Antes de partir para a frente de batalha na Ucrânia, Shaman apresenta um drone em um centro comercial de Voronezh, mostrando um dos artefatos onipresentes no campo de batalha que mudou o dia a dia desta cidade russa.
Usando uma balaclava, o jovem de 19 anos diz à AFP que promete "defender" seu país, após as forças militares russas lançarem uma ofensiva em larga escala contra o vizinho há quase quatro anos.
A cerca de 500 quilômetros ao sul de Moscou, Voronezh fica mais perto da linha de frente no leste da Ucrânia que da capital russa.
Os frequentes ataques com drones ucranianos em represália e os anúncios de recrutamento do exército mudaram a vida desta cidade de um milhão de habitantes.
Antes de partir, Shaman — seu nome de guerra — atende um estande de um clube militar-esportivo neste centro comercial. Seu objetivo "não é necessariamente" convencer os adolescentes a se alistarem, declarou à AFP.
"Cada um escolhe seu próprio caminho, de acordo com seus interesses", afirmou.
A aparência de Voronezh mudou drasticamente desde fevereiro de 2022.
Nas estradas com neve que levam aos subúrbios, os sistemas antiaéreos aparecem por trás das redes de camuflagem. No centro, há murais em homenagem aos soldados mortos em campo e cartazes convocam ao alistamento no exército.
Um centro de recrutamento oferece aos futuros soldados um pagamento único de 2,5 milhões de rublos (R$ 167.250, na cotação atual) caso se alistem, o que equivale a três anos do salário médio regional.
Estas quantias permitiram à Rússia manter uma vantagem de militares sobre a Ucrânia, apesar das enormes baixas.
No ano passado, 422.000 pessoas alistaram-se ao Exército, segundo o ex-presidente e vice-secretário do Conselho de Segurança, Dmitri Medvedev.
Para Liudmila, só uma coisa importa: seu filho, desaparecido em combate há quatro meses. "É muito duro. Tenho esperança, porque sem esperança...", admite, emocionada.
Para se manter ocupada, ela faz trabalho voluntário em uma organização que costura equipamentos de camuflagem para os soldados.
- 'Assustador' -
A Rússia não divulga oficialmente quantos combatentes perdeu. Acompanhando os obituários locais e os anúncios de familiares, a BBC e o meio de comunicação independente Mediazona identificaram pelo menos 168.000 soldados russos mortos desde que Moscou lançou sua ofensiva.
O motorista de trator Roman afirma que, apesar do dinheiro que oferecem, "por nenhuma quantia" iria para a guerra.
À beira de um rio congelado, este homem de 48 anos quer "relaxar", se "desconectar" e "pensar em pescar" para escapar do medo de ataques de drones ucranianos.
"Eu acordo com mais frequência por causa das explosões. Temos sirenes e explosões todos os dias. Claro que é assustador", relata.
Moscou tem bombardeado a Ucrânia diariamente há meses. A última onda paralisou o sistema energético de Kiev, deixando centenas de milhares de pessoas sem aquecimento.
Em retaliação, o exército ucraniano tem disparado drones contra a Rússia. Mirando principalmente a infraestrutura portuária e energética. No mês passado, uma pessoa morreu em um ataque em Voronezh.
Esta região, que faz fronteira com uma parte da Ucrânia conquistada por Moscou, é uma das "mais frequentemente" atacadas pelo ar, afirmou no mês passado a comissária russa para os direitos humanos, Tatiana Moskalkova.
Depois que a Rússia lançou sua ofensiva, o artista Mikhail colocou pequenas placas de cerâmica em prédios e muros com apelos à paz.
"Queria lembrar às pessoas a narrativa de nossas avós, avôs e bisavôs, que ao longo da minha infância diziam que a guerra é assustadora", explicou à AFP o jovem de 28 anos, conhecido pelo apelido de Noi.
Mas a Rússia proíbe o ativismo antiguerra, e suas placas foram retiradas. Exceto uma, colocada na Rua da Paz de Voronezh.
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