Nikolas cita Lula 21 vezes mais do que Minas Gerais em seus discursos
Análise do EM mostra que ele menciona o estado só 11 vezes em seus pronunciamentos oficiais. Nome do presidente é referenciado em 193 oportunidades
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"Não vou ser candidato a governador. Descartei essa possibilidade". Foi assim que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou, em entrevista ao podcast Café com Ferri, que concorrerá novamente a uma cadeira na Câmara, diante das especulações de uma potencial candidatura dele ao governo de Minas. A partir deste anúncio, o Núcleo de Dados do EM fez um raio-x do mandato dele, entre 2023 e dezembro do ano passado, com a seguinte missão: quem é o parlamentar mais votado do Brasil no dia a dia do Legislativo?
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Os números apontam para um deputado muito presente na tribuna da Câmara, mas essas participações raramente fazem referência a Minas Gerais, estado pelo qual obteve 1,47 milhão de votos em 2022, a terceira maior votação da história da Câmara. Desde fevereiro de 2023, quando assumiu o mandato, Nikolas discursou cerca de 140 vezes nos microfones da Casa, mas fez referência a “Minas Gerais” e aos “mineiros” em apenas 11 oportunidades.
Para efeito de comparação, o deputado citou o presidente “Lula” (PT) em 193 oportunidades nesses discursos – a terceira palavra mais usada por ele na tribuna. O petista é citado 21 vezes mais do que “Minas Gerais” ou “mineiros”. As referências à “esquerda” também chamam atenção: 156 menções, o quinto termo favorito dele nas falas. A estratégia é clara: marcar território como oposição ao Palácio do Planalto.
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A oposição ao governo federal fica, até mesmo, muito mais acima na ordem do dia de Nikolas do que a defesa ou apresentação de políticas públicas na tribuna. Termos como “saúde” (26 citações), “educação” (15), “escola” (15), “alimento” (oito), “economia” (cinco) e “saneamento” (quatro) estão muito longe de figurar entre as palavras mais citadas pelo deputado.
A atuação dele na tribuna da Câmara se volta totalmente a temas nacionais. Além de mencionar Lula e a esquerda com frequência, Nikolas usa bastante as palavras "país" (252 vezes, a primeira colocada); "ministro" (144 referências); "Bolsonaro" (117); "poder" (115); "STF" (96); e "Moraes" (70). Todos esses vocábulos estão entre os 35 mais usados por ele em seus pronunciamentos.
Outro lado
Por meio de nota enviada por sua assessoria, Nikolas disse que seus discursos "são, por natureza, reativos às pautas em votação e aos temas de maior impacto nacional". "Eu utilizo a tribuna para denunciar abusos de poder, defender a liberdade de expressão e combater a corrupção, temas que afetam diretamente todos os brasileiros, inclusive os mineiros. A citação de autoridades como o presidente da República e ministros do STF reflete a necessidade de fiscalizar e confrontar decisões que impactam a vida da população, essa é a função de um deputado", diz.
Sobre sua atuação em Minas, ele afirmou que ela "vai muito além da tribuna". "Até janeiro de 2026, o meu mandato já destinou R$ 81.641.590,00 em emendas parlamentares para o estado de Minas Gerais, contemplando todas as regiões do Norte ao Sul, do Triângulo à Zona da Mata. Discriminado são: R$ 40.820.795,00 para saúde; R$ 11.751.394,00 para segurança pública; R$ 8.234.361,00 para assistência social; R$ 7.434.180,00 para a educação; e R$ 2.902.000,00 para o esporte".
Mídias sociais
Para o cientista político e professor da ESPM, Paulo Ramirez, a atuação distante de Minas Gerais por parte de Nikolas, a partir da análise discursiva feita pela reportagem, acompanha dois objetivos principais: se projetar como guardião do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, ter relevância nas mídias sociais, características que o analista classifica como “neopopulismo”.
"O Nikolas está servindo como sentinela das pautas bolsonaristas. Obviamente, ele tem uma excelente retórica, mas com conteúdos desconectados da realidade, muitas vezes. Isso vem desde a Antiguidade, quando Sócrates denunciava os sofistas. A arte da fala não é, necessariamente, a arte da crítica, da realidade dos fatos. Além disso, existe um projeto para alavancá-lo, daqui a alguns anos, como candidato à Presidência. Por isso, as questões de Minas Gerais se tornam menos relevantes", afirma Ramirez.
Já para o também pesquisador e professor da UFMG, Camilo Aggio, os dados apurados pela reportagem reforçam a imagem de Nikolas como um tipo de político personalista. “É uma outra fase da política. São políticos desterritorializados. São pessoas que se cacifam eleitoralmente nessas regiões, mas esse capital político não é construído com discussões a respeito das necessidades desses locais, mas a partir de pautas que interligam o eleitorado e esses candidatos”, diz.
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“Isso tem total influência das mídias digitais. Nikolas Ferreira age como um influencer digital, que se tornou deputado federal. Ele sabe disso e tem uma estratégia de comunicação que não trata de problemas específicos de Minas Gerais, como a mineração e a sustentabilidade, mas foca em questões culturais e morais. É um trabalho de monitoramento, de estratégia, com análise de clima de opinião das mídias sociais”, completa Aggio.