Warning: mkdir(): No space left on device in /www/wwwroot/lugardafinancas.com/zhizhutongji.php on line 51
Carlos Eduardo de Magalhães: 'O desafio sempre é a busca por espaço'-lugardafinancas.com
ENTREVISTA

Carlos Eduardo de Magalhães: 'O desafio sempre é a busca por espaço'

À frente da Grua Livros, editora que publica clássicos e autores contemporâneos, romancista paulistano conta como surgiu a sua mais recente ficção 'Zisa Bela'

Publicidade
Carregando...

Autor de doze livros, o paulistano Carlos Eduardo de Magalhães tem dupla atividade literária. Desde 2008 é o editor da Grua Livros, responsável por reedições de clássicos da literatura mundial, na coleção “Arte da novela”, e também títulos de destaque da literatura contemporânea nacional, como “De onde vem a insônia”, coletânea de contos longos do paranaense Miguel Sanches Neto. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A editora também resgata, na coleção Grua Guarda, títulos de autores brasileiros que estavam há pelo menos dez anos fora de catálogo – entre eles, “À margem da linha”, romance curto de Paulo Rodrigues que causou sensação ao ser lançado em 2001 pela CosacNaify e foi traduzido em três idiomas. O mais recente lançamento da coleção é “Espinhos e alfinetes”, reunião de histórias do paulista João Anzanello Carrascoza. “Os onze contos, cada qual com seus próprios motores internos, são ligados por um fio invisível, o olhar sensível, singular e poderoso de cada um dos personagens”, aponta o editor. 

O autor Carlos Eduardo de Magalhães tem livros premiados e traduzidos em diferentes idiomas. O mais recente, “Zisa Bela”, é definido como “um romance em dois registros”. “A ideia foi escrever sobre um homem que perde sua humanidade, que fica imune ao outro, depois de uma tragédia pessoal. Entrelaçou com a história de um homem que se vê impotente diante da tragédia brasileira na Amazônia, uma tragédia da própria humanidade”, conta o escritor. 

Leia, a seguir, a entrevista de Carlos Eduardo ao Pensar do Estado de Minas. 

Como foi desenvolvida a narrativa de “Zisa Bela”? 

“Zisa Bela” é um romance em dois registros. Um é diário-blog do Jorge, que conta suas experiências familiares e seus devaneios, e o outro é uma espécie de conversa entre Jorge e Paulo. Mais que uma conversa, são monólogos internos mediados pelas ausências de Zisa e Bela (a mesma Isabela), que foi a mulher de um e a paixão de adolescência de outro. Paulo é um ex-delegado da Polícia Federal que recebe em seu apartamento Jorge, o homem que havia se casado com seu amor não correspondido. Jorge, piloto de aviões e helicópteros, diz que veio se entregar, já que era culpado de muitos crimes. 

A ideia foi escrever sobre um homem que perde sua humanidade, que fica imune ao outro, depois de uma tragédia pessoal. Entrelaçou com a história de um homem que se vê impotente diante da tragédia brasileira na Amazônia, uma tragédia da própria humanidade. A parte do blog foi meio roubada. Eram escritos meus, pequenas crônicas pessoais ou artigos, produzidos ao longo dos últimos vinte e tantos anos. Reescrevi-os e adaptei-os para o Jorge. 

O que diferencia “Zisa bela” de seus romances anteriores? 

Acho que todo livro meu teve suas próprias especificidades, cada qual pediu um tipo de narrador e um tipo de escrita. Penso que fio condutor de todos eles, o que têm em comum, incluindo o “Zisa Bela”, é o tempo presente. Mas rescrever e adaptar escritos de não ficção para se tornarem ficção, a parte do blog, foi algo que eu nunca tinha feito. Revisitei coisas que eu tinha escrito há muito tempo, algumas delas sob impacto de fatos marcantes. Da realidade tinham de passar à realidade ficcional do romance.

Como a pandemia foi incorporada ao seu romance? 

A pandemia é o marco zero do romance. Dela saem as duas narrativas, uma de frente pra trás, em forma de blog-diário, e outra a partir da pandemia e da tragédia pessoal do Jorge para frente. A pandemia muda profundamente a vida dos dois personagens, como mudou a vida de bilhões de pessoas mundo afora. 

A Grua lançou recentemente coletânea de contos de um autor experiente, Miguel Sanches Neto. Como editor, o que chamou sua atenção neste livro? 

O Miguel Sanches Neto, de quem já havíamos publicado a segunda edição do romance “Um amor anarquista”, me mandou uma mensagem dizendo que tinha um livro inédito de contos longos, e que não havia mandado para nenhuma editora até então. Pedi para lê-lo. Acabando a leitura da terceira história, quis contratá-lo antes dele mandar para outras editoras, mesmo antes de terminálo, de tanto que eu estava gostando. Tinham o fôlego e o ritmo de uma novela aliados a tensão narrativa de um conto, os temas nada óbvios variavam e surpreendiam. Felizmente ele topou e lançamos o “De onde vem a insônia”, um livro extraordinário.

Uma das coleções da Grua é “Arte da novela”, iniciada em 2014. São edições muito caprichadas. Como define os títulos? A publicação de algum deles rendeu alguma satisfação em especial, do ponto de vista do editor? Quais os próximos lançamentos da coleção? 

