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‘A bossa rara de Nara’ reúne oito gravações inéditas da musa da bossa nova-lugardafinancas.com
MÚSICA

‘A bossa rara de Nara’ reúne oito gravações inéditas da musa da bossa nova

Registros foram encontrados por acaso durante uma faxina no estúdio de Roberto Menescal e ganharam arranjos para o lançamento em disco

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O produtor Raymundo Bittencourt decidiu fazer uma necessária arrumação no estúdio que ele tem no Rio de Janeiro com Roberto Menescal. Num dos armários, encontrou algo que se transformaria no mais recente tesouro musical descoberto, gravações inéditas de Nara Leão (1942-1989), lançadas agora no álbum “A bossa rara de Nara”.

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“Eu e meu assistente decidimos ver um monte de coisas que estavam nos armários. Fita cassete velha, DAT, fitas de duas polegadas. Não tem mais nem onde tocar isso. O Marquinho achou uma fita, rotulada como 'Nara'. Bom, a única Nara que eu conheço é a Nara Leão. Vamos dar uma ouvida", relata Bittencourt.


A voz inconfundível da musa da bossa nova apareceu então em muitas canções. Não foi possível resgatar todas, a fita estava em péssimo estado. “Nós pegamos as que estavam melhores. Foi uma trabalheira para equalizar”, diz o produtor.


“Disco da pesada”

“Eu pensei: 'Puxa, isso dava um disco da pesada!'. Então peguei essas músicas, fiz os arranjos e, no final, a Universal Music gostou muito. Ainda bem que ainda tem gente que gosta de boa música. Fechamos o projeto com oito músicas. Esse material tem uns 50 anos.”


Bittencourt conhecia Nara, mas nunca trabalhou com ela. Já Menescal, dono de um dos violões que definiram o som da bossa nova, fez inúmeros discos e shows com a cantora. Mas não tem nenhum registro desse material.


“Pelo que o Menescal me falou, deve ser de alguma coisa que ele estava produzindo. Uma sessão de músicas que a Nara gravou em outros projetos. Não temos referência nenhuma, de quando, onde e como o material foi gravado. Se o Menescal não sabe, eu muito menos.


A canção que simboliza a bossa nova, “Chega de saudade”, que deu o pontapé inicial do gênero ao ser lançada em 1958 por João Gilberto, está entre as músicas restauradas. Foi inevitável escolher essa faixa para ser a primeira levada às plataformas, no último dia 19, aniversário de Nara Leão.


Como as outras, ela precisou de um trabalho de restauro apurado de Bittencourt. “Eu só tinha voz e um violão longe, que você não consegue ouvir direito. Eu acho, para ser bem sincero, que o resultado ficou muito bom, a partir de uma voz tirada de uma fita antiga. Demorou quase uma semana para limpar o som.”


No repertório estão versões inéditas de canções que Nara gravou em várias fases da vida. Entre elas, o samba de Zé Keti “Diz que fui por aí”, transformada em bossa nova no seu álbum de estreia, “Nara” (1964). Já “Fotografia”, de Tom Jobim, lançada originalmente por Sylvia Telles em 1959, foi gravada também por Nara em 1977, em dueto com o próprio Tom.


Marco da bossa

“Manhã de Carnaval”, que ganhou o mundo na voz de Elizeth Cardoso ao fazer parte da trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, em 1959, foi composta por Luiz Bonfá e Antonio Maria. É um dos marcos iniciais da bossa nova, assim como “O barquinho”, parceria de Menescal com Ronaldo Bôscoli, ex-namorado de Nara. A versão recém-encontrada é bem mais suave e solar do que a interpretação de Maysa, em 1961.


Talvez a faixa menos famosa do novo álbum seja “Tristeza de nós dois”, canção de Durval Ferreira, Bebeto Castilho e Maurício Einhorn, de 1960. Mas “Você e eu”, um clássico de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, esta, sim, tem uma importância ímpar na carreira de Nara.


Ela estreou no disco cantando essa música, num álbum de Lyra gravado em 1963, o clássico “Depois do Carnaval”. Ele ajudaria Nara de forma intensa no disco de estreia dela, no ano seguinte. Se Menescal foi um guru para Nara, Lyra foi uma espécie de padrinho musical.


Para fechar “A bossa rara de Nara”, outra de Tom Jobim, “Wave”. Com ela, fica completo um álbum que pode servir como uma introdução plena ao gênero. Bittencourt reuniu músicos que o acompanham constantemente em seu estúdio, Diógenes de Souza, no baixo; Leandro Freixo, nos teclados e na flauta, e João Cortez, na bateria.


São exímios e experientes instrumentistas, num trabalho minucioso conduzido pelo violão tocado pelo produtor. Menescal, como um “convidado de honra”, faz sutis vocais em “Chega de saudade” e “O barquinho”.


“Tentei atrapalhar em nada ela cantando, fiz apenas um acompanhamento”, diz Bittencourt. “Mas na bossa nova existe uma coisa complexa. Você pega os caras que chegaram no começo do movimento e depois saíram, como o Edu Lobo, de harmonias maravilhosas, o Marcos Valle, que seguiu depois um outro caminho, uma coisa mais samba, mais pop, tudo que fizeram é muito bom. Agora, da bossa nova original mesmo, hoje só sobrou o Menescal.”


O álbum está nas plataformas digitais trazendo de volta a voz ímpar de Nara Leão. Como sempre, seu registro vocal é tranquilo, intimista e bonito. Agora, só resta pedir a Raymundo Bittencourt que continue a faxina. Quem sabe ele tenha outro tesouro da MPB para desencavar. (Thales de Menezes)

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“A BOSSA RARA DE NARA”
• Álbum de Nara Leão
• Universal Music
• Disponível nas plataformas digitais

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