Após duas semanas de protestos de povos indígenas, o governo federal anunciou nesta sexta-feira (6) a suspensão da dragagem do rio Tapajós, no Pará, onde os nativos rejeitam a exploração fluvial para a exportação de grãos.

Centenas de indígenas acamparam por dias em frente ao terminal portuário da gigante agroindustrial americana Cargill em Santarém para chamar a atenção do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

"Diante das mobilizações de povos indígenas e [...] como gesto de negociação", o governo suspendeu o processo de contratação de uma empresa para as obras de dragagem anual do Tapajós, segundo uma nota oficial.

Os indígenas alertam sobre a expansão portuária nos rios que consideram vitais para seu modo de vida, uma queixa que já manifestaram na conferência climática COP30 da ONU em novembro, realizada em Belém.

Eles querem a revogação de um decreto firmado por Lula em agosto, que designa os principais rios da Amazônia como prioritários para o transporte de carga e a expansão de portos privados.

Também reivindicavam o cancelamento da licitação para dragar o Tapajós, um importante afluente do Amazonas.

Além de suspender esse processo, o governo prometeu nesta sexta uma "consulta livre, prévia e informada" às comunidades locais antes de avançar com as obras.

"O governo vem abrindo os nossos territórios para muitos empreendimentos [...] para potencializar o agronegócio", disse à AFP a líder indígena Auricelia Arapiuns, em mensagem de vídeo durante o protesto em Santarém.

Os manifestantes chegaram a impedir a entrada e saída de caminhões do terminal, informou a Cargill à AFP.

Com sede em Minnesota, a multinacional americana conta com operações de logística agrícola em todo o Brasil, onde emprega cerca de 11 mil pessoas.

Os manifestantes bloquearam a rodovia Fernando Guilhon, principal via de acesso ao aeroporto internacional de Santarém.

"Essa infraestrutura que está vindo não é espaço para a gente, e nunca vai ser. É um projeto de morte, para matar o nosso rio e os nossos locais sagrados", denunciou a líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku.

O Brasil é o maior exportador de soja e milho do mundo e, nos últimos anos, tem optado por portos fluviais na região Norte para baratear os custos de exportação.

O Ministério Público Federal indicou na terça-feira que documentos técnicos do ICMBio e do Ibama apontaram "graves riscos ambientais decorrentes da dragagem no Rio Tapajós".

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