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Documentário 'Melania' é propaganda pró-Donald Trump-lugardafinancas.com
CINEMA/CRÍTICA

Documentário 'Melania' é propaganda pró-Donald Trump

Filme de Brett Ratner trata a primeira-dama dos EUA como apêndice elegante do marido narcisista, útil para tornar palatável a imagem dele

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A primeira questão, quando você está diante de um documentário sobre Melania Trump ou qualquer mulher com o estranho título de primeira-dama, é ser contra ou a favor. A favor é ruim, porque nos joga no estranho caminho do filme de estado-maior. Contra, porém, não é melhor. Consiste numa maneira de atacar o marido poderoso a partir de eventual fraqueza de sua consorte.

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“Melania” se abre com o logotipo célebre do leão da Metro-Goldwyn-Mayer, a MGM. E a Metro, como mostra o letreiro logo abaixo, hoje é uma propriedade dos estúdios Amazon. Então, não há mais dúvida: é a favor.

Donald Trump já ganhou a eleição e é hora de preparar a grande noite da posse. Mas ainda estamos longe. Na Flórida. Primeiro, surgem as águas de azul puríssimo, um azul de filme publicitário. Em seguida, sobrevoamos Mar-a-Lago, a cafona e suntuosa propriedade dos Trump.

Por fim, surge Melania. Sim, ela é bonita. Logo saberemos que é elegante também. Ela foi modelo, diz o estilista que a serve, sabe perfeitamente o que quer. E, goste-se ou não de Trump, o vestido é muito bonito.

Depois temos a designer de interiores que vai decorar a Casa Branca para a nova administração. Melania e a senhora, por sinal imigrante, veio do Laos direto para o sonho americano, são amigas, se dão bem e tal.

Depois ela se ocupa dos copos que vão para o palácio presidencial. Vieram do seu país, Eslovênia, que na época de seu nascimento era parte da Iugoslávia. Ela quer a marca do país nos cristais todos. Todo mundo aquiesce.

Nem só de cerimonial vive Melania. Pela internet ela conversa com a sra. Brigitte Macron, mulher do presidente francês. Em pessoa, com a rainha da Jordânia. Em ambos os casos, elas se preocupam com a educação das crianças, o futuro das crianças etc.

Estamos nisso. A imagem que “Melania” cria de Melania é a melhor possível. Ela é suave, firme na medida certa, leal ao marido, inteligente sem ser intelectual demais. E também a mulher que sofreu horrivelmente com a morte da mãe, um ano antes.

Mas com essa imagem tão perfeita, tão a propósito, é impossível o espectador não pensar dali a pouco que caiu numa armadilha: este não é um filme sobre Melania. Melania nada mais é que um objeto capaz de suavizar a imagem atrabiliária de seu marido.

E é bem preciso que suavize, porque a posse se aproxima e é preciso mostrá-lo. Ele chega trazendo seu incontornável narcisismo. Uns poucos atos falhos são os raros momentos interessantes do filme. Um em que, no jantar logo antes da posse, aparece Elon Musk em primeiro plano. Uma panorâmica mostra bem rapidinho outros zilionários. E quase em seguida Trump dedica o jantar a eles, que financiaram a campanha e o levaram à vitória.

Não é um gesto de humildade, mas reconhecimento. Antes, governantes tinham um tanto de pudor e não revelavam para quem governavam. Trump é franco, como logo veremos.

Desde então, Melania vira apenas a acompanhante do presidente. Estará ao seu lado, ou junto do filho, ou dançando nos bailes. Apesar do vestido, apesar do belo chapéu bem melhor no filme do que nas imagens de TV no dia da posse, o que chama a atenção é Trump.

Vilão de HQ

Ao fazer uma foto com os empregados da residência oficial, abre um sorriso artificial. Não é diferente de quase todos os políticos que se conhece; pouco depois, num momento de verdadeira satisfação abre aquele sorriso de vilão de HQ tão característico. A partir daí, o filme é Trump.

Melania, como todos os demais, existe apenas como apêndice do marido. Mais ou menos como o segurança que abre e fecha a porta do carro, e que existe para Melania.

Enfim, depois de duas horas pensando o que fiz para merecer isso, termina a sessão. Lá fora, encontro um jovem com jeito de quem vai perguntar o que achei do filme.

Eu me antecipo e pergunto como ele aguentou ficar até o final. Ele diz que é jornalista, que vê o filme para perguntar às pessoas por que elas estão lá. Eu digo que sou jornalista, fiquei lá porque tenho de escrever sobre o filme.

Havia uns outros gatos-pingados na sala de cinema que também ficaram até o fim. “Devem ser jornalistas também”, ele diz e ri. “Ou adidos da embaixada”, eu digo e fujo.

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“MELANIA”


EUA, 2026, 104min. Documentário de Brett Ratner. Em cartaz no BH Shopping, às 16h30.

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