
Engana-se quem ainda pensa que a viola � exclusiva das modas caipiras. O aviso � dos instrumentistas Fernando Sodr� e Arnaldo Freitas, que preparam o repert�rio do show O Brasil nas 10 cordas, marcado para maio, em BH. “Esse paradigma foi quebrado h� muito tempo. Desde Renato Andrade, o grande mestre desse bel�ssimo instrumento, considerado um dos maiores violeiros de todos os tempos”, diz Sodr�. Ele se refere ao mineiro reconhecido no Brasil e no exterior, que morreu em 2007, aos 73 anos. Pioneiro, Andrade levou a viola caipira para as salas de concerto. “O instrumento � usado tamb�m no chorinho, MPB e at� no rock”, esclarece Sodr�.
Universal, a viola est� presente em lendas que conectam tocadores brasileiros a blueseiros norte-americanos. Tanto no Mississippi quanto no interior de Minas, n�o � de hoje que se ouve falar em m�sicos que venderam a alma ao diabo em troca do sucesso e da riqueza.
A lenda, claro, acabou no cinema. Em 1986, foi lan�ado o filme americano Crossroads, dirigido por Walter Hill, cujo elenco reunia o ator Ralph Macchio, o guitarrista Steve Vai e Sonny Terry (1911-1986), aclamado gaitista de blues.
Com trilha composta por Ry Cooder, o drama se inspira nas hist�rias envolvendo o m�tico bluesman Robert Johnson (1911-1938). Diz a lenda que ele entregou a alma ao diabo para se tornar o �s das cordas. A vida e a morte do m�sico, aos 27 anos, foram pouco documentadas. Ficou o mist�rio, que deu origem a muitos causos.
COISA-RUIM O instrumentista e pesquisador mineiro Chico Lobo diz que a “negocia��o” entre m�sicos e o capeta n�o � exclusividade dos americanos. Na cultura popular brasileira, s�o muitos os causos de violeiros que fizeram acordo com o coisa-ruim.
“No pacto tradicional, o interessado espera o dito cujo numa noite de sexta-feira de lua cheia, caminha at� a encruzilhada deserta, chama sete vezes pelo tinhoso. Se ele n�o aparecer, reza o pai-nosso de tr�s para a frente”, conta Chico. Quando v�rias coisas pra l� de esquisitas ocorrem – porca dando de mamar a cabritinhos, vaca magricela seguida por sete leit�es –, ele surge. “O desconjurado tira 10 fios da barba, estica-os numa viola preta e a presenteia ao violeiro. Depois de afinada, est� tudo pronto. O sujeito ter� fama e sucesso. S� que depois de 99 anos, o desconjurado vem buscar sua parte no pacto: a alma do violeiro”, explica Chico.
“Dizem os antigos que ao ver S�o Gon�alo do Amarante – santo tocador de viola que trazia mo�as da vida pras bandas de Deus e as convertia com suas dan�as e cantos –, o catinguento resolveu tocar e aprender a afina��o rio abaixo pra seduzir as donzelas beira-rio”, lembra o pesquisador.
O diabo tem l� seus motivos para querer ser violeiro: a inveja de Jesus, o Menino Deus, pois a viola foi o primeiro instrumento tocado para ele. “V�rios mestres de folias de reis narram essa passagem. Esse instrumento musical sempre foi considerado sagrado. O arrenegado quis corromper a viola e o violeiro. Temos uma forma de identificar quem fez pacto com o tinhoso: � aquele que pendura a fita preta em sua viola”, ensina Chico.
Reza a tradi��o que violeiros tradicionais e devotos do bem penduram em seus instrumentos fitas com cores representando as folias – branco, azul, rosa, amarelo, vermelho e verde. “Outra forma de reconhecer o violeiro pact�rio � desconfiar de quem n�o tocava nada, mas de uma hora pra outra aparece ponteando a viola com extrema agilidade”, revela.
