Ouvir música enquanto degusta pratos e coquetéis não é algo necessariamente novo. O que caracteriza os chamados “listening bars” – a valorização da música, que passa de mera coadjuvante ou figurante para protagonista –, aí sim, é uma novidade pulsante na cena belo-horizontina.

Esses espaços são marcados pelo som escolhido por meio de uma curadoria especializada, em volume um pouco acima do que estamos acostumados em bares ou restaurantes e por uma estrutura acústica de muita qualidade. Há também a possibilidade de que DJs se apresentem, embora isso não seja um requisito para que um negócio seja considerado um listening bar.

As versões belo-horizontinas variam muito. Partem desse conceito e ganham personalidade própria. Aqui, você descobre um pouco mais de alguns listening bars que movimentam – ou que ainda vão movimentar – a cidade.

Chegou chegando

Um dos mais novos endereços gastronômicos de Belo Horizonte é, justamente, um listening bar. O Vizú Pizza Bar foi inaugurado em novembro e, desde então, lida com filas diárias de clientes que querem conhecer e sentir sua atmosfera.

O foco são as músicas, escolhidas a dedo pela fundadora da casa e DJ Mafê Manna; as pizzas e entradinhas, preparadas pela sócia do estabelecimento, a chef Júlia Rothe; e a coquetelaria, que fica sob responsabilidade do outro sócio, o mixologista Henrique Passos.

Apesar de recente na capital mineira, o bar surgiu em 2017 em Juiz de Fora, cidade mineira na Zona da Mata. Mafê fundou o estabelecimento com o intuito de criar um ponto de encontro para jovens que gostassem de uma proposta diferente do que a cidade já oferecia.

Naquele momento, as bebidas vendidas eram drinques prontos ou cervejas e a cozinha era ocupada, volta e meia, por profissionais que usavam o espaço e concediam uma porcentagem ao bar. “Não havia uma identidade de comer e beber.”

Foi em 2018 que a dona se uniu a Henrique Passos, que começou a implementação da coquetelaria. No mesmo ano, Mafê decidiu comprar a receita de uma massa de pizza e servi-la no bar. “A receita nunca mudou, é a mesma até hoje. Desde o início, trabalhamos com longa fermentação, mas de forma descomplicada.”

Amadurecimento

Júlia Rothe (chef), Mafê Manna (DJ) e Henrique Passos (mixologista) se uniram para abrir uma casa com atmosfera única

Natália Menin/Divulgação

A pandemia foi um momento interessante para o Vizú. Foi por meio do delivery que muita gente conheceu o negócio. “Foi a hora de mostrar o produto para as pessoas. Muita gente conheceu a nossa pizza e, depois da pandemia, quis conhecer o nosso ponto físico”, explica Mafê.

Anos depois, em 2024, a fundadora teve a oportunidade de fazer um estágio na premiada pizzaria Lupita, em Lisboa, que já foi considerada a terceira melhor de Portugal, segundo a lista 50 Top Pizza Europe. Na volta dessa experiência na capital portuguesa, que ainda incluiu o trabalho por três meses em uma tasca lusitana, Mafê decidiu levar a operação do Vizú para outra cidade.

A escolhida, para a nossa sorte, foi Belo Horizonte. Depois de encontrar o ponto ideal, na Região da Savassi, Mafê, Júlia Rothe e Henrique Passos, os três sócios da casa em BH, foram ágeis em todos os processos. A obra, por exemplo, durou apenas dois meses.

Duas identidades

Apesar do nome igual, o Vizú daqui é diferente do de Juiz de Fora em diversos aspectos. “É um Vizú oito anos mais velho. Abrimos minimizando erros que cometemos em Juiz de Fora. Conseguimos investir em itens básicos como ar-condicionado, coifa, teto acústico e um sistema de som excelente”, conta a sócia, chamando a atenção para alguns “gargalos” da outra unidade que foram solucionados aqui.

