Kleber Mendonça Filho: 'O brasileiro vê no cinema o que vê na Seleção numa boa fase'
Diretor de 'O Agente Secreto' concedeu entrevista à BBC News Brasil durante sua passagem por Londres, onde participou de exibições do filme para membros do BAFTA, maior premiação do cinema britânico.
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Depois de conquistar inéditos dois Globos de Ouro, O Agente Secreto segue em campanha no circuito internacional de premiações.
Na semana passada, o diretor Kleber Mendonça Filho esteve em Londres para participar de sessões especiais do filme voltadas a membros da Academia Britânica de Cinema, responsável pelo BAFTA 2026 — o principal prêmio do cinema britânico, equivalente ao Oscar nos Estados Unidos.
O longa integra a lista de pré-indicados ao BAFTA, com o anúncio oficial marcado para 27 de janeiro. Antes disso, a equipe aguarda o anúncio das indicações ao Oscar, que acontece nesta quinta-feira (22/1).
Durante sua passagem pela capital britânica, Mendonça Filho visitou a sede da BBC — onde concedeu entrevistas à BBC News e à BBC News Brasil e falou sobre o reconhecimento internacional do longa e a recepção calorosa dos brasileiros. O encontro foi registrado pelo diretor com uma foto em suas redes sociais.
A presença de O Agente Secreto em tantas premiações é vista por Mendonça Filho como uma prova concreta do prestígio alcançado pelo cinema brasileiro fora do país.
Mas, segundo ele, "muito importante, talvez até, em primeiro lugar, é que os filmes brasileiros sejam vistos no próprio Brasil".
"Eu acho que é incrível o Brasil, o brasileiro, as brasileiras terem orgulho de um produto cultural que é brasileiro e que está tendo uma aceitação internacional. Eu acho que o público brasileiro vê no cinema um pouco do que senti vendo a Seleção numa boa fase. Um atleta, um músico", afirmou.
"Fico muito feliz de ver O Agente Secreto tendo se transformado num arrasa-quarteirão, num blockbuster brasileiro no Brasil."
Segundo o diretor, fazer com que o cinema nacional seja visto no próprio Brasil é um dos principais desafios da produção audiovisual, em um cenário marcado pela presença dominante de Hollywood.
"E esse é um desafio constante não só para o cinema brasileiro, mas para o cinema francês, para o cinema alemão, para o cinema canadense, para o cinema do mundo inteiro", diz.
Mas O Agente Secreto parece ter rompido essa barreira. O filme extrapolou as telas do cinema e se refletiu na cultura popular do país. Em São Paulo, por exemplo, foi criado o bloco de Carnaval "A gente é secreto", que Mendonça Filho diz ter achado "sensacional".
"Não sei se vocês sabem, mas tem o bloco Pitombeira dos Quatro Cantos em Olinda, e o Wagner usa uma camisa da Pitombeira de 1977. A venda dessas camisas já garantiu não só esse Carnaval, mas o do ano que vem também. Ou seja, o filme está se desdobrando de várias maneiras e isso é muito especial", declarou.
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A recepção calorosa do público brasileiro ao filme e a forma como cada premiação de O Agente Secreto é celebrada nas redes sociais também é destacada pelo diretor.
Segundo ele, "é lindo ver o público brasileiro mandando tanta energia e se fazendo presente na internet".
E essa mobilização dos brasileiros tem deixado os americanos impressionados.
"Os amigos da Neon, que é a distribuidora nos Estados Unidos, ficam encantados e pasmos com a força do Brasil na internet, no sentido de apoiar um filme brasileiro", afirma.
'Países inteligentes financiam cultura'
Com orçamento total estimado em cerca de R$ 28 milhões, O Agente Secreto contou com diferentes fontes de financiamento, entre recursos nacionais e internacionais.
Segundo a assessoria da produção do filme, a maior parte — pouco mais de R$ 14 milhões — veio de coprodutores estrangeiros da França, Alemanha e Holanda.
Cerca de R$ 5,5 milhões foram financiados pela iniciativa privada e R$ 7,5 milhões pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ligado à Agência Nacional do Cinema (Ancine).
O fato de parte do dinheiro usado para produção ser proveniente de verba pública gerou críticas ao longa, o que, na avaliação de Mendonça Filho, reflete uma "visão atrasada", desconectada da forma como outros países tratam a cultura.
"Eu acho que é uma falta de visão extraordinária, porque um país inteligente investe na sua própria cultura, da mesma maneira que um país inteligente investe na educação e na saúde. São investimentos que voltam multiplicados em relação ao que o país, como nação, ganha em identidade, em compreensão do próprio país", afirmou o diretor.
"Então, quanto mais informação ou quanto mais capacidade de você se identificar com o que é feito no país, é melhor para o país."
De acordo com Mendonça Filho, pouco mais de 100 filmes são feitos todo ano no Brasil, a maior parte deles com incentivos públicos.
"E o Brasil não está sozinho nisso", pontuou, citando exemplos de países que mantêm políticas de investimento em produção cultural.
"A Coreia do Sul, a França, a Alemanha, Holanda, Austrália, o Canadá, o México, são países que investem na sua própria cultura. Então, me parece que é uma visão muito atrasada e que eu não entendo como ela continua sendo propagada como algo que faz sentido, porque não faz o menor sentido."
'Espero que filmes estrangeiros tenham tratamento mais respeitoso'
O Agente Secreto contabiliza mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo. Até agora, o longa-metragem já conquistou 56 troféus em 36 premiações, incluindo a mais recente, no Globo de Ouro.
Entre as premiações, uma chamou atenção não apenas pelo reconhecimento internacional, mas pela forma como o prêmio foi entregue.
No início de janeiro, o longa venceu o prêmio de Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards 2026.
Diferentemente do habitual, a categoria não foi apresentada no palco ao lado das demais, nem transmitida ao vivo durante a cerimônia.
A entrega aconteceu no tapete vermelho, na entrada do evento, durante uma entrevista com Kléber Mendonça Filho, que se mostrou visivelmente surpreso com a situação.
À BBC News Brasil, o diretor disse que a forma como a entrega aconteceu "foi um grande erro", principalmente por se tratar de um filme internacional, e que espera um tratamento mais respeitoso ao cinema estrangeiro.
"Num momento político pelo qual os Estados Unidos passam hoje, onde existe uma energia tão negativa em relação ao elemento externo, estrangeiro, imigrante, e o prêmio ser entregue do lado de fora como uma coisa super frívola e superficial, quase como uma brincadeira. Eu acho que não pegou bem de forma alguma", afirmou.
"Eu espero que no ano que vem os filmes estrangeiros tenham um tratamento mais respeitoso."
Apesar do episódio, Mendonça Filho conta que, dias depois, conseguiu se posicionar em relação ao que tinha acontecido, ao anunciar, junto com Wagner Moura, o prêmio de melhor filme no Critics Choice Awards.
Durante o anúncio — que consagrou Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson — Wagner Moura fez uma brincadeira no palco ao comentar sobre a categoria: "Como chamamos no Brasil: melhor prêmio internacional".
"A gente meio que usou a oportunidade para mandar um bom recado, que eu acho que foi no ponto, foi elegante e nós tivemos ainda a honra de entregar o prêmio da Sony para a sua equipe", disse.
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