
Nesta quarta-feira (1) acontece a chamada Super Quarta, quando Brasil e Estados Unidos definem política monetária no mesmo dia.
É amplamente aguardado que o Banco Central do Brasil promova mais um corte da Selic, taxa básica de juros, de 50 pontos-base, o que levará os juros ao patamar de 12,25%.
No entanto, acontecimentos recentes no cenário internacional e também doméstico indicam que a comunicação sobre os próximos passos do BC será bastante cautelosa.
Nos EUA, é aguardada a manutenção dos juros entre 5,25% e 5,50%, mas com atenção ao comunicado, no qual os investidores buscarão sinalizações sobre a última decisão de política monetária do ano, que acontecerá em 13 de dezembro, e pode trazer novo aumento.
Expectativas para a Super Quarta no Brasil
No Brasil, o corte de juros deve ser de 50 pontos-base, como já bastante telegrafado pelos membros do Copom, desde a ata da última reunião, de setembro.
“Nos últimos comunicados do Copom, foi usado o plural quando se referem aos ‘próximos cortes’, o que sugere que o ritmo será mantido na reunião de 1 de novembro e também de 13 de dezembro, podendo se estender até janeiro de 2024”, afirma Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Asset.
No caminho da Selic até o patamar atual, a taxa chegou ao piso histórico de 2% durante a pandemia. Depois, sofreu 12 altas subsequentes, alcançando 13,75%. E ficou estacionada neste patamar por 1 ano, até que, em 2 de agosto, foi dado início ao ciclo de corte de juros, com um primeiro movimento de 50 pontos-base. E, em setembro, veio o segundo corte, de mesma magnitude.
A grande questão para o mercado, desta vez, será analisar no comunicado emitido logo após a decisão (após 18h de quarta, dia 1) e a ata da reunião, que sai uma semana depois, em 7 de novembro.
Isso porque, até aqui, a grande variável para uma mudança no ritmo de cortes era, segundo o Copom, o cenário externo. Agora, o fiscal também passa a pesar.
No exterior, segue a dúvida quanto ao teto dos juros nos EUA – o que mexe nas expectativas por aqui, dado que juros altos nos EUA fazem com o que os investimentos migrem para aRenda Fixa americana, prejudicando mercados emergentes e dando força ao dólar – o que, por sua vez, impacta a inflação e, logo, também os juros.
O cenário ficou ainda mais complexo com a guerra entre Israel e Hamas, com dúvidas quanto à extensão do conflito e o possível envolvimento do Irã, o que pode impactar na oferta de petróleo, também pesando sobre a inflação global.
Não bastassem as incertezas externas, o cenário local também ficou mais difícil com o risco fiscal pesando sobre o mercado.
Isso porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na sexta-feira (27), em conversa com jornalistas, que não vê necessidade de o país alcançar déficit fiscal zero até 2024.
“Eu não quero fazer cortes em investimentos e obras. A gente não precisa disso (meta zero)”, disse Lula. O mercado entendeu que, além de abandonar a meta, o presidente já estaria sinalizando mais gastos futuros.
Para justificar o presidente, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, entrou em cena e afirmou que Lula apenas comentou sobre as dificuldades na arrecadação devido a decisões recentes do Supremo Tribunal Federal. Mas, sendo pouco enfático quanto à manutenção da meta de déficit zero, não ajudou no humor do mercado.
“O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, vem citando o cenário internacional como ponto de atenção. Mas desde sexta-feira, a fala do presidente Lula traz uma incerteza adicional. O mercado já esperava que uma mudança na meta de déficit fosse feita. Mas a comunicação, da maneira que foi feita, foi bastante negativa”, aponta Kautz.
Ele explica que há projetos que ainda precisam de votação no Congresso e que, a partir de agora, os deputados e senadores, vendo que o próprio presidente não chancela a meta primária para o ano que vem, vão aproveitar para diluir ainda mais as propostas enviadas pela Fazenda. “O que é muito ruim para a Fazenda e não traz luz sobre como seria a mudança na meta e quais as consequências nas perspectivas de gastos daqui para a frente”, avalia.
“Em geral, o Banco Central, apesar de realizar o corte, deve manter uma comunicação bastante cautelosa quanto aos próximos passos da taxa de juros daqui para a frente, sem sinalizar muito conforto para os próximos cortes”, complementa.
Expectativas para a Super Quarta nos EUA
Nos EUA, a taxa de juros deve ser mantida entre 5,25% e 5,50%, como amplamente esperado pelo mercado.
“Temos expectativa de que o Banco Central americano não vá fazer qualquer ajuste na taxa de juros, mas deve manter um discurso bastante duro em relação às perspectivas da inflação e da atividade daqui para a frente, mantendo a possibilidade de nova alta na reunião de dezembro”, resume Kautz. “O Fed não deve fechar a porta para esta possibilidade, apesar de que não deve fazer nenhum movimento por agora”, diz.
Ele explica que a dúvida quanto a uma outra alta acontece porque a atividade continua apresentando resultados fortes nos EUA, apesar de a inflação estar desacelerando.
O patamar de juros dos EUA é o mais alto em 22 anos. Na última reunião, em setembro, o Fed decidiu pela manutenção das taxas, após os juros terem subido 5% em um período de um ano.