No cardápio, tanto de coquetéis quanto de pizzas, as duas casas se parecem, mas não são idênticas. A pizza “Vizú”, por exemplo, tem coberturas diferentes. Em Juiz de Fora, ela leva creme branco, muçarela, queijo brie, geleia de pimenta e parmesão (R$ 47). Já em BH, os ingredientes são: creme branco, muçarela, alho assado, bacon, mel fermentado e tomilho (R$ 56). “A de Juiz de Fora reflete o momento em que foi criada, em 2017. A daqui reflete o agora.”

Além dessa, que é o carro-chefe, Mafê destaca a pizza Corn N Bacon (R$ 57), feita com creme branco, muçarela, bacon, milho e molho ranch à parte (para mergulhar as bordas).

As entradinhas são parte do menu exclusivo de BH. Um dos destaques é o Hommus Rosa com azeite de salsa, sementes e folhas acompanhado de focaccia (R$ 36). O bar conta ainda com três opções de pizzetas (pizzas menores): molho de tomate, aliche e azeite de alho (R$ 42); pasta de frango, vinagrete de abacaxi, molho de tahine e folhas (R$ 46); e queijo cabacinha, creme azedo, cebolete e ovas (R$ 40).
Entre os coquetéis de Henrique Passos, Mafê destaca o Pop Corn (R$ 38), feito com cachaça infusionada na manteiga, vermute, chicha morada (bebida mexicana à base de milho) e limão.

Vem lá do Japão

Há quem diga que o modelo de listening bar se inspirou nos “jazz kissa”, cafés de jazz que surgiram no Japão nos anos 1950. Esses espaços de luz baixa permitiam que clientes pudessem apreciar jazz e música clássica de qualidade sem quase nenhuma interferência.

Check-in em hotel

Clássicos brasileiros e ingleses se misturam no menu de pratos para compartilhar do Hotel Londres

Hotel Londres/Divulgação

Por muitos considerado o primeiro listening bar da cidade, o Hotel Londres foi fundado onde antes era a garagem de um hotel chamado Londres, que operava em um dos lugares mais pulsantes da cidade, em frente à Praça da Estação, no Centro.

Um dos sócios, Leandro Rallo, que tem anos de trabalho no setor de música e eventos, conta que percebia que a geração um pouco mais velha havia ficado sem um espaço para frequentar. “A nova geração bebe pouco, não gosta tanto de ir para a noite.”

Daí veio a ideia de montar um listening bar. Um espaço com lounges em que qualquer um pode degustar bons drinques e um cardápio diverso com porções de “finger foods”, que conta ainda com uma pista no fim da noite para os mais animados. “Assim, a gente consegue agradar o público que gosta de música e não quer só dançar”, explica Rallo.

O menu, segundo o sócio, é pensado para quem queira apenas petiscar ou mesmo quem opte por um jantar. Quem assina é o chef João Paulo Borges, do bufê Avec Gastronomia, e o responsável pelos drinques é o mixologista Felipe Moreira.

A carta é inspirada em Londres, com coquetéis como o Oxford Street (R$ 37), feito com vinho branco, purê de maçã verde, limão e Paragon (solução aromática e adocicada); Big Ben (R$ 36), com soda de morango com guaraná e hortelã e vodca; e Portobello Road (R$ 37), com soda de lichia com uva e gim. Mas também tem velhos conhecidos, entre eles o Dry Martini.

Lounges decorados recebem os clientes para ouvir música e degustar drinques desde um Dry Martini até os autorais

Hotel Londres/Divulgação

Para comer, podemos encontrar pratos para compartilhar bem brasileiros, como a coxinha de frango com catupiry e raspas de limão siciliano (R$ 46), mas também clássicos ingleses, incluindo o fish and chips (R$ 68), prato com peixe e batata fritos.

Assim como outros listening bars, o Hotel Londres prioriza uma acústica de excelência e um som com volume mais alto que o convencional. Diferentemente de outros, por lá, o momento de dançar na pista é mais usual, até mesmo pelo horário de funcionamento do bar, que se estende até as três horas da manhã.


