Apps e smartwatches: avanços e riscos para a saúde
A tecnologia que desperta a conscientização sobre hábitos, organização de informações e autocuidado é válida, mas não pode invadir o papel dos especialistas
compartilhe
SIGA
ZILÁ MENEZES DE SANTANA ABDALA - Clínica geral, gastroenterologista e especialista em Medicina
do Estilo de Vida
As inovações tecnológicas parecem ser infinitas e têm mudado a vida das pessoas, que incorporam os gadgets à sua rotina independentemente de classe social, idade ou gênero. Desde o primeiro smartphone, as limitações foram sendo superadas e a popularização avançou. Hoje, os aparelhos são personalizados, com uma oferta incontável de apps. Gratuitos ou pagos, os programas têm por função principal facilitar o dia a dia dos usuários. São inúmeros tipos, mas um serviço específico merece destaque na atualidade: a possibilidade de manutenção da saúde e a prevenção de doenças.
No cenário da vida atual, as ferramentas que aproximam os pacientes de seus profissionais de saúde, contribuindo para a melhor adesão ao tratamento – como, por exemplo, lembrar o horário de tomar medicamentos – têm um papel significativo no sucesso dos tratamentos.
No âmbito feminino, os ganhos são relevantes e auxiliam a atravessar as diversas e complexas fases ao longo da vida das mulheres. Há aplicativos que oferecem artigos educativos, registros sobre o ciclo menstrual, humor, cólicas, período fértil, avisos para o uso da pílula anticoncepcional e até planejamento da menopausa.
Sistemas desenvolvidos para o público mais amplo ajudam a lembrar, por exemplo, a hora de ingerir água, dosando a hidratação de acordo com peso e altura do usuário. Muitos apresentam exercícios de meditação, respiração e sons da natureza para reduzir a ansiedade e melhorar a qualidade do sono – medidas aplicadas quando se trata da saúde mental.
No caso dos relógios inteligentes, há outras “vantagens”. Eles podem ser utilizados para monitorar batimentos cardíacos, pressão arterial, gasto calórico, níveis de oxigênio e eficiência da prática esportiva.
Há benefícios também para os profissionais de saúde, entre eles a maior agilidade na comunicação, já que podem acessar facilmente as informações do paciente, como prontuários e exames, durante ou após as consultas. Outro ganho é com acompanhamento, contribuindo para o alcance do resultado positivo nos tratamentos. Fato é que as funcionalidades permitem a maior integração entre equipe multiprofissional e usuário, a partir de uma troca constante de informações entre os agentes envolvidos no processo.
A educação para a saúde, que se revela como um processo pedagógico com o indivíduo como o principal responsável pela sua realidade, consciente e participante de todo o contexto, também vem sendo fortalecida com a ampliação do alcance dos dispositivos móveis. A mudança do pensamento do indivíduo para uma visão mais crítica e de gerenciamento tem potencial para transformar o quadro clínico. Mas os problemas gerados por tais práticas são um desafio.
É primordial que esses serviços não substituam a consulta e a orientação do profissional de saúde – eles devem ser auxiliares. A tecnologia que desperta a conscientização sobre hábitos, organização de informações e autocuidado é válida, mas não pode invadir o papel dos especialistas. O desenvolvimento de apps com finalidades terapêuticas é uma conquista que deve ser cada vez mais explorada em toda a sua amplitude, desde que o uso seja de maneira adequada e com a devida orientação. A falta de segurança de dados, comum não somente nos apps de saúde, precisa ser resolvida para evitar que a privacidade de pacientes seja negligenciada. A regulamentação é incipiente e ainda precisa ser debatida.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Na prática, o uso dos aplicativos e dos relógios inteligentes têm otimizado o autocuidado e se mostrado um aliado no autoconhecimento, assim como na adoção de hábitos saudáveis. Quando utilizados de maneira consciente, podem ser um grande apoio à saúde e ao bem-estar. Mas é preciso cuidado: não devem se tornar instrumentos de frustração, ansiedade, baixa autoestima ou comparação constante. Afinal, são ferramentas de auxílio, não de aprisionamento. O corpo humano é mais complexo que qualquer algoritmo e aprender a ouvi-lo continua sendo o principal segredo de saúde.