Em ambos os sentidos da BR-381 a partir da capital, o conflito entre o tráfego urbano e o de viagem desafia a segurança dos usuários da rodovia durante os dias de carnaval. É o que aponta levantamento do EM com base em estatísticas da Polícia Rodoviária Federal relativas ao recesso carnavalesco a partir de 2022.
No trecho Norte da 381 (sentido Governador Valadares, a partir de Belo Horizonte), a chamada Rodovia da Morte é marcada pelos riscos da pista simples e pela presença de buracos em constante expansão pelas chuvas, mesmo com operações paliativas de tapa-buracos entre Santa Luzia e Caeté, na Grande BH. A combinação de acessos irregulares e ultrapassagens indevidas tem resultado em colisões frontais letais durante os últimos recessos de carnaval.
Em Sabará, no último período carnavalesco, foram registrados seis sinistros e nove feridos. Em áreas mais densamente habitadas, com acessos a bairros, fábricas e estruturas comerciais, a negligência às normas de circulação, como conversões proibidas, é a causa mais frequente de sinistros. O que indica a necessidade de fiscalização e sinalização de conversões ou retornos proibidos.
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Já na zona rural, em momentos de tráfego desimpedido, a principal causa de sinistros passa a ser o excesso de velocidade, resultando em acidentes por perda de aderência (tombamentos e saídas de pista).
O preço da velocidade
No segmento entre Nova União e Bom Jesus do Amparo, apesar de apenas dois sinistros, ocorreram duas mortes e uma pessoa ficou ferida nos últimos carnavais. Nos dois casos, os acidentes se deram em pistas duplas e sob sol, em pleno dia – condições favoráveis para desenvolvimento de altas velocidades que superam a capacidade de resposta do veículo e do motorista.
Ao fim dos 100 quilômetros de análise deste levantamento, chega-se a João Monlevade, onde a BR-381 segue rumo a Governador Valadares e a BR-262, no sentido Vitória. No município foram registrados durante os últimos carnavais três sinistros, uma morte e dois feridos.
Em todas as ocorrências, a causa primária está ligada ao comportamento do condutor. Os acessos irregulares e a falta de observação indicam falhas na avaliação de risco e o desrespeito às normas de preferência.
O trecho urbano registra acidentes por conflito de fluxo (colisões transversais), mas foi no ambiente rural que ocorreu a morte registrada. A combinação de pista simples, curva e acessos irregulares resultou em colisões frontais que são o tipo de acidente mais letal em rodovias brasileiras, devido à soma das energias dos veículos em sentidos opostos.
Betim lidera em acidentes
Já o trecho Sul da BR-381 (sentido São Paulo) é caracterizado pelo alto volume de tráfego da Rodovia Fernão Dias, onde a maior segurança da pista duplicada não é suficiente para impedir acidentes. O risco apareceu sobretudo nos registros de engavetamentos em áreas industriais, em Betim, e pela fadiga dos condutores em trechos rurais, em Itatiaiuçu, ambas na Grande BH, especialmente em curvas durante a noite, nos 100 quilômetros avaliados, até Itaguara.
Betim é a campeã de sinistros nesta amostragem, entre todas as rodovias no recesso de carnaval. Foram 44 ocorrências no período avaliado, que provocaram um caso fatal e deixaram 91 feridos. O predomínio urbano dos desastres nesse município se dá em pistas duplas ou múltiplas e em traçado reto. Tráfego intenso marcado por colisões traseiras e engavetamentos é a combinação responsável por 40% dos registros da PRF.
O grande fluxo de motocicletas se destaca no trecho, assim como sua vulnerabilidade, evidenciada pelo tráfego em corredores buscando agilidade entre veículos, mas também expondo os motociclistas a um alto volume de quedas de ocupantes, registradas em manobras de mudança de faixas.
A vocação industrial da região também se reflete em sinistros com veículos pesados de transporte, com constatações de carga excessiva, derramamento de cargas e falhas mecânicas.