Inovação

Um dos pratos mais apreciados combina salmão curado com guacamole, redução de missô e pão da casa

Victor Schwaner/Divulgação

Desde 2025, o Whisper serve muito mais do que drinques e petiscos. A casa, apesar de investir muito na gastronomia, não fica nada para trás nos quesitos entretenimento, acústica e tecnologia.

O sócio Fabiano Aguiar conta que nem sabia da existência do termo “listening bar” antes de abrir o Whisper. “Pensava em um lugar que me agradasse. Estava cansado de sair para jantar e não amava ir a barzinhos. Queria algo elegante, com luz baixa e animado. Assim, descobrimos os listening bars”, conta.
O Whisper surgiu com a proposta de ser um espaço para curtir boas músicas em sofás e lounges confortáveis. “Nosso objetivo também foi sempre que as pessoas apreciassem mais as bebidas do que as comidas”, destaca Fabiano.

Por isso, inclusive, os sócios contaram com Jocássia Coelho, referência em coquetelaria na cidade e no país, para assinar o bar. Ela criou uma carta especial que passa por coquetéis preparados com os mais diversos destilados. Uísque, gim, vodca, absinto, rum, tequila, cachaça, pisco e saquê são alguns usados pela especialista.

Um dos drinques de destaque, segundo Fabiano, é o Gueixa (R$ 45), com saquê, limão siciliano, bitter de cereja, licor Saint Germain (feito com flores de sabugueiro) e shrub de ameixa (concentrado à base de vinagre e frutas). Outra sugestão é o Dionísio (R$ 42), com cachaça, jerez, redução de vermute e vinho tinto e amarena.

No menu, os clientes encontram comidas fáceis de comer e perfeitas para compartilhar. Um dos mais apreciados é o “Salmão Whisper” (R$ 95). O prato combina salmão curado com guacamole, redução de missô e pão da casa.


Tecnologia e arte

No balcão do Whisper, você pode beber criações como o Dionísio (foto) e assistir à projeção de shows gravados

Victor Schwaner/Divulgação

Além de contar com um robô que faz drinques (montado a partir de um braço mecânico da indústria automobilística), a casa possui um enorme painel em que projeções são passadas ao longo da noite. Entre 20h e 21h, dá para assistir a dois shows gravados em estúdio com bandas.

Ao todo, a casa gravou 12 apresentações em um estúdio para ser reproduzido no dia a dia do Whisper. Fabiano participou da curadoria dos artistas e do repertório tocado em cada gravação. Por volta de 21h, começa a tocar uma playlist com músicas selecionadas por André Haddad. Depois, por volta das 22h, um DJ comanda o som da casa.

Como a música é parte essencial do Whisper, houve uma grande preocupação com a qualidade dos equipamentos, seja nas mesas do DJ ou nas caixas de som. Cortinas de veludo e um material especial entre os tijolos também ajudam na construção de uma acústica perfeita.

Ao som de vinis

 

Com inauguração prevista para março, o Ototoi aposta em uma apurada seleção de músicas

Ototoi/Divulgação

A Savassi, região reconhecida pela boemia e agitação em BH, vai ganhar, em breve, um novo e diferente espaço. O Ototoi (a palavra, em japonês, significa anteontem) vai funcionar como um bar de discos de vinil, onde a proposta é escutar uma ótima seleção de músicas em um espaço com boa acústica, drinques e comidinhas.

Esta será mais uma casa do empresário Bruno Golgher, que já comanda o Café com Letras e o Clube de Jazz do Café com Letras (ambos também na Savassi). Ele também é o fundador do Savassi Festival, que movimenta a região com o ritmo musical.

Embora o menu não esteja 100% definido, Bruno conta que ele será assinado pela chef Hai Oliveira, que chega à cidade após uma temporada de oito anos em Nova York, nos Estados Unidos. Ela pretende seguir uma linha oriental no menu.

Um dos pratos em teste é uma moqueca oriental de caju e pirarucu com arroz jasmim e farofa cítrica de farinha panko com farinha baiana. “O caldo é uma releitura da moqueca baiana feito com curry tailandês, dendê, tomate, pimentões e ingredientes como capim-limão, gengibre e limão kaffir (limão tailandês)”, conta a chef.

