emocionantes, temas humanitários, histórias fortes sobre a vida de pessoas excepcionais, capazes de superar a mediocridade pelas vias afetivas. São temas importantes, polêmicos e atuais.
O forte elenco do filme “O filho de mil homens” traz Rodrigo Santoro como protagonista, contando com Miguel Martines, Rebeca Jamir, Johnny Massaro, a mineira Grace Passô (vencedora do Prêmio Shell de Teatro), Juliana Caldas e Marcello Escorel. A narração é de Zezé Motta.
Com atuação impecável, Rodrigo Santoro, aqui, não é o galã de Hollywood que conhecíamos. Vive o homem simples, despojado dos costumes sociais cruéis de sua aldeia, comunidade que rejeita, expurga e elimina todo aquele que é diferente.
Este livro filmado narra a vida de um pescador silencioso e solitário, que cresceu isolado da sociedade. Sua casa já diz muito dele, cabana à beira do mar que guarda distância da pequena vila em que está localizada.
Aos 40 anos, Crisóstomo sonha em ter um filho. Dando-se conta da solidão, entristece e desperta para o desejo de fazer laços.
O personagem se mantém apartado de ideais e preconceitos praticados ali. Fugiu dos moldes e regras, dos ideais que ensinam e também transmitem preconceitos que nos fazem cruéis e impiedosos.
Crisóstomo pensou e se convenceu de que “quando se sonha grande, a realidade aprende”. Incrível a força do desejo que o move em busca de relações verdadeiras. Em sua simplicidade afetiva, inventa uma família atípica e reúne personagens tão excêntricos quanto humanos.
O filme retira do livro histórias que se entrelaçam, não lineares, em uma trama múltipla e delicada. Com simplicidade e ternura, Crisóstomo desconstrói nossa visão de masculinidade, ao reunir personagens que sofreram e foram rejeitados pela pequena vila litorânea fictícia.
É uma ode àqueles que resistem e se conectam verdadeiramente, sem se deixar prender a convenções sociais e crenças locais.
A honestidade aqui é a tônica. Os sentimentos são expressos de forma a pedir ao mundo a vida como ela é, com seus “monstros” acolhidos de modo profundo e calmo.
Em meio à violência, personagens encontram nesse laço atípico o valor da vida na qual já não apostavam nada. Com restos e trapos, elegem um modo de sobrevivência digno da humanidade que queremos, que diz mais sim do que não!
Silviano Santiago nos inspira com sua bela escrita na orelha do livro: “É a partir dos cortes e movimentos – a descontinuidade das marés, a direção das águas, o imprevisto dos ventos – que o narrador de Valter Hugo estrutura o variadíssimo material humano do romance. Personagens surgem, saem de cena, retornam, e tudo conflui para um núcleo. Brota da trama uma nova maneira de enxergar a velha ideia de humanos organizados vivendo sob o mesmo teto. É a família que está em jogo. Mas um novo tipo de família, que rechaça a tradicional corrente de sangue patriarcal. A perpetuação do sangue aqui pede nobreza, força e sentido moral.”
Lindíssima obra, escrita e filmada, em torno das relações e do poder transformador do amor. “Afinal, ser o que se pode é a felicidade”. Vale a pena conferir.
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Dirigido por Daniel Rezende e disponível na Netflix, o filme consegue, de forma magistral, dar corpo à bela narrativa de Valter Hugo Mãe.
