Sozinhos diante do absurdo
Quando não há garantias nem respostas, cada escolha pesa inteiramente sobre quem a faz
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Hoje proponho um pequeno e desconfortável exercício ao leitor: aceitar, ainda que provisoriamente, a hipótese de que o mundo não é regido por um sentido ou propósito maior. Proponho admitirmos que a realidade funciona somente a partir das forças visíveis que podemos ver nela operar, sem garantias transcendentes ou um paraíso no final. Essa hipótese já acompanha a filosofia há tempos e nos conduz a uma questão, que é exatamente o ponto no qual desejo chegar ao final: se o sentido não é dado, quem é o responsável por construí-lo?
A passagem de uma visão teocêntrica, na qual Deus ocupava um lugar central e conferia sentido à nossa existência, para uma compreensão antropocêntrica, sem sombra de dúvidas, marca uma das maiores transformações do pensamento ocidental. A ideia não foi a de substituir Deus pelo homem, mas de deslocar a própria fonte de sentido da existência. Aquilo que antes era visto como ordem divina sobre como conduzir a vida, passou a se apresentar como tarefa aberta, a exigir que façamos escolhas, assumamos nossas responsabilidades e nos construamos continuamente.
O filósofo Immanuel Kant foi decisivo nesse movimento. Embora não elimine a ideia de Deus do horizonte moral, Kant recusa a pretensão de fundar racionalmente o sentido da vida em qualquer conhecimento metafísico. Ao estabelecer os limites da razão, o filósofo retirou do ser humano a possibilidade de se escorar em verdades últimas e inaugurou a ética fundada na autonomia. Assim, ainda que Deus permaneça como possibilidade em Kant, a responsabilidade pela vida concreta já não pode ser a Ele delegada. Somos nós que respondemos por nossos atos, escolhas e omissões.
Friedrich Nietzsche foi mais radical. Ao anunciar a “morte de Deus”, o filósofo quis descrever o colapso das antigas fontes de orientação que organizavam o sentido da experiência humana. Sem esses alicerces de outrora, o mundo se torna menos claro, restando ao ser humano a tarefa de criar novas bases, mas, agora, sustentadas pela vontade e pela experiência e não mais pela transcendência.
Assim, se não podemos, racionalmente, sustentar nossa experiência em Deus e, voltando à questão que abriu o texto, só podemos respondê-la afirmando nossa própria responsabilidade em dotar nossas vidas de sentido. O escritor franco-argelino Albert Camus faz uma das reflexões mais agudas sobre a condição humana, quando afirma que a ausência de propósito divino não deve nos conduzir ao desespero, mas à responsabilidade de dar sentido à vida que vivemos. Para ele, a condição humana é absurda e isso é decorrente do choque entre o desejo humano por significado e o silêncio indiferente do mundo.
A metáfora de Sísifo expressa essa condição. Condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta, Sísifo é a alegoria do esforço humano diante de um cosmos que simplesmente não se importa com as nossas dúvidas. Essa experiência pode ser angustiante, mas Camus nos adverte que é preciso “imaginar Sísifo feliz”, ou seja, é preciso que aceitemos o absurdo que é a existência, dotando, nós mesmos, nossas vidas de propósito e significado, apesar da ausência de um sentido prévio.
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A questão central é que, diante de um mundo silencioso, com ou sem Deus, a tarefa de fazer-se a si mesmo continua sendo humana. Ainda que não existam garantias nem sentidos prontos à espera de serem descobertos, cabe a cada um de nós construir a vida como obra própria. Empurrar a pedra não é um ato heroico, mas inevitável e recusar-se a fazê-lo também é uma escolha, com consequências que nos pertencem por inteiro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
