Defesa aponta falhas e injustiça na investigação em Neves
Jovem foi apreendido como suspeito, mas liberado depois da prisão de outro investigado
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O advogado do adolescente, Gilmar Francisco, apontou falhas e injustiças na investigação da chacina em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O menor, de 17 anos, foi apreendido momentos depois do triplo homicídio e apontado como principal suspeito do crime. No entanto, nessa quinta-feira (12/2), ele foi liberado do Centro de Internação Provisória Dom Bosco, no Bairro Horto, em Belo Horizonte, por volta das 20h40. Um homem de 30 anos foi preso nessa quarta-feira (11/2) e passou a ser tratado como principal suspeito.
De acordo com o advogado, a situação é resultado de falhas no processo investigativo. Ele afirma que a única sobrevivente que estava na padaria não reconheceu o adolescente. Segundo a defesa, o depoimento teria sido interpretado de forma equivocada e a família sempre negou a participação do jovem no crime.
Ainda conforme o advogado, a ausência de provas e a pressão social teriam levado à apreensão do adolescente. “Em vez de pedir a inserção do menor em programa de proteção, pediram a internação dele. Primeiro apreenderam e depois investigaram. Foi um processo cheio de vícios”, disse.
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A defesa afirma que o adolescente e os familiares continuam recebendo ameaças e que não houve apoio do Estado depois da liberação, já que o jovem deixou o centro socioeducativo sem escolta. “O dia inteiro ficam carros parando na porta da casa da família. Eles estão temerosos com a situação”, relatou.
Segundo o advogado, a própria família reuniu imagens, áudios e comprovantes para demonstrar a inocência do menor, o que teria motivado novas diligências policiais em busca do autor do crime. “Em carta, o menor mostrou o desespero no centro socioeducativo, pedindo que a mãe fosse atrás de provas. Quem demonstrou que o menor não era o assassino foi a família e não a polícia. Foi o maior erro judiciário do Estado de Minas Gerais”, afirmou.
A Polícia Civil de Minas Gerais e o Ministério Público de Minas Gerais foram procurados pela reportagem e ainda não se manifestaram.
Investigação da polícia
A investigação da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) sobre a morte de três mulheres em uma padaria em Ribeirão das Neves, no último dia 4, aponta que o adolescente de 17 anos, apreendido, não tem relação com o homem de 30 anos, preso nessa quarta-feira (11/2). De acordo com a polícia, o homem foi preso em flagrante por posse ilegal de arma. Com isso, ele passa a ser o principal suspeito do crime.
Em coletiva de imprensa realizada nessa quinta-feira (12/2), o delegado Marcus Rios, titular da Delegacia Especializada em Investigação de Homicídios de Ribeirão das Neves, informou que comunicou a Vara da Infância sobre a prisão do suspeito realizada na quarta para que o órgão tome uma decisão sobre o adolescente. De acordo com Rios, o menor continua sendo suspeito, pois as investigações estão em andamento, mas afirmou que um promotor já havia solicitado a soltura dele ao Poder Judiciário.
"Teve a apreensão em flagrante de um menor, que foi internado por ato infracionário pelo crime de homicídio. Ontem, um homem de 30 anos foi preso em flagrante por posse ilegal de arma, que passou a ser o principal suspeito do crime. Diante disso, a PC comunicou o Ministério Público (MPMG)", disse.
O novo suspeito foi preso em flagrante no Bairro Céu Azul, na Região Venda Nova, em Belo Horizonte, e confessou ter cometido o crime. Além de ser apontado como envolvido no triplo homicídio, ele é investigado por uma tentativa de homicídio ocorrida no dia seguinte ao crime, em uma oficina na Grande Belo Horizonte. Com ele, foram encontrados uma arma de fogo artesanal, munições e outros objetos.
Durante a coletiva, a PC informou que a investigação segue em andamento e, por isso, não é possível definir a motivação dos crimes. No entanto, a apuração aponta que o principal suspeito não tinha nenhuma relação com o adolescente.
Relembre o caso
Nathielly Kamilly Fernandes Faria, de 16 anos, Emanuelly e Ione Ferreira Costa, de 56, foram vítimas do crime na semana passada. As jovens trabalhavam no estabelecimento e Ione era cliente da padaria. Emanuelly chegou a ser socorrida e encaminhada em estado grave ao Hospital Risoleta Neves, onde morreu.
De acordo com o boletim de ocorrência, equipes foram até um endereço no Bairro Céu Azul, na Região Venda Nova, em BH, após receberem informações sobre o possível autor. No local, os militares localizaram uma motocicleta com características semelhantes às usadas no crime da padaria.
O ex-namorado de Nathielly foi apreendido e passou por audiência. A mãe do jovem afirmou que ele não é o autor do crime e sustentou que o filho estava em casa no momento dos fatos, apresentando imagens e comprovantes como álibi. Informações preliminares indicam ainda que uma testemunha teria dúvidas sobre a autoria.
Por outro lado, relatos de pessoas que estavam nas proximidades apontam que o ex-namorado teria ido ao local por ciúmes e iniciado uma discussão antes dos disparos. A Polícia Civil informou que as investigações continuam para esclarecer a motivação e a dinâmica do crime.
Tentativa de homicídio em oficina
A hipótese seguida pela polícia no momento é que, depois de matar as mulheres na padaria, o homem tentou cometer um novo homicídio no dia seguinte. Conforme a Polícia Militar (PM), ele chegou à oficina em uma motocicleta e fez vários disparos, mas nenhum tiro atingiu a vítima, um adolescente de idade não divulgada. Ele fugiu em seguida.
Ainda segundo o registro policial, ao se aproximarem do imóvel, os policiais viram o suspeito manuseando um objeto semelhante a uma arma de fogo e tentando escondê-lo dentro de um fogão. Durante as buscas, foram apreendidos uma arma artesanal, um carregador e 11 cartuchos calibre .380 intactos, além de outros materiais.
No imóvel também foram recolhidos uma capa de colete balístico com compartimentos, placas balísticas, touca tipo ninja, um capacete branco, uma bolsa de entrega, um telefone celular e uma carta manuscrita. A motocicleta foi removida para um pátio credenciado.
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A PM informou ainda que testemunhas reconheceram características físicas e objetos associados ao suspeito. O homem foi conduzido à delegacia e deve responder, inicialmente, por homicídio e posse irregular de arma de fogo. O caso segue sob investigação da Polícia Civil.