Conheci a coleção em 2005, antes mesmo de haver sequer o pensamento de abrir uma editora. Em 2013, entrei em contato com a Melville House e a licenciamos. A ideia era contar com o lindo padrão gráfico deles, adicionando ótimos tradutores, e tentar deixar um preço acessível, com bom acabamento e bom papel. A partir do catálogo deles, tivemos a liberdade de escolher a ordem dos títulos. Não apenas isso, introduzimos títulos que a Melvill e não tem na coleção americana, como “Clara Militch”, do Turguêniev, “Alves e Cia. ”, do Eça de Queiroz, “A metamorfose”, do Kafka, “Ubirajara” do José de Alencar, “Voo noturno”, de Antoine de Saint-Exupéry e “Vidas secas”, do Graciliano Ramos. Sugeri a eles a publicação de “O alienista”, do Machado de Assis, e eles publicaram lá, o que foi bem legal. No primeiro semestre lançaremos “O alienista” e “O caso extraordinário de Peter Schlemihl”, do Adelbert von Chamisso, com tradução direta do alemão de Bruno Gambarotto. No segundo saem mais duas novelas que ainda não posso contar quais são, porque as traduções ainda não estão prontas. 

O que mudou no mercado editorial de 2008, quando a editora foi fundada, para os dias de hoje, e impactou a sua editora? 

Acho que mudou muita coisa. Dos procedimentos internos, como a nota fiscal eletrônica e o desenvolvimento de sistemas para editoras, o que facilitou muito as operações, até a modificação dos grandes agentes do varejo. Gigantes com suas grandes lojas quebraram, a Amazon passou a dominar parte do mercado, as mídias sociais tomaram um lugar importante na divulgação dos livros, as livrarias de bairro ressurgiram e as distribuidoras, que são fundamentais para uma pequena editora, consolidaram sua presença. Há também as compras de governo, que se tornaram mais democráticas, permitindo que pequenas editoras participem e limitando o número de livros inscritos por CNPJ. 

Como vê o mercado editorial brasileiro para uma editora de menor porte? Qual o maior desafio? 

Acho que o desafio é sempre a busca por espaço, nas prateleiras das livrarias, nas distribuidoras, na grande imprensa, nos divulgadores de livros. Além dos grandes conglomerados, existem muitas ótimas editoras pequenas e médias que competem entre si para que seus livros sejam visíveis aos leitores. Outro problema relevante para uma editora crescer passa pelo custo do crédito, que é muito caro no Brasil. 

Quais os lançamentos previstos até o fim do ano? 

Além dos títulos da “Arte da novela”, sairemos com o infantil francês “Panthera tigris”, de Sylvain Alzira e Hélène Rajcak, com tradução de Maria Alice Stock, em março. Lançaremos também mais um infantil de duas autoras brasileiras. Além deles, teremos dois livros da nova editoria, de educação. Vamos rodar algumas reimpressões, que estão esgotadas faz tempo, como “O colóquio dos cachorros”, do Miguel de Cervantes, “A última tentação”, do Nikos Kazantzákis e “O grande turco”, do John Freely. Devemos ter um lançamento da Grua Guarda, coleção que traz à luz livros fora de catálogo de autores brasileiros, e pelo menos mais um livro de literatura brasileira, que ainda não fechamos.

TRECHOS

(De “Zisa Bela”, de Carlos Eduardo de Magalhães)

Jorge saiu depois de um monólogo de horas, que para ele durou um instante e uma eternidade, no espelho de opostos que eram. Em cima da poltrona Jorge deixou a mochila que trouxe. Três ou quatro minutos até Jorge chegar à rua, vestir seu capacete, montar em sua bicicleta e sumir. Relatividade do tempo. Contagem do tempo. Pode ser no contar de micros milésimos de segundos que se somados não dão um segundo, que se somados trazem culpas para a vida toda. Pode ser no desfolhar das árvores, no abraçar das tardes, no esgarçar das paredes da casa, no apodrecimento das madeiras e das peles ao relento, na tomada das construções abandonadas por plantas e bi - chos. Pode ser na viscosidade da vida, cuja medida é a mais e a menos relevante de todas. Para a contagem do tempo, o curso de uma vida não serve. A vida que começa. A vida que acaba. A vida de Zisa. A vida do filho de Zisa. A vida dos vírus, que na classificação dos cientistas nem vida têm. As duas palavras a tem - porais de Zisa. Estou apaixonada. 

Uma Zisa que talvez tivesse sido inventada por ele. Uma Isabela que era Bela e Zisa ao mesmo tempo. Continuava a descobrir a tal Bela através das palavras que Jorge lhe falava àquela hora, depois de ter começado a conhecê-la dos escritos do Comandante Jorge. Já havia lido todos mais de uma vez, do último ao primeiro, sempre nessa ordem, do presente ao passado, feito uma investigação, e de investigações sabia. Do fruto à semente. Do crime ao criminoso. Do fim ao começo, como se o começo já encerrasse o fim irremissível. Foi também uma jornada da memória. Conhecer a Rê. O nascimento de suas filhas. A Crimes Invisíveis. A caça aos Lilases. Um só jogo americano à mesa. Bela era uma imagem desfocada que os graus dos seus potentes óculos de investigador não se mostravam suficientes para delinear com precisão. Permanecia fugidia, liberta, desgarrada, em constante metamorfose. Bela e Zisa. Zisa e Bela.

SOBRE O AUTOR E EDITOR 

Carlos Eduardo de Magalhães nasceu em 1967 em São Paulo. É autor de doze livros. Pela Grua, tem publicados os romances “Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis” (semifinalista do Prêmio Oceanos 2016 e PNLD Literário 2018), “Petrolina ” (PNLD Literário 2018), “Os jacarés”, “Mera Fotografia”, “Pitanga” e “Trova”, e o livro de histórias “Cama de pregos”. Teve textos publicados em coletâneas e periódicos. Alguns de seus escritos foram lançados no Uruguai, Estados Unidos, Índia e Bulgária. Desde 2008 dirige a Grua Livros.

“ZISA BELA”

De Carlos Eduardo de Magalhães

Grua Editora

288 páginas

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

R$ 69,90

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay