Ricardo Teodoro é a prova de que a vida presta
Depois de quase desistir da carreira, ator mineiro engatou um trabalho após o outro, conquistou prêmio no cinema, popularidade na TV e se viu tietado por amigos
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Nos primeiros dias do ano, quando resolveu visitar a família em São José da Safira, no Vale do Rio Doce, o ator, diretor e roteirista Ricardo Teodoro passou por uma situação diferente e inusitada. “Os amigos que cresceram comigo vinham pedir para tirar foto, a fim de provarem para as pessoas que eles me conheciam”, conta, bem-humorado, em entrevista por telefone.
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A ida anterior do mineiro a São José da Safira foi há dois anos. Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu, e a carreira dele deu uma guinada radical. Primeiro, foi convidado para participar do filme “Baby”, de Marcelo Caetano. O trabalho foi parar no Festival de Cannes de 2024 e rendeu a ele o prêmio de melhor ator revelação na 63ª Semana da Crítica.
Na sequência, foi chamado para interpretar Olavinho no remake de “Vale tudo” (Globo). O personagem era um malandro carismático e sem noção que se envolvia em vários trambiques ao lado do melhor amigo César (Cauã Reymond). O jeito atrapalhado conquistou o público e rendeu a Ricardo o convite para repetir a dobradinha com Cauã, dessa vez na série “Jogada de risco” (Globoplay).
Com estreia prevista para este ano, a série mergulha nos bastidores pouco glamourosos do futebol brasileiro. A trama acompanha Maurício (papel de Cauã), um ex-jogador sem sucesso nos gramados que tenta se reinventar como agente de atletas, transitando entre campos de várzea. Ricardo é Valter, amigo de infância de Maurício que acaba se tornando um contraventor no Rio de Janeiro envolvido em agiotagem. Ele empresta dinheiro para Maurício e, justamente por causa da grana, tem a relação com o amigo estremecida.
Contribuição
Além da série do Globoplay, Ricardo também tem sido sondado para fazer outros trabalhos no audiovisual dos quais ele não pode entrar em detalhes. “Estou vivendo uma fase de muita autoconfiança. Sinto que cada vez mais posso contribuir indo além da interpretação, sugerindo uma fala que pode ser mais interessante para o personagem naquela cena”, afirma.
E exemplifica: “Isso aconteceu agora em ‘Jogada de risco’. Propus uma fala final para meu personagem que acreditava que poderia gerar maior complexidade para a cena e o Bruno [Safadi, diretor da série] foi muito generoso em me escutar e testar. No final, deu certo e a fala entrou”.
A autoconfiança, no entanto, demorou para se desenvolver. Antes de rodar “Baby”, Ricardo passou por contrariedades que o fizeram se questionar se realmente valeria a pena insistir na carreira de ator.
Natural de São José da Safira, ele se mudou para Governador Valadares aos 16 anos para cursar o ensino médio. Lá, entrou para o grupo de teatro Asas do Invento. Quando se formou na escola, mudou-se para a capital paranaense acreditando que seria mais fácil se inserir no mercado de artes cênicas em razão do Festival de Teatro de Curitiba.
Não deu certo. Foi, então, para o Rio de Janeiro, onde estudou na Casa de Artes das Laranjeiras (CAL). Depois de formado, chegou a fazer pontas em novelas, mas nada muito relevante. Tentou a sorte em São Paulo, onde também não viu as oportunidades aparecerem.
Com a chegada da pandemia, em 2020, decidiu morar com a irmã em Ipatinga. Fez algumas peças virtuais – escritas e dirigidas por ele –, mas precisou arrumar outros empregos para se manter – foi bilheteiro e também trabalhou em shopping.
Concurso público
“Prestei concurso para ser professor de teatro da rede municipal de Ipatinga. Passei, mas, quando recebi o resultado, fui chamado para fazer uma peça em São Paulo. Pensei se valeria a pena. Eu já estava com a vida arrumada em Ipatinga”, lembra.
“Resolvi ir. Fui morar com um casal de amigos em São Paulo, comecei a ensaiar a peça e, quando já estávamos ensaiando há quase 50 dias, a Amazon me ligou convidando para participar de uma série. Achei que não seria legal com meus companheiros do teatro abandoná-los já perto da estreia. Declinei do convite da Amazon e, uma semana depois, o diretor da peça diz que o patrocínio não tinha entrado e, por isso, o espetáculo seria cancelado. De uma só vez, fiquei sem o cargo de professor em Ipatinga, sem a série da Amazon e sem a peça. Foi quando eu disse: “Chega! Não dá mais pra mim’”, conta.
Nesses acasos da vida, entretanto, o cineasta Marcelo Caetano ligou para Ricardo e surgiu a oportunidade para interpretar Ronaldo, garoto de programa que vive relação tempestuosa com o jovem Wellington (João Pedro Mariano) em “Baby”, papel que lhe rendeu o já mencionado prêmio de melhor ator revelação na 63ª Semana da Crítica em Cannes.
“Agora, eu quero voltar a fazer teatro paralelamente ao trabalho no audiovisual”, diz. “Ano passado foi o único ano que eu não fiz teatro, porque fui atravessado pelas gravações da novela. Mas, se Deus quiser, em 2026 eu vou montar um monólogo inspirado no livro ‘Pele negra, máscaras brancas’, do Frantz Fanon”, adianta.
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Sobre o maior desejo que tem e ainda não realizou, Ricardo é direto: “Queria gravar uma pegadinha com o Ivo Holanda. Sempre ri das coisas que ele fazia na TV, cresci assistindo as pegadinhas dele. Sem contar que todos os meus trabalhos sempre foram numa linha mais séria. Quero sair um pouco disso e me testar na comédia”.