
Da mulher que n�o pode se render �quela paix�o, um bot�o de rosa-de-jeric�. Para aquelas com peso na alma, um malmequer no cabelo. Ao homem tra�do, abacate. �quela paix�o arrebatadora, bot�o de cravo-carmesim. Olhando assim, essa liga��o entre as flores e as rela��es afetivas pode n�o fazer sentido algum para os casais do s�culo 21, que trocam mensagens instant�neas via Whats app, Viber ou via operadora de celular, compartilham v�deos e t�m em m�os a liberdade de escolha e outras facilidades para expressar os sentimentos. No entanto, no s�culo 19, quando o modelo de fam�lia patriarcal regia os namoros e casamentos, e n�o havia a tecnologia da qual dispomos hoje, as flores eram a linguagem secreta daqueles que viviam suas paix�es em segredo.
Esse recorte rom�ntico da hist�ria brasileira foi e ainda est� sendo pesquisado pela antrop�loga e pesquisadora Alessandra El Far, doutora em antropologia social pela Universidade de S�o Paulo (USP), e revela muito de uma �poca em que o amor se mostrava, atrav�s da natureza, ou melhor, de frutos e flores, pano de fundo do romantismo do s�culo 19. “ Quando comecei a fazer o meu doutorado, que defendi em 2002, fui atr�s das obras que as pessoas liam no s�culo 19. Ao contr�rio do que o senso comum pensa, de que havia uma popula��o analfabeta que n�o lia, foi uma �poca de muita leitura, havia um mercado editorial significante e em desenvolvimento. Lia-se Machado de Assis e Alu�sio de Azevedo, por exemplo. Havia ainda o interesse por g�neros liter�rios que n�o existem mais hoje, como as narrativas de sensa��o e romances s� para homens”, conta Alessandra, que atualmente � professora de antropologia no Departamento de Ci�ncias Sociais da Universidade Federal de S�o Paulo (Unifesp).

Segundo ela, para entender a leitura dessas obras, que eram de publica��o barata, foi preciso mergulhar fundo nos registros hist�ricos para compreender as rela��es daquela �poca. “A populariza��o desse tipo de publica��o no s�culo 19 no Rio de Janeiro esteve intimamente ligada ao desenvolvimento urbano da corte. Foi nesse per�odo que as mo�as, em particular as nascidas na burguesia urbana, come�aram a frequentar os espa�os p�blicos”, diz. As primeiras publica��es do tipo tiveram origem na Fran�a, no pr�prio s�culo 19. A vers�o mais antiga conhecida, e tamb�m a mais famosa, foi escrita por Madame Charlotte de Latour, em 1819. V�rias edi��es foram traduzidas e adaptadas a partir dessa.
No Brasil
O formato das edi��es variava bastante, indo desde as mais simples, de capa brochada, contendo apenas os verbetes e que somavam 50 a 70 p�ginas, at� as ricamente ilustradas, de luxo, que traziam – al�m dos significados – jogos galantes, outras linguagens secretas baseadas no uso de leques, bengalas, pedras e cores, al�m de poemas que versavam sobre as flores. “Os leitores eram chamados de fi�is s�ditos de Cupido”. Entre os dois anos de pesquisa, Alessandra viajou para o Rio de Janeiro e para Portugal, onde se deteve no acervo da Biblioteca Nacional de Portugal. “Descobri que havia l� diversas edi��es, tanto cariocas quando portuguesas.”
Durante a primeira visita �quele pa�s, em setembro de 2011, ela apresentou um trabalho sobre o dicion�rio das flores no Congresso Internacional Pluridisciplinar com o tema “Flowers/Fleurs/Flores”, realizado pelo Centro de Hist�ria e Teoria das Ideias da Universidade Nova de Lisboa, que discutiu os diversos usos e significados das flores nos contextos filos�fico, religioso, hist�rico e na literatura. “Depois de surgir na Fran�a, a linguagem foi traduzida para o portugu�s em Portugal, e s� depois veio para o Brasil, com defini��es de A a Z .”
Em territ�rio brasileiro, esses dicion�rios foram adaptados �s esp�cies brasileiras. “Chegaram aqui como flores, ervas, ra�zes e frutos. E, at� chegar, foram se adaptando com a nossa linguagem.” O bot�o de cravo-carmesim, por exemplo, tem como mensagem “desejo ser feliz contigo”. “Se algu�m enviasse ao outro um bot�o de rosa encarnada queria dizer: ‘Meus olhos veem a ti’. Flores brancas, afei��o. Se enviasse cenoura, estava dizendo que toda a rela��o era falsa. Um abacate, por exemplo, poderia significar uma trai��o. Receber o fruto podia ser at� uma den�ncia de infidelidade”, comenta.

No s�culo 19, os flertes ocorriam, segundo destaca Alessandra El Far, em segredo, “j� que as rela��es afetivas eram proibidas e vigiadas pelos pais das mo�as.” Como forma de viver as paix�es sem que ningu�m descobrisse, os enamorados da �poca tinham essa linguagem para se comunicar. “Como os pais estavam sempre de olho, tudo era velado. Havia bilhetes, o menino do recado.” Essas coisas quase n�o existem mais, mas a pesquisadora destaca que algo disso foi passado pelas gera��es seguintes. “Uma av� de uma amiga, de 95 anos, que faleceu na semana passada, me disse que se lembrava dos dicion�rios, que era algo bem comum na �poca", conta.
Na Biblioteca Nacional de Portugal, h� dicion�rios dispon�veis virtualmente, um deles de Lisboa, com data de 1869. As ra�zes ganham a defini��o de mist�rio. “Pelas ra�zes quizeram (SIC) os antigos que fossem os significados os segredos; porque assim se escondem no cora��o, como as ra�zes da terra, e assim deve estar coberta a raiz na terra, como o segredo no peito do homem”, diz o texto. “� rom�ntico, mas por um lado � triste porque esses c�digos mostram que as pessoas n�o tinham a liberdade de escolha para as suas rela��es”, avalia Alessandra.
A fim de entender bem como funcionavam essas rela��es, ela continua seu trabalho de pesquisadora. Artigos cient�ficos sobre o tema ser�o publicados e, segundo ela, a ideia � escrever um livro sobre como se dava o namoro e o galanteio no s�culo 19. “ Tudo isso � um pouco da nossa hist�ria. As pessoas liam muito no s�culo 19, pensaram e agiram de uma maneira que foi se perdendo de vista. Essas pesquisas nos ajudam a perceber o que perdemos”, conclui.
