Selic a 2% é um dos fatores que explicam a derrota de Bolsonaro, diz Haddad
Política monetária naquele período contribuiu para disparar a inflação e deteriorar o ambiente econômico às vésperas do pleito, afirmou o ministro
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (10) que a manutenção da taxa básica de juros em 2% ao ano durante o governo Jair Bolsonaro é um dos fatores que ajudam a explicar a derrota do então presidente na eleição de 2022.
Segundo ele, a política monetária adotada naquele período contribuiu para a disparada da inflação e para a deterioração do ambiente econômico às vésperas do pleito. "Com uma inflação de 13%, não tinha como a dívida [pública] não cair", afirmou.
A declaração foi feita durante participação no CEO Conference, promovido pelo banco BTG Pactual.
"Fixaram os juros a 2%, o câmbio disparou e a inflação veio na sequência. A inflação chegou a dois dígitos", afirmou. "Como é que você entra numa eleição com inflação de dois dígitos?"
Em 2022, o IPCA acumulou alta próxima de 13% no pico, pressionando o custo de vida da população.
Haddad também criticou medidas adotadas no ano eleitoral para conter os preços, como a desoneração dos combustíveis. Segundo ele, a iniciativa teve efeito temporário e provocou desequilíbrios fiscais relevantes. "Fizeram aquela maquiagem com a gasolina, que arrebentou as contas estaduais e também as federais", disse.
O ministro disse que a queda da dívida pública observada naquele período não refletiu melhora estrutural das contas, mas foi consequência direta da inflação elevada.
Haddad afirmou que o início do atual governo foi marcado por um ambiente de "muita confusão", inclusive de diagnóstico, sobre o que havia ocorrido em 2022. "Se a gente não olhar o filme inteiro, não vai entender", afirmou, citando um Orçamento para 2023 que desconsiderou o não-pagamento de precatórios e o aumento no Bolsa Família.
Ao comentar o cenário atual, o ministro afirmou não ver razão econômica para a continuidade da elevação do juro real. Para ele, o patamar alto gera um efeito de alta sobre a dívida pública que o governo não consegue contrapor com "nenhum nível de superávit primário". Apesar disso, disse que o governo tem avançado no ajuste das contas e que o déficit fiscal caiu cerca de 70% desde o início do governo Lula.
"Gostaria de ter ido além? Gostaria. Mas a gente tem que negociar com o Congresso", disse.
O ministro ainda falou da importância do Banco Central para a estabilidade econômica, afirmando que a autoridade monetária pode "contribuir muito ou prejudicar muito um país". Disse que suas críticas ao patamar dos juros não têm o objetivo de macular a autonomia do BC, mas refletem uma avaliação econômica legítima.
REFORMA TRIBUTÁRIA E NOVO SISTEMA
O ministro voltou a classificar a reforma tributária como a principal transformação estrutural em curso no país. Para Haddad, o novo sistema será comparável, em escala e impacto, a uma revolução tecnológica.
"Estamos falando de um sistema operacional muitas vezes maior do que o Pix. Vamos ter o melhor sistema tributário do mundo", afirmou.
Segundo Haddad, nenhum outro país oferecerá o mesmo nível de transparência ao consumidor. "O cidadão vai saber exatamente qual é a tributação no ato da compra", disse.
O ministro disse ainda acreditar que, com o ajuste fiscal em curso e a modernização do sistema tributário, o Brasil tende a se tornar mais atraente para o investimento estrangeiro.
CASO MASTER EXPÕE FALHAS REGULATÓRIAS, APONTA HADDAD
Haddad afirmou que, após o episódio do Banco Master, o governo passou a discutir uma reforma mais estrutural do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). "Depois do que aconteceu, ninguém pode querer manter as regras que permitiram esse descalabro. Temos que fechar as brechas que permitiram essa fraude", afirmou Haddad.
O ministro disse que o caso evidenciou fragilidades na legislação vigente e levou à descoberta de fraude estimada em R$ 12 bilhões.
"O fato concreto é que o Banco Master, até 2024, teve um crescimento exponencial que foi estancado assim que o Galípolo [atual presidente do Banco Central] tomou posse", afirmou Haddad.
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Para o ministro, o episódio mostrou que o arcabouço regulatório não foi "suficientemente robusto" para impedir uma operação desse porte. "Felizmente, não foi um risco sistêmico", disse.