
Samuel Pozzi. � prov�vel que voc� nunca tenha ouvido esse nome, a menos que conhe�a bem a hist�ria da medicina. Quando o escritor Julian Barnes foi � National Portrait Gallery, em Londres, em 2015, para conferir a exposi��o de John Singer Sargent (1856-1925), ele se impressionou com o enorme retrato de um homem vestido de vermelho. Chegou mais perto para ver de quem se tratava. Leu pela primeira vez o nome de Pozzi (1846-1918) e guardou a apresenta��o: “ginecologista e sedutor”. Achou aquilo um paradoxo.
Dias depois, leu uma cr�tica no jornal em que a autora dizia que tinha corado ao ver aquele quadro na parede. E achou interessante que mais de um s�culo depois aquilo pudesse acontecer. Passado mais de um ano, Barnes estava brincando com a ideia de escrever fic��es sobre m�dicos que morreram de forma tr�gica e se deparou de novo com Pozzi, que teve um fim assim.

O escritor descobriu que ele foi uma grande figura na Paris do fim do s�culo 19, amigo de grandes escritores, amante da musa Sarah Bernhardt e presente em momentos significativos da Belle �poque. Barnes, profundo conhecedor do per�odo, desconhecia as informa��es. E isso o levou cada vez mais fundo em sua investiga��o, que incluiu at� a descoberta de uma visita ao Instituto Butantan, em S�o Paulo, em 1910.
“Pozzi foi uma presen�a poderosa que n�o deixou muitos rastros, e isso � muito interessante para um escritor. Quanto mais lia, mais percebia que se tratava de um homem l�cido vivendo tempos insanos. Um homem da ci�ncia vivendo a Belle �poque, um pioneiro, e algu�m que dizia que o chauvinismo era uma das piores formas de ignor�ncia. Muito da sua atitude � oportuna hoje, visto que o mundo est� cada dia mais louco”, diz Julian Barnes em entrevista concedida por videochamada.
Autor de obras consagradas como “O sentido de um fim”, vencedor do Booker Prize, e de “Altos voos e quedas livres”, que escreveu depois da morte da mulher, quando tamb�m se afastou da vida p�blica, Julian Barnes � considerado um dos autores mais vers�teis da literatura contempor�nea e dono de um dos textos mais elegantes, tanto na fic��o quanto em sua n�o fic��o, que � o caso de “O homem do casaco vermelho”, a biografia de Samuel Pozzi que ele lan�ou em 2019 e chega agora ao Brasil pela Rocco.
“O homem do casaco vermelho” n�o � s� um livro sobre um m�dico, mas tamb�m sobre um outro tempo. Como foi para o senhor passar um per�odo na Paris da Belle �poque enquanto a Inglaterra encarava o Brexit?
Nunca penso nos meus livros como fuga. Eles podem ser uma fuga para os leitores. Eles s�o apenas o que quero fazer apaixonadamente naquele momento espec�fico. Mas enquanto investigava a hist�ria e escrevia sobre Pozzi, fiz alguns paralelos com a nossa �poca – ou um paralelo com o modo como devemos nos comportar no nosso tempo. Ele era um verdadeiro cosmopolita, tinha amigos no mundo todo e era um grande angl�filo. N�s, na Gr�-Bretanha, est�vamos vivendo um daqueles per�odos de ultraje moral e social quando decidimos que n�o estar�amos com os outros e que quer�amos ficar na nossa pr�pria ilha, porque � aqui que somos mais felizes. Isso, claro, � uma fantasia. Sempre foi uma fantasia. Mas o desastroso Brexit aconteceu, e Pozzi foi algu�m que, apesar da tens�o que havia entre Fran�a e Inglaterra em sua �poca, manteve seus contatos na Inglaterra, na Alemanha, viajou para a Argentina e para o Brasil. Ele foi cosmopolita em uma �poca em que os perigos do provincianismo pol�tico e nacional estavam se tornando mais fortes.
