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Estado de Minas

Uma lenda gigante

Explosivo, folcl�rico, boleir�o, Yustrich morria h� 30 anos na capital mineira. T�cnico com fama de dur�o fez hist�ria em Atl�tico, Cruzeiro e Am�rica ao longo de tr�s d�cadas


postado em 15/02/2020 04:00 / atualizado em 14/02/2020 23:54

Em sua última passagem pelo futebol, em 1982, comandando o Cruzeiro: idas e vindas nos times mineiros (foto: Arquivo EM/D.A Press %u2013 1/1/1982)
Em sua �ltima passagem pelo futebol, em 1982, comandando o Cruzeiro: idas e vindas nos times mineiros (foto: Arquivo EM/D.A Press %u2013 1/1/1982)

Ele era filho de alem�es. Nasceu em Corumb�, no Mato Grosso. Teria hoje 102 anos. Dorival Knipel ficou conhecido pelo apelido Yustrich pela semelhan�a com um goleiro famoso do Boca Juniors dos anos 1930 e 1940, Juan Elias Yustrich. Corpulento, come�ou a carreira esportiva como boxeador, mas permaneceu no ringue por pouco tempo. Acabou indo para o Flamengo, atuando sob as traves. No Rio defendeu tamb�m o Vasco e Am�rica. Mas foi como treinador que ganhou fama, principalmente no futebol mineiro. Pela maneira turrona de trabalhar, muito exigente, temperamento explosivo e pela altura, 1,90m, era chamado Hom�o. Hoje se completam 30 anos da morte dele. Consequ�ncia de um c�ncer que o deixou internado por quatro meses no Cardiocentro, em Belo Horizonte.

Treinador pol�mico, dirigiu grande times, como Atl�tico, em 1952, Cruzeiro, Flamengo, Vasco, Corinthians, Am�rica (onde estrearia, em 1948), Villa Nova, Sider�rgica, que levou ao t�tulo mineiro em 1964, Coritiba, Porto (Portugal), com o qual seria bicampe�o (temporadas 1955/56 e 1956/57), Am�rica-RJ e Bangu. Como jogador foi tricampe�o no Fla (1939/1942/1944).

No fim da d�cada de 1940, tornou-se t�cnico de futebol, com a fama de disciplinador e dur�o. N�o aceitava, por exemplo, que jogador fumasse ou que tivesse cabelo comprido. Nem mesmo barba. O cabelo tinha de ser cortado baixinho, rente ao couro cabeludo. N�o tolerava atrasos ou faltas aos treinos, em que exigia muito dos atletas. O temperamento inst�vel j� havia lhe custado a condi��o de goleiro titular do rubro-negro carioca.

Em 1955, ap�s treinar o Atl�tico, foi para o Porto. L�, levou o clube ao bicampeonato nacional, quebrando jejum que vinha de 1940. Deixaria o time em 1958, campe�o, mas com o ambiente envenenado exatamente por seu perfil dif�cil.

De volta ao Brasil, dirigiria Bangu, Am�rica-RJ, retornaria o Atl�tico, comandaria outra vez o Bangu e chegaria ao Sider�rgica, de Sabar�, para liderar a equipe no t�tulo mineiro de 1964, o �ltimo antes da Era Mineir�o. Em 1968, novamente no Atl�tico. Treinou o alvinegro em dezembro daquele