É muito fácil embarcar na aventura de “Marty Supreme”, que chega nesta quinta-feira (22/1) aos cinemas. Não tão simples assim é torcer pelo personagem-título, defendido de forma arrebatadora por Timothée Chalamet. Se o Oscar não vier agora, como ele almeja, trabalhou para e merece, certamente virá no futuro; Leonardo DiCaprio esperou cinco indicações até levar o dele.


Em seu primeiro voo solo desde que a produção com o irmão Benny revigorou o cinema americano, Josh Safdie desconcerta o espectador do início ao fim. A trama é ambientada na década de 1950, mas a forma é puro anos 1980. Não só a trilha sonora – que atua quase como um personagem – mas também a própria estrutura – de um filme que culmina em um grande confronto.


Aqui, no caso, todos os embates ocorrem numa disputa de tênis de mesa, que teve um rei sem trono nos Estados Unidos. Marty Mauser é inspirado em Marty Reisman (1930-2012), cuja autobiografia, publicada em 1974, tem um título autoexplicativo: “The money player: The confessions of America’s greatest table tennis champion and hustler” (em tradução livre, O jogador de dinheiro: As confissões do maior campeão de tênis de mesa e jogador da América).


Reisman sabia que sua vida daria um filme – queria Robert De Niro como ele mesmo. A história que ele conta no livro inclui uma fuga de Hanói, no Vietnã, ocupada pelos franceses, um encontro com o papa em Roma, antes de pegar um voo embriagado até o Brasil. Nem todas essas façanhas estão no filme, mas a montanha-russa do personagem deixaria Reisman satisfeito.


Na Nova York de 1952, Marty (Chalamet) vive às turras com a mãe (Fran Drescher) em um apartamento caindo aos pedaços. Anda de romance com a vizinha Rachel (Odessa A’Zion, adorável), que cai de amores por ele a despeito do marido ciumento. É o funcionário mais insubordinado da loja de sapatos de Murray Norkin (Larry ‘Ratso’ Sloman), não por acaso seu tio.


Quando a noite cai, ele passa de mesa em mesa com sua raquete aplicando pequenos golpes em incautos beberrões. Seu parceiro da noite é Wally, estreia como ator do músico Tyler Okonma, mais conhecido como Tyler, The Creator – Safdie foi pródigo em chamar celebridades para participações no filme.


Marty acha que essa vida é passageira. Acredita que não há ninguém como ele no tênis de mesa, e que só precisa de uma chance para se tornar o maioral. Só que, para alcançar seus objetivos, vale tudo. Violência física, humilhação, pressão emocional, não há limites. No início da história, ele utiliza disso tudo para conseguir US$ 700 para participar de um campeonato em Londres.


GRANDE CENA

O primeiro revés logo aparece: Rachel está grávida, e o filho não é do marido. A fecundação é um grande lance de Safdie. A câmera acompanha cada momento até que um dos espermatozoides de Marty penetra no óvulo de Rachel. Este é transformado na Lua que vira uma bola de tênis de mesa.


A partir deste momento, Marty começa efetivamente sua jornada de Nova York para o mundo. Envolve-se com todo tipo de gente: uma estrela de cinema decadente (Gwyneth Paltrow, também em grande momento); seu marido milionário e sem nenhum caráter (Kevin O'Leary, um dos tubarões do reality “Shark Tank”); um gângster amalucado (o cineasta Abel Ferrara). Egoico, Marty é capaz de tudo, até mesmo roubar um pedaço de uma das pirâmides do Egito para levar como souvenir para a mãe.


Do outro lado do mundo, Marty encontra a grande pedra no sapato. Koto Endo (Koto Kawaguchi), exímio atleta japonês, perdeu a audição por conta do devastador ataque aéreo em Tóquio no final da Segunda Guerra Mundial (1945). Ou seja, qualquer agressão verbal proferida por Marty não o afeta. No silêncio, sua raquete se torna mortal.


Na medida em que a narrativa avança, o filme deixa claro que a história de Marty só poderia ser americana, pois o personagem espelha com maestria a reputação de arrogância que os EUA vêm colecionando ao longo de sua história.


PREPARAÇÃO

Em entrevistas, Chalamet afirmou que passou sete anos se preparando para o papel. O ator encarna perfeitamente o cara que se recusa a aceitar um não como resposta. É fascinante vê-lo em ação, ainda que o personagem seja irritante em igual medida. Por exemplo: Marty tem falas terríveis sobre campos de concentração, mas não se importa com isso, pois é judeu, então se vê com propriedade para opinar.


A atuação do ator é o ponto central do filme, mas “Marty Supreme” é a diversão da temporada graças à linguagem visual nervosa de Safdie. Em mais de um momento, a impressão que temos é que a câmera “luta” para acompanhar o imparável protagonista.


Some-se a isso a trilha composta por Daniel Lopatin, que dialoga com pérolas oitentistas como “Forever young” (Alphaville), “Everybody wants to rule the world” (Tears for Fears), “The perfect kiss” (New Order) e “I have the touch” (Peter Gabriel), e o circo está completo. É frenético, intenso e ágil, como uma partida de tênis de mesa.

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“MARTY SUPREME”
(EUA/Finlândia, 2025, 149 min.) Direção: Josh Safdie. Com Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’Zion. O filme estreia nesta quinta-feira (22/1), nos cines BH 4, às 12h, 15h10, 18h20, 21h40 (leg); Boulevard 1, às 15h25, 18h20, 21h15 (leg); Centro Cultural Unimed-BH Minas, às 10h10 (sab e dom), 20h30 (leg); Cidade Premier, às 14h15 (dub), 20h20 (leg); Contagem 7, às 18h10, 21h05 (dub); Del Rey 6, às 15h15, 18h10, 21h05 (leg); Diamond 2, às 15h20, 18h30, 21h50 (leg); Estação, às 14h, 17h15, 20h30 (dub); Monte Carmo 3, às 13h05, 18h (dub), 20h55 (leg); Pátio 3, às 14h25, 17h50, 21h25 (leg); Ponteio 3, às 14h30, 17h30, 20h30 (leg); Ponteio Premier, às 15h (leg); UNA Belas Artes 2, às 20h40 (leg); UNA Belas Artes 3, às 18h (leg).

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