Luzes em neon, vitrines cheias de TV ligada e um jingle que gruda na cabeça fazem da história da Arapuã um dos capítulos mais marcantes do varejo brasileiro: a rede que virou a maior loja de eletro do país cresceu acelerada no crediário, surfou a euforia do consumo popular e acabou afogada em dívidas bilionárias, deixando lembranças, processos na Justiça e muitas lições para o presente.
Como uma loja de tecidos em Lins virou a maior rede de eletro do Brasil
A trajetória da Arapuã começa nos anos 1950, em Lins, no interior de São Paulo, com o jovem Jorge Wilson Jacó herdando uma loja de tecidos da família. Em vez de manter apenas o modelo tradicional, ele incluiu eletrodomésticos em um momento em que esses produtos ainda eram novidade para boa parte da população.
Em 1957, surgiu oficialmente a primeira loja com o nome Arapuã, já com crediário próprio e venda parcelada direto com a loja. Essa decisão aproximou o comércio de consumidores de renda mais baixa, que tinham pouco ou nenhum acesso a bancos, ajudando a transformar a rede em símbolo do consumo popular nas décadas seguintes.
Por que o crediário próprio foi tão decisivo para o crescimento da Arapuã
O crediário funcionou como motor de expansão da rede, permitindo o famoso pagamento em carnê em cidades médias e grandes. Em um cenário de baixa bancarização, a Arapuã colocou televisores, geladeiras e rádios ao alcance de famílias que não conseguiam pagar à vista nem obter crédito em instituições financeiras.

Entre 1966 e 1971, a empresa abriu quase 100 novas filiais, consolidando presença na capital paulista e em outros estados. Integrada ao Grupo Fenícia, passou a atuar também em alimentação, construção civil e sistema financeiro, por meio do Banco Fenícia, investindo cedo em tecnologia e sistemas de informática nos anos 1980.
Como foi o auge da Arapuã e o impacto do Grupo Fenícia e do jingle “Ligadona em você”
No fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, a Arapuã já era presença forte nos grandes centros urbanos, com mais de 265 lojas e cerca de 2 mil funcionários. O slogan “Ligadona em você”, reforçado por campanhas de rádio e TV, fixou a marca na memória do público e virou referência na publicidade do varejo.
Em 1996, a empresa abriu capital na bolsa de valores e passou a negociar ADRs em Nova York, alcançando faturamento anual em torno de R$ 2,2 bilhões. Esse cenário, somado à estrutura do Grupo Fenícia, alimentou a percepção de que a Arapuã seria um caso duradouro de sucesso, típico da era do varejo de grandes magazines.
Quais decisões e crises empurraram a Arapuã para a queda
A partir de meados de 1995, a estratégia mudou de forma brusca, com o fechamento de cerca de 120 lojas e forte enxugamento do mix de produtos para focar só em eletroeletrônicos. A busca por eficiência deixou o negócio mais vulnerável às oscilações da economia e muito dependente de um segmento único e mais sensível ao crédito.
Em seguida, a crise asiática de 1997 elevou juros e impostos, afetando diretamente uma rede em que cerca de 75% das vendas dependiam do crediário próprio. A inadimplência cresceu rapidamente, com cheques sem fundo, atrasos em carnês e calotes em série, pressionando um caixa já estressado pelo alto volume de crédito concedido a clientes.
Selecionamos o vídeo do Canal 90 que faz sucesso no YouTube com seus vídeos incríveis:
Quais lições o fim da Arapuã deixa para o varejo atual
No fim da década de 1990, a Arapuã acumulava mais de R$ 1 bilhão em dívidas e entrou com pedido de concordata para ganhar tempo e renegociar débitos. Mesmo com tentativas de reestruturação, a confiança de fornecedores e investidores se deteriorou, agravada por disputas judiciais e pela atuação cruzada com o Banco Fenícia.
Alguns eventos-chave mostram como o desequilíbrio entre crédito fácil, governança frágil e choque macroeconômico pode destruir uma gigante do varejo:
- Condenação, em 2001, de Jorge Wilson Jacó e familiares por uso indevido do Banco Fenícia para financiar a rede, decisão depois revertida, mas danosa à imagem.
- Entrada de grandes fornecedores, como a Philips, com pedidos de falência na Justiça, aumentando a pressão e o risco de desabastecimento.
- Decretação de falência em 2002, seguida de recursos que prolongaram a disputa judicial e adiaram um desfecho claro.
- Confirmação definitiva da falência pelo STJ em 2020, encerrando juridicamente uma história que já não operava havia muitos anos.
Mesmo após o fechamento das lojas, o nome Arapuã seguiu sendo disputado em leilões e negociações ligadas à quitação de dívidas, com rumores de reativação da marca sem resultados concretos. A memória afetiva permanece viva, levantando questões sobre como gigantes se tornam vulneráveis, quais limites do crédito fácil e como marcas antigas podem renascer em novos modelos digitais.
A história da Arapuã é um alerta urgente para quem empreende ou trabalha com varejo e crédito: decisões de crescimento acelerado sem gestão de risco podem custar décadas de construção de marca. Use esse caso hoje para rever sua estratégia, fortalecer controles e evitar repetir, amanhã, os mesmos erros que derrubaram uma das maiores redes do país.