Chico Lobo chama a aten��o para a import�ncia da figura do violeiro nas comunidades do interior do Brasil. “Ele sempre teve grande destaque social por ser o respons�vel por conduzir festas de colheita e as festas de mutir�o, al�m de cumprir a fun��o das rezas de folia, das dan�as da catira e de S�o Gon�alo.”
O mestre violeiro, que sempre gerou inveja, est� ligado a s�mbolos que atravessaram a hist�ria da humanidade. “O mito universal de Fausto se faz muito vivo, presente e temido no mundo da viola tradicional, fincada nos grot�es do Brasil. Acredito que muitas dessas ditas lendas envolveram as beiras de rio, como o nosso S�o Francisco. Da� vem a linha de pensamento que une o pacto do blues no Mississippi ao toque do capeta do rio abaixo em Minas”, conclui Chico.
BOBAGEM Lendas sobre diabo, blues e viola n�o seduzem o guitarrista e compositor mineiro Affonsinho. Para ele, o pacto de Robert Johnson para se tornar virtuose n�o passa de bobagem. “Ainda mais nesse universo da arte que adora estrat�gias de marketing vestidas de contos de fadas”, comenta.
Affonsinho segue a cartilha de B. B. King, outro mito do blues. “Li a biografia dele tr�s ou quatro vezes, adorei o livro. Quando passei por suas impress�es a respeito da hist�ria de Johnson, fiquei aliviado. Penso como o ‘Rei do Blues’ quando ele diz: ‘Minha m�e tinha enchido meu cora��o de amor por um Deus compassivo. Can��es gospel falavam sobre esse amor e eu adorava cantar gospel. Tinha escutado dizer que negros deveriam ter esse grande conflito, entre cantar para Deus ou cantar para o mundo. Alguns deles, sem d�vida, se sentem divididos. Mas n�o eu. Eu gostava de Robert Johnson, o cantor de blues do Mississippi que diziam ter vendido a alma para o diabo em troca de talento, mas considerava essa hist�ria uma besteira. Jamais trocaria os sentimentos que tenho por Deus por qualquer outra coisa. Na minha cabe�a, nenhum artista de blues jamais o faria’.”
Affonsinho concorda totalmente com B. B. King. “A cada dia, tenho menos toler�ncia com lendas e contos. Sou m�sico h� mais de 40 anos. Gosto mesmo � de m�sica”, afirma.
SHOW Velhos mitos � parte, o belo-horizontino Fernando Sodr� e o paulista Arnaldo Freitas – talentos da nova gera��o de instrumentistas brasileiros – prepararam um show voltado para a viola do s�culo 21. Ecl�tico, o repert�rio ter� Jo�o e Maria (Chico Buarque/Sivuca), Ponteio (Edu Lobo/Capinan), Santa Morena (Jacob do Bandolim) e As rosas n�o falam (Cartola), al�m de composi��es autorais da dupla.
“Arnaldo � violeiro conhecido, acompanhou Inezita Barroso por mais de 10 anos”, orgulha-se Sodr�. “Ele foi influenciado, principalmente, por Ti�o Carreiro e pelos diferentes universos das cordas de Paco de Luc�a e Andr�s Segovia”, afirma.
Sodr� tem divulgado a viola caipira em festivais de jazz, eventos de world music e projetos de m�sica instrumental. Ganhou o pr�mio Jovem Instrumentista BDMG e lan�ou os discos Fernando Sodr� (2013), Rio de contrastes (2007, com a participa��o de Hamilton de Holanda) e Viola de ponta a cabe�a (2012, com participa��es de Toninho Horta e Gabriel Grossi).
O BRASIL NAS 10 CORDAS
Com Fernando Sodr� e Arnaldo Freitas. Em 2 de maio, �s 19h. Teatro de C�mara do Cine Theatro Brasil Vallourec, Pra�a Sete, Centro. Inteira: R$ 30.
