No cuidado de feridas, a decisão sobre qual produto aplicar costuma gerar dúvidas, especialmente quando se fala em colagenase e óleo de girassol (AGE). Apesar de muitas vezes serem tratadas como alternativas concorrentes, elas exercem papéis diferentes no processo de cicatrização e devem ser escolhidas conforme as características da lesão, sempre considerando avaliação clínica, protocolos institucionais e condições gerais do paciente.
Como a colagenase atua no tratamento de feridas
Separamos este vídeo do @Descomplica Enfermagem porque ele esclarece, de forma técnica e prática, quando a colagenase e o óleo de girassol (AGE) devem ser utilizados no tratamento de feridas, evitando escolhas inadequadas e falhas na cicatrização.
A colagenase é um agente de desbridamento enzimático, com enzimas que quebram as fibras de colágeno que mantêm o tecido morto aderido ao leito da ferida. Ao enfraquecer essas ligações, ela facilita a retirada do material necrótico, etapa essencial para que o tecido saudável se desenvolva e para reduzir o risco de infecção local.
Geralmente, a colagenase é indicada quando há necrose, crostas espessas ou tecido amarelado e desvitalizado ocupando parte da ferida. Nesses casos, o objetivo principal é preparar o leito, removendo o que impede a cicatrização, com trocas frequentes de curativo e proteção adequada das bordas para evitar maceração da pele adjacente.
Quando usar o óleo de girassol (AGE) na cicatrização
O óleo de girassol AGE é composto por ácidos graxos essenciais, como o ácido linoleico, além de vitaminas que ajudam a manter a integridade cutânea. Diferentemente da colagenase, ele não tem função de desbridar; sua principal ação está no estímulo ao tecido de granulação, favorecendo a manutenção de um leito vermelho, úmido e viável.
Essa cobertura costuma ser escolhida quando a ferida já passou pela fase de remoção de tecidos mortos e apresenta leito limpo, com predomínio de granulação. O AGE ajuda a manter um ambiente úmido e protegido, mas não remove necrose, não substitui antimicrobianos e não é indicado em úlceras de origem tumoral ou em feridas cirúrgicas recentes com pontos, nas quais pode interferir na estabilidade da sutura.
Como escolher entre colagenase e óleo de girassol

A expressão “melhor produto” não se aplica de forma absoluta no tratamento de feridas, pois colagenase e óleo de girassol atendem a necessidades diferentes. Em feridas com necrose aderida, a colagenase tende a ser mais apropriada, porque contribui diretamente para o desbridamento químico controlado e para a preparação do leito.
Quando o leito já apresenta granulação viável e não há material desvitalizado, o AGE torna-se uma alternativa mais coerente, pois nutre o tecido e mantém o ambiente úmido. Em feridas muito exsudativas ou infectadas, porém, torna-se necessário associar coberturas absorventes e/ou antimicrobianas, como espumas, alginatos ou produtos com prata, PHMB ou iodo, conforme avaliação profissional.
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Quais cuidados adotar ao definir o tratamento de feridas
A seleção entre colagenase e óleo de girassol AGE não deve ser automática nem baseada apenas em hábito de serviço. Uma avaliação sistematizada da ferida considera aspectos clínicos e locais, permitindo definir se a prioridade é desbridar, estimular granulação, controlar exsudato ou proteger a pele ao redor.
Nesse processo de avaliação, alguns pontos merecem atenção especial do profissional de saúde e ajudam a guiar a escolha mais segura e alinhada ao objetivo do curativo:
- Presença ou ausência de necrose, ou esfacelo.
- Tipo predominante de tecido no leito (necrótico, de granulação, epitelização).
- Quantidade de exsudato (seca, pouco exsudativa, muito exsudativa).
- Condição das bordas e da pele ao redor (maceração, ressecamento, integridade).
- Histórico clínico do paciente, incluindo cirurgia recente ou ferida oncológica.
Com base nesses elementos, o profissional decide se a prioridade é remover tecido desvitalizado, estimular granulação, reduzir exsudato ou proteger a pele adjacente. Em muitas situações, a colagenase pode ser utilizada em uma fase inicial e, após limpeza adequada do leito, o cuidado prossegue com AGE ou outras coberturas de manutenção mais adequadas ao estágio de cicatrização.
- Identificar o tipo de tecido predominante na ferida.
- Verificar sinais de infecção local ou sistêmica.
- Analisar o nível de umidade e a quantidade de exsudato.
- Definir o objetivo imediato do curativo (desbridar, proteger, estimular granulação).
- Selecionar a cobertura compatível com esse objetivo e com o contexto clínico.
Dessa forma, fica evidente que colagenase e óleo de girassol não atuam como rivais, mas como recursos complementares num plano de cuidado. O elemento central não é o produto isolado, e sim a avaliação criteriosa da ferida e o uso consciente das tecnologias disponíveis, alinhados ao conhecimento técnico da equipe de enfermagem e às condições reais de cada serviço de saúde.




