A figura que inspira a nova versão da novela “Dona Beja” é muito mais complexa do que a ficção sugere. Ana Jacinta de São José, nascida em 1800, foi uma mulher real que desafiou as convenções sociais de Araxá, em Minas Gerais, e se tornou uma das personalidades mais influentes e controversas de seu tempo. Sua história é marcada por um trauma, uma reviravolta e o uso da inteligência para transformar sua dor em poder.
A vida de Ana Jacinta mudou drasticamente em 1815, quando, aos 15 anos, foi raptada por Joaquim Inácio Silveira da Mota, ouvidor do rei dom João VI. Levada à força para a Vila do Paracatu do Príncipe, ela viveu como sua amante por dois anos. Ao retornar para Araxá, foi rejeitada pela sociedade conservadora, que a via como uma mulher "perdida" e sem honra.
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Diante do preconceito, ela decidiu não se curvar. Com as joias e o dinheiro que recebeu do ouvidor, construiu um bordel refinado, a Chácara do Jatobá. O local logo se tornou o ponto de encontro da elite masculina da região, frequentado por homens ricos, fazendeiros e políticos em busca de entretenimento e companhia.
Um bordel como centro de poder
A Chácara do Jatobá era mais do que um prostíbulo de luxo. Ali, Dona Beja, como passou a ser conhecida, exercia grande influência. Documentos históricos mostram que ela ouvia segredos, intermediava negócios e participava de decisões políticas, chegando a contribuir financeiramente para a Revolução Liberal de 1842. Usando sua beleza e sagacidade, acumulou riqueza e poder, escolhendo a quem receberia entre os pretendentes que ofereciam fortunas por sua companhia.
Sua vida amorosa é um dos pontos onde história e ficção mais se misturam. A popular lenda literária conta que ela era apaixonada por um homem chamado Antônio Sampaio, que se casou com outra. No entanto, não há comprovação documental sobre a existência desse romance. O que os registros históricos apontam é que sua primeira filha foi fruto de uma relação com o padre Francisco José da Silva. Outra lenda famosa, também sem provas, afirma que Beja teria ordenado um assassinato por vingança, crime pelo qual foi julgada e absolvida.
Por volta de 1850, já com 50 anos, Dona Beja fechou a Chácara do Jatobá e mudou-se para Estrela do Sul, também em Minas Gerais, onde viveu de forma mais discreta por mais de 20 anos, até sua morte em 1873. Sua trajetória de mulher à frente de seu tempo, que subverteu a lógica machista para sobreviver e prosperar, a transformou em um mito no imaginário popular brasileiro, muitas vezes ofuscando a complexidade da mulher real.
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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