Um dos pratos testados pela chef Hai Oliveira é a moqueca de pirarucu e caju com arroz jasmim e farofa cítrica

Ototoi/Divulgação

Outro prato em vista é um trio de espetinhos japoneses: um de barriga e lombo de porco com molho demi-glace; outro de tsukune (almôndega japonesa) de carne de porco com o molho japonês amazu-an (meio doce e meio ácido), feito com redução de cachaça e rapadura na versão de Hai; e queijo coalho com geleia de maracujá, shoyu e gochujang (pimenta fermentada coreana).

Por fim, Hai também pensa em implementar um kinilaw (espécie de ceviche de origem filipina) de cogumelo com salmão.

O bar da casa será comandado pelo mixologista Filipe Brasil, que ainda não tem o menu formatado, mas também pensa em levar referências orientais para os drinques. “A proposta é uma coquetelaria mais presente”, adianta Bruno, que já investe na área há algum tempo. No momento, o Ototoi está em fase de testes e recebe eventos pontuais. A previsão de abertura oficial é março.

Silêncio absoluto

Apesar de não ser um listening bar, até mesmo por contar com apresentações ao vivo, o Clube de Jazz do Café com Letras dialoga, de alguma forma, com essa pauta. A casa coloca a música – e os músicos – em primeiro lugar. Durante as apresentações, é importante que o silêncio seja absoluto. Mas a proposta não é igual ao que se encontra em Londres e Nova York, por exemplo.

Na construção do conceito, Bruno prestou atenção no perfil de cliente belo-horizontino. Por isso, o Clube conta com intervalo e mesas na calçada para os clientes que quiserem conversar livremente e comer petiscos, sanduíches ou mesmo pratos principais.

O menu dessa casa ficou a cargo do chef Renato Quintino. Bruno destaca que faz questão de oferecer pratos veganos e vegetarianos. Um exemplo é o falafel (bolinhas de grão-de-bico) com hommus e salada de tomates e pepinos (R$ 40). “Acho interessante ter a opção de a pessoa ficar no Clube mesmo após o show. Isso tem relação com a nossa cultura ‘botequeira’, nós gostamos de conversar no bar”, completa.

Jocássia Coelho foi a responsável pela criação da carta de drinques. Um dos autorais que chamam a atenção é o Aretha (R$ 35), que leva vodca, xarope de manga, limão, geleia de pimenta e espuma de manga e faz referência a Aretha Franklin, cantora e compositora norte-americana.

Anote a Receita: Drinque Lorota do Vizú Pizza Bar

Drinque "Lorota" do Vizú Pizza Bar

Natália Menin/Divulgação

Ingredientes:

  • 50ml de uísque;
  • 20ml de xarope de framboesa;
  • 10ml de fernet;
  • 30ml de vermute;
  • 30ml de Lillet.

Modo de fazer:

  • Em um copo alto, coloque todos os ingredientes com gelo e mexa.
  • Coe para um copo baixo com gelo e finalize com um pedaço da casca de laranja.

Serviço

Vizú Pizza Bar (@vizupizzabar)
Avenida Getúlio Vargas, 1445, Funcionários
(31) 98335-2567
De terça a quinta, das 18h à 00h; sexta, das 19h à 1h; sábado, das 14h à 1h

Hotel Londres (@londres.hotel)
Avenida Santos Dumont, 240, Centro
(31) 99723-8882
Sexta e sábado, das 20h às 3h

Whisper (@whisper.bar)
Rua Santa Catarina, 1287, Lourdes
(31) 3656-0025
De quinta a sábado, das 20h à 1h30

Clube de Jazz do Café com Letras (@clubedejazzdocafe)
Rua Antônio de Albuquerque, 47, Funcionários
(31) 98872-4989
Terça e quarta, das 19h às 23h; quinta, das 19h às 23h30; sexta e sábado, das 19h à 1h

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino

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