Dois documentários lançados na Netflix jogam luz sobre o jornalismo realizado na Guerra do Vietnã. Mais do que revisitar um conflito histórico, interrogam limites, erros, hierarquias e custos humanos da profissão. Em “Cover up”, ou “Seymour Hersh: em busca da verdade”, e “The stringer”, ou “O freelancer: o homem por trás da foto”, o Vietnã aparece como ponto de origem simbólico do jornalismo que passou a confrontar diretamente o poder estatal, mas com dilemas, como autoria, verdade, instinto, silêncio e correção tardia, que continuam a ecoar.
“Em busca da verdade” é o mais ambicioso, complexo e bem resolvido. Dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, acompanha 60 anos da trajetória de Seymour Hersh, talvez o mais incômodo repórter investigativo da história recente dos Estados Unidos.
My Lai
Foi ele quem revelou, em 1969, o massacre de My Lai, quando soldados americanos assassinaram centenas de civis vietnamitas, incluindo mulheres, crianças e bebês. Décadas depois, expôs a tortura sistemática praticada por militares americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Tem hoje 88 anos e carreira marcada por obstinação, uso extensivo de fontes anônimas, conflitos com editores e relação hostil constante com o poder.
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O grande mérito do filme é mostrar o jornalismo como prática de conflito, não como epopeia moral. Como ofício imperfeito e profundamente humano. Hersh surge como um repórter movido menos por certezas do que por instinto, alguém que erra, admite e segue. O filme não tenta blindar o personagem. Pelo contrário, inclui suas controvérsias, leituras equivocadas sobre a guerra na Síria e o regime de Bashar al-Assad, sem fazer delas nota de rodapé.
O jornalismo surge como exercício contínuo de risco, correção e responsabilidade pública, não um terreno de verdades absolutas.
Filme "Em busca da verdade" revela que Seymour Hersh acertou ao denunciar massacre de My Lai e tortura em Abu Ghraib por americanos, mas também mostra erros do repórter na Síria
Poitras acerta ao pôr o método (pelo menos o da época) no centro da narrativa. Blocos de notas amarelos empilhados, mesas de trabalho caóticas, telefonemas tensos, fontes protegidas a qualquer custo, paranoia com vazamentos, discussões com editores do New York Times e ataques diretos da Casa Branca. Tudo isso constrói a ideia de que reportar é um trabalho físico, mental e ético, marcado por desgaste e solidão.
Quando Hersh afirma, já idoso, que aquilo está “cada vez menos divertido”, não soa como cinismo, mas pura exaustão de quem passou a vida enfrentando várias estruturas poderosas de negação, ocultação e violência. Soa, ainda, infelizmente, como um aspecto da realidade atual.
Apagamento
Já “O freelancer” é contraponto incômodo e necessário. O documentário questiona a autoria de uma das imagens mais famosas do século 20, a fotografia conhecida como “Garota do Napalm”, símbolo do horror da Guerra do Vietnã e da virada da opinião pública internacional contra o conflito.
Durante mais de 50 anos, o clique foi atribuído a Nick Ut, fotógrafo da Associated Press e vencedor do Pulitzer. O filme dirigido pelo americano Bao Nguyen sustenta que o autor real seria Nguyen Thanh Nghe, freelancer vietnamita cuja autoria teria sido vergonhosamente apagada no processo editorial da agência.
Documentário dirigido por Bao Nguyen assegura que Nick Ut, fotógrafo da agência AP (à esquerda), não é o autor da foto 'Garota do Napalm', que mostra menina aterrorizada durante ataque com napalm à vila vietnamita de Trang Bang
Mais do que resolver quem apertou o disparador, o filme expõe uma camada menos discutida do jornalismo: suas hierarquias internas, assimetrias coloniais e mecanismos de apagamento.
O tema é extremamente atual. Em muitos casos, profissionais freelancers, contratados às pressas em regiões remotas ou onde não há praticamente jornalistas locais, sofrem decepções. Vão à linha de frente, não são reconhecidos, seu pagamento é irrisório e só são acionados de vez em quando. É um trabalho quase impossível.
Freelancers locais, especialmente em contextos de guerra, raramente controlam crédito de seu trabalho, a circulação ou a memória histórica.
O filme mostra que Nghe perdeu não apenas o reconhecimento, mas a própria possibilidade de existir como autor dentro da história do fotojornalismo e receber centenas de prêmios. A verdade da imagem permaneceu intacta; a justiça que ele merecia, não.
Ao contrário de “Em busca da verdade”, aqui não há erro assumido em tempo hábil nem correção plena possível. Há culpa tardia, silêncio prolongado e tentativa de reparação que chega quando muitos dos envolvidos já morreram. Nghe está numa carreira de rodas depois de sofrer infarto, enfraquecido, desgastado pelos anos de injustiça.
O jornalismo mostra sua face cruel, de eterna competição, onde predominam o medo, a conveniência ou a lógica corporativa.
O diálogo entre os dois filmes é o que dá a eles força conjunta. Em um, o jornalista enfrenta o Estado, erra, corrige e insiste. No outro, o erro está na própria engrenagem jornalística, que consagra um nome e apaga outro. Ambos mostram que a verdade não circula em linha reta. É mediada por interesses, hierarquias, instintos e escolhas editoriais.
Choque frontal
Ao escalar o Vietnã como origem simbólica da investigação moderna ou da imagem que abalou consciências, os documentários sugerem que o jornalismo contemporâneo nasceu desse choque frontal com a violência e o poder. Mas lembram que, sem disposição para se examinar, admitir falhas e revisitar seus próprios arquivos, a profissão corre o risco de repetir padrões que diz combater.
No fim, “Em busca da verdade” e “O freelancer” não oferecem conforto. Ao contrário, demonstram a sordidez e a crueldade de sua própria lógica interna.
Por outro lado, eles mostram que o jornalismo só mantém sua importância quando aceita ser permanentemente questionado.
“SEYMOUR HERSH: EM BUSCA DA VERDADE”
• EUA, 2025, 117min. Documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus. Disponível na Netflix
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“O FREELANCER: O HOMEM POR TRÁS DA FOTO”
• EUA, 2025, 100min. Documentário de Bao Nguyen. Disponível na Netflix
