“São três sistemas que ele destrincha: a ecologia mental, a social e a ambiental. A partir delas, é possível pensar um planeta melhor”, resume o curador Pedro David ao comentar o manifesto “As três ecologias” (1989), do filósofo francês Félix Guattari. O texto inspira a mostra fotográfica “Ecosofias”, em cartaz na CâmeraSete até 22 de fevereiro.


A exposição reúne 11 artistas brasileiros e estrangeiros, com obras apresentadas em março do ano passado no projeto Foto em Pauta, atração do 14º Festival de Fotografia de Tiradentes.

Entre os participantes estão os mineiros Ana Regina Nogueira e Davi de Jesus do Nascimento, além de Chloé Azzopardi, Fede Ruiz Santesteban, Irina Werning, Kazuaki Koseki, Layla Motta, Mara Sánchez Renero, Valentina Tong e Walter Firmo. O filme “Canto de trabalho: mutirão” (1975), de Leon Hirszman, é outra atração.

Pedro David destaca que o projeto inclui, deliberadamente, artistas iniciantes. “A gente faz questão disso, porque existe essa angústia de não ser convidado para festivais. Estamos sempre pesquisando, acompanhando portfólios, guardando nomes”, afirma.

Com foco na temática ambiental, “Ecosofias” dá continuidade ao ciclo iniciado no Festival de Fotografia de Tiradentes em 2021, quando a mostra teve “Cosmopolíticas” como tema.

“Enfatizamos a necessidade de olhar para o planeta e de pensar em formas de continuidade da vida diante do cenário de destruição e do constante anúncio de um possível fim”, explica o curador.

Dentro desse eixo temático, as edições de 2023 e 2024 foram intituladas “Outros outros” e “Eztetyka da terra”, respectivamente.

Ficção científica em Tiradentes

No Festival de Tiradentes de 2026, cujas obras também serão exibidas posteriormente na CâmeraSete, no Centro de Belo Horizonte, a curadoria pretende ampliar os debates iniciados há quatro anos, desta vez a partir de uma obra de ficção científica.

O livro escolhido é “Floresta é o nome do mundo” (1972), de Ursula K. Le Guin, que imagina uma Terra onde acabaram as árvores e a exploração humana de um novo planeta coberto por florestas. “Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência”, comenta Pedro David.

A relação do homem com a água é fonte de inspiração para a fotógrafa Ana Regina Nogueira

Ana Regina Nogueira/reprodução

A belo-horizontina Ana Regina Nogueira, de 77 anos, é a participante da mostra com produção mais longeva. Em 2014, a pedido de José Trigueirinho, a artista estreou na literatura e, desde então, escreveu nove livros, afastando-se das exposições para se dedicar a projetos editoriais.

Após tantos anos de ausência de mostras fotográficas, os curadores a convenceram a participar de “Ecosofias” devido à coincidência de o convite surgir após a conclusão de um novo livro. Além disso, a seleção das imagens foi feita diretamente pela equipe curatorial.

“O trabalho já veio acompanhado da curadoria deles, com sensibilidade e compreensão realmente profunda de cada fotografia. Me disseram o quanto cada imagem provocou algo significativo neles”, comenta Ana Regina.

Série 'Olhos n'água'

Entre as obras expostas está a fotografia da série “Olhos n’água”, realizada no Rio de Janeiro, em 1993. Ela foi resultado do convite, feito no ano anterior, para Ana Regina apresentar mostra individual em Tiradentes.

“Eu vivia um período de purificação, refletindo e buscando outra vida totalmente diferente. Queria me transformar, dar uma cambalhota na vida, embora ainda não soubesse exatamente o que aconteceria”, conta.

Naquela época, a fotógrafa belo-horizontina vivia há cerca de duas décadas entre Europa, Estados Unidos e Rio de Janeiro. A partir do enfoque nas relações humanas com a água, ela encontrou o eixo simbólico que procurava.

Outros trabalhos de Ana Regina presentes em “Ecosofias” são a fotografia de mulheres em encontro de umbanda à beira-mar, no Rio de Janeiro, e a imagem de duas mãos submersas, registrada com câmera submarina em Angra dos Reis, em 1991.

Atualmente dedicada a um livro baseado em entrevistas com monges, Ana Regina afirma não saber se voltará a participar de exposições.

“O futuro não está nas minhas mãos e nem nas mãos de ninguém. A fotografia me ensinou a viver profundamente o presente. Uma foto acontece em trinta avos de segundo. É preciso estar completamente presente naquele momento”, destaca a artista.

“ECOSOFIAS”


Fotografias de Ana Regina Nogueira, Chloé Azzopardi, Davi de Jesus do Nascimento, Fede Ruiz Santesteban, Irina Werning, Kazuaki Koseki, Layla Motta, Mara Sánchez Renero, Valentina Tong e Walter Firmo, além do filme “Canto de trabalho: Mutirão” (1975), de Leon Hirszman. Exposição em cartaz até 22 de fevereiro, na CâmeraSete (Avenida Afonso Pena, 737, Centro). O espaço funciona de terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h. Entrada gratuita.

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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

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