O mundo era diferente no final do s�culo 19 e em 2019, quando o livro foi publicado. Como � para o senhor testemunhar essa reviravolta que estamos vivendo?
� tudo muito alarmante. E � muito alarmante em muitos aspectos. A Olimp�ada estava acontecendo e pensamos “que bom, posso ver os jogos por duas semanas e n�o pensar na situa��o do mundo”. Mas os problemas do mundo n�o se resolvem enquanto assistimos � Olimp�ada. N�o tenho filhos, mas outro dia estava conversando com um amigo que disse que n�o tinha ideia de como o mundo ser� para seus netos. Uma das crises mais �bvias � a mudan�a clim�tica, uma vez que voc� tenta entender isso e imaginar as consequ�ncias, voc� compreende por que as pessoas est�o achando que ela n�o est� acontecendo de verdade ou est�o vendo a Olimp�ada. Esse � um lado da hist�ria, e a quest�o pol�tica � outro efeito. H� sempre a preocupa��o ma�ante de que algum erro ou alguma decis�o mal-intencionada poderia se tornar uma cat�strofe para o mundo. J� na Idade M�dia, havia pessoas que esperavam que o mundo fosse acabar e que Deus as puniria, mataria ou as torturaria no inferno. Temos esses momentos de esperan�a, como quando Trump n�o foi re- eleito. Mas depois vemos o n�mero de votos que ele teve e � deprimente. Esta � uma sociedade completamente dividida. E tem tamb�m a ascens�o de l�deres populistas no meu continente, e tamb�m no seu. Populismo e nacionalismo combinados com antici�ncia, antivacina, mitos de elei��es roubadas e coisas desse n�vel n�o resultam em boa mistura. H� momentos em que todas as pessoas respons�veis pelo mundo parecem iludidas. � a� que temos que pensar que tamb�m h� no mundo pessoas como o doutor Pozzi, que veem as coisas como elas s�o. Devemos todos ser como Pozzi. Esse � o meu conselho.
Por que ele foi esquecido, apesar do que fez pela ci�ncia e pela sa�de da mulher?
Essa � uma das raz�es para eu ter escrito o livro. Eu achava que essas pessoas deveriam ser lembradas e celebradas. Voc� est� na �rea cient�fica, promove avan�os, faz o bem, e ent�o vem uma nova gera��o. A ginecologia, hoje, n�o � como nos tempos de Pozzi. As coisas v�o evoluindo e, a menos que voc� seja extremamente famoso ou algu�m como Newton, ser� provavelmente esquecido. Embora ele seja um personagem extravagante, tamb�m era muito discreto. Ele foi um senador, o primeiro professor de ginecologia da Fran�a. Mas tamb�m tinha algo meio secreto sobre ele. Ningu�m com quem conversei j� tinha ouvido falar sobre ele – e ele estava em todo lugar em sua �poca. Uma pessoa perguntou se ele tinha alguma coisa a ver com a poeta Catherine Pozzi. Ele foi esquecido e sua filha � lembrada, lembrada porque teve um caso com Paul Val�ry.
O que mais aprendeu com seu personagem?
Uma das li��es de Pozzi � que voc� deve olhar ao redor do mundo e, ao fazer isso, vai descobrir lugares onde coisas podem ser feitas de um jeito melhor do que em seu pa�s. Essa � uma li��o simples que todos n�s, cidad�os, devemos aprender. A Gr�-Bretanha tem o hist�rico de pensar que � uma na��o moralmente superior. Os Estados Unidos acham isso agora, assim como muitos outros pa�ses. “N�o h� lugar nenhum como a casa da gente.” Os pa�ses est�o muito lentos na tarefa de reexaminar o seu passado. A Gr�-Bretanha, que sempre teve vis�o muito r�gida de sua hist�ria, est� come�ando a reexaminar esse passado, principalmente no que diz respeito ao seu papel na escravid�o, e acho que isso � um desses lampejos de otimismo. Muito da riqueza do pa�s veio do tr�fico de pessoas e � muito bom que estejamos percebendo isso agora. Claro que o Partido Conservador e os tradicionalistas ficam dizendo para pararem de diminuir a Gr�-Bretanha, para pararem de minar a na��o, que as coisas eram daquele jeito nos velhos tempos e que agora s�o novos tempos. N�o! S� teremos novos tempos se investigarmos os velhos tempos. Sou um pessimista, mas um pessimista que de vez em quando encontra raz�es para se animar.
