A irresponsabilidade das citações do Caso Epstein
Impunidade que cerca todo o escândalo cria na sociedade uma sede por vingança e punição dos envolvidos
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Circula nas mídias sociais e em portais de notícia o fato de a apresentadora e modelo brasileira Luciana Gimenez ter seu nome citado nos arquivos da investigação envolvendo Jeffrey Epstein – homem morto em 2019 e condenado por abuso de menores e por operar uma rede de exploração sexual. Até que se prove o contrário, a simples citação de uma pessoa nos arquivos – que tiveram o sigilo retirado recentemente por decisão do presidente dos EUA, Donald Trump – não representa qualquer envolvimento daquela pessoa nos atos criminosos.
Em investigações que compreendem um grande volume de informação, é comum que grandes conglomerados de jornalistas dediquem meses, até anos, àquele material. Aconteceu, por exemplo, com os Panama Papers, conjuntos de dados de empresas offshores sediadas em paraísos fiscais. Na ocasião, um time de diferentes veículos investigativos de diversos países se voltou à publicação de uma série de reportagens – bem apuradas e com a necessária contextualização – para expor esquemas de lavagem de dinheiro.
A liberação dos arquivos das investigações contra Epstein, de maneira livre para qualquer pessoa com acesso à internet, mais atrapalha do que ajuda. Confunde-se transparência com irresponsabilidade. Todos os dias, dezenas de teorias da conspiração circulam nas mídias sociais, especialmente no X (antigo Twitter), sobre o envolvimento de fulano ou de ciclano nos escândalos. Circulam-se listas com todos os nomes citados, como se todos estivessem no mesmo patamar de suspeição. Algumas acusações fazem sentido, enquanto outras não se sustentam até que se prove o contrário.
A onda de especulações do Caso Epstein não tem como combustível somente a divulgação irrestrita dos arquivos das investigações. A impunidade que cerca todo o escândalo cria na sociedade uma sede por vingança e punição dos envolvidos, especialmente no ambiente digital, sempre sedento por caça às bruxas e cancelamentos.
Infelizmente, a verdade é que Jeffrey Epstein está morto há mais de meia década, outros envolvidos também já faleceram e até mesmo testemunhas imprescindíveis para apuração completa dos fatos não estão mais entre nós. Nunca houve vontade política de apurar o escândalo com seriedade, diante das primeiras denúncias feitas há até 30 anos.
Epstein, pela enorme condição financeira que ostentava, estava sempre cercado por gente poderosa. A história conta que essa elite financeira, branca e masculina raramente sente o peso da responsabilidade por seus atos. Acontece no Brasil, nos Estados Unidos, na União Europeia e em qualquer outra parte do mundo.
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Em suma, aquilo que é de ordem privada e não tem interesse público jamais deve ser objeto de publicação. Em um mundo no qual dados representam ferramenta de poder, é preciso muita responsabilidade com aquilo que é compartilhado – desde os arquivos Epstein até o consentimento dos direitos de uso de um determinado aplicativo. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica entender o que é verdade, exagero ou mentira nos arquivos da Justiça dos EUA.