No segmento seguinte, de Itatiaiuçu a Itaguara, o registro de nove sinistros, com uma morte e 12 feridos, também chama a atenção. Em Itaguara, o cenário é dominado por saídas de pista (60% dos casos) e ocorrências de acidentes sob chuva e ao anoitecer, indicando a combinação de pista molhada com alta velocidade.
Um registro de cinco feridos em uma única colisão com objeto em curva indica que a velocidade era tal que o dispositivo de contenção (defensa ou barreira) ou o objeto fixo absorveu energia capaz de se traduzir em ferimentos a todos os ocupantes do veículo.
O perigo do sono
Itatiaiuçu apresentou um perfil de gravidade superior, devido ao fator fadiga do condutor. Metade dos acidentes (incluindo o único óbito) foi causada por sonolência. Dos desastres no trecho, 75% ocorreram em curvas em subidas.
O único óbito nos carnavais do período avaliado ocorreu especificamente em sinistro com veículo de transporte pesado de carga, em uma curva em aclive e durante a noite. Em subidas longas e de baixa velocidade, o motorista tende a forçar menos o freio e manter uma pressão constante no acelerador, o que, aliado à monotonia da noite, pode facilitar o adormecimento e a saída da pista ou invasão do sentido contrário.
Retornos de risco na 262
Diferente da precariedade estrutural de trechos da BR-381 ou dos gargalos urbanos da BR-040, a BR-262 (sentido Triângulo) destaca-se negativamente por sua geometria de retornos em nível do tipo "agulha" (faixas de transição estreitas e alongadas, que permitem a um veículo entrar ou sair de uma pista principal para uma via lateral, sem que precise parar ou fazer uma curva brusca de 90 graus) e pelo excesso de velocidade.
Essa característica obriga o motorista a reduzir a velocidade na faixa de ultrapassagem (esquerda) para acessar o retorno, criando um ponto de conflito perigoso em uma pista de escoamento rápido.
Além disso, os trechos de Juatuba e de Igaratinga apresentam uma incidência de ocorrências a partir de fatores humanos passivos, como mal súbito e distração em retas, o que diferencia o perigo dessa via das colisões frontais típicas das demais estradas de pistas simples da região.
Ao contrário da BR-381, o segmento de Betim com mais sinistros na BR-262 é na área rural, onde foram registrados três sinistros, uma morte e um ferido. A combinação de alta velocidade em condições de anoitecer e tempo nublado foi a principal causa de acidentes e do atropelamento que resultou em uma morte no período avaliado. Há registros também de acidentes devido ao consumo de álcool e alta velocidade.
Álcool, só no tanque
O percurso de 100 quilômetros avaliado leva até Nova Serrana, no Centro-Oeste de Minas, mas ainda na Grande BH, Juatuba registrou seis sinistros e sete pessoas feridas. A cidade apresenta uma diversidade de fatores humanos "passivos" para os sinistros na época do carnaval, como mal súbito e uso de álcool por motoristas. Mesmo em pistas largas (duplas/retas), o comprometimento psicomotor pelo uso de bebida alcoólica impede o julgamento correto da distância de frenagem, levando a colisões em cadeia com mais de três veículos.
Na Região Centro-Oeste, em Igaratinga, quatro sinistros deixaram oito feridos nessa via de escoamento rápido, todos em ambiente predominantemente rural. Os mais altos riscos que resultaram em ocorrências estavam associados à alta velocidade e à dinâmica de fluxo em pista dupla.
Em 75% dos casos de sinistros em Igaratinga, o excesso de velocidade culminou em saídas de pista, por distração ou por mudanças bruscas de trajetórias, segundo os registros da PRF no período carnavalesco.
Registros de colisões traseiras por acessos irregulares indicam o perigo em manobras de retorno.
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Acidentes que podem se dar quando um veículo tenta acessar a via principal sem atingir a velocidade de fluxo ou quando o veículo que já está na via não reduziu a velocidade, sinalizando de forma antecipada e eficiente que vai convergir ao se aproximar de uma área de conversão. n
