Há alguns crimes que nos fazem perplexos não pela brutalidade com que foram executados, mas sim pela bestialidade que revelam. Estamos falando de atos para os quais não há qualquer possibilidade de se encontrar uma justificativa racional, a não ser a indiferença por qualquer existência que não seja a própria. O caso, já bastante noticiado pela mídia e pelas redes sociais, do cão orelha, que foi morto após agressões de adolescentes, pertence a uma categoria perturbadora de acontecimentos, que nos obriga a refletirmos exatamente em razão do espelho que ele nos oferece.
Geralmente, pensamos que a violência é uma anomalia praticada por sujeitos monstruosos. Mas o que o caso do cão Orelha nos mostra é que os autores, ao que parece, não são “monstros” - conforme costuma a mídia se referir a jovens que cometem crimes e são pertencentes às classes mais vulneráveis - mas jovens formados em uma sociedade que, ao mesmo tempo em que proclama valores como empatia e respeito, reforça que o sofrimento alheio é tolerável, desde que não atrapalhe nossas vidas.
Nossos tempos exaltam a competição e tratam a vulnerabilidade como fraqueza, em um contexto no qual a indiferença, antes vista como um mal moral, assumiu o caráter de virtude funcional. O que assusta é que talvez a tortura do cão Orelha seja só um sintoma de um tempo no qual a indiferença deixou de ser uma exceção para se tornar quase uma exigência do mundo corporativo.
Quando um grupo de jovens, aparentemente inseridos em contextos de normalidade social, se sente autorizado a transformar a tortura de um animal em um ato de diversão, estamos diante de algo que é mais do que um caso isolado. Parece haver um rompido no modo como reconhecemos a dor dos que sofrem, sejam pessoas ou animais.
Sem querer ser alarmista, mas quando, em nome da satisfação do desejo imediato, se desconsidera que um animal pode sentir dor e sofrimento, já nos aproximamos de um estado de coisas no qual o próprio ser humano passa a ser visto sob a mesma ótica: ou como objeto ou como obstáculo ao prazer. Em nossa sociedade, a bestialidade não encontra alvo apenas nos animais. São inúmeros os casos de pessoas que foram mortas, sem qualquer justificativa que não a completa falta de consideração pelo valor da vida. Relembremos o assassinato do índio Galdino, em Brasília, nos finais dos anos noventa, que também foi cometido por jovens em “busca de diversão”.
Os exemplos acima são casos limites de onde nossa indiferença pode nos levar. Essa falta de consideração pela dor daqueles que sofrem, seja um animal ou um outro ser humano, é sintoma de um tempo que reduziu o outro à coisa e fez da satisfação do próprio eu o único imperativo válido. No entanto, viver como se o único objetivo da vida fosse a autossatisfação esvazia de um modo injustificado nossa experiência.
É de Heidegger a ideia de que as outras pessoas são partes constitutivas de quem somos e de que não existe experiência existencial completa sem a presença delas. Em sua linguagem sofisticada, afirma que somos seres-com-os-outros, querendo com isso dizer que as outras pessoas não são um elemento acidental ou opcional em nossas vidas. É pelo olhar do outro que muitas vezes conseguimos ter uma visão mais nítida de nós mesmos.
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Quando perdemos a capacidade de reconhecer essa alteridade, não é apenas o outro que se esvazia de significado, somos nós mesmos que reduzimos nossa experiência existencial, que necessariamente pressupõe essa convivência, nem sempre harmoniosa, com os demais. .