O que interessa ao senhor explorar em sua obra? O que busca ao escrever fic��o ou n�o fic��o?
Escrevo sobre o mundo como o vejo e sobre como ele era no passado. Escrevo sobre amor, arte e hist�ria. Sobre pol�tica. E escrevo isso nos dois g�neros. N�o acho que meus interesses, quando fa�o fic��o, sejam necessariamente diferentes quando fa�o n�o fic��o.
A mem�ria e o luto tamb�m s�o quest�es importantes no seu trabalho.
Isso � verdade. Amor e luto, os dois lados de uma mesma coisa. Escrevi sobre isso em “Altos voos e quedas livres”, dois anos depois que minha mulher morreu. E sempre me interessei pela mem�ria e qu�o confi�vel ela �, e em como ela muda. O efeito do tempo na mem�ria. O efeito da mem�ria no tempo. Meu irm�o mais velho � fil�sofo. Quando eu estava escrevendo “Nada a temer”, que era em parte sobre morte e em parte sobre minha fam�lia, fiz muitas perguntas sobre fatos da nossa vida. Ele me disse que se nossas respostas fossem diferentes, eu deveria ficar com a minha resposta. Falou: “Voc� provavelmente acredita mais em mem�ria do que eu; para mim, a mem�ria � muito mais pr�xima da imagina��o”. Eu tinha uma ideia mais tradicional do que era a mem�ria, algo como um cofre, ou o lugar numa esta��o de trem onde voc� deixa a sua bagagem e volta quando precisa de algo, abre com uma chave e o tira de l�. Agora, 13 anos depois dessa conversa, estou mais convencido da falibilidade da mem�ria e, como ele diz, acho que ela � mais pr�xima de um ato de imagina��o do que de um registro factual.
Vivemos uma �poca de luto coletivo ao mesmo tempo em que somos privados de nos despedir daqueles que amamos e perderam a vida na pandemia. O que a pandemia vai nos deixar em termos de compreens�o do luto?
N�o gosto de dar conselhos �s pessoas, mas o que posso dizer � o que escrevi sobre minha experi�ncia de luto. Elaborar um luto n�o � algo que algu�m possa fazer por voc�. Voc� tem de fazer isso sozinho. E n�o vai ter sucesso, mas vai conseguir dominar o luto encarando o luto e sua verdade. Funciona. � um trabalho duro, e cansativo. E � mais dif�cil quando a pessoa que morre n�o teve uma longa doen�a ou n�o � muito velha. Isso � o que � mais terr�vel com rela��o � pandemia: o qu�o r�pido tudo acontece e como parece completamente aleat�rio: essa pessoa vai morrer e essa vai escapar. A ideia e a imagem das pessoas que n�o podem estar junto de quem amam no final � terr�vel. Isso torna tudo pior. E h� algo que ainda n�o encaramos, que � a COVID longa. Pessoas sentir�o os efeitos por muito tempo ou pela vida toda, n�o sabemos. Pessoas de 20 anos est�o pegando, est�o confinadas em casa, sem energia, com cansa�o mental, e n�o v�o se recuperar por muito tempo. H� um pesar por essas pessoas tamb�m porque pode n�o haver uma sa�da para elas. Acreditamos que s� existe vida ou morte e n�o pensamos que h� a morte cont�nua em vida.

“O HOMEM DO
CASACO VERMELHO”
. De Julian Barnes
. Rocco
. 272 p�ginas
. R$ 79,90
. R$ 39,90 (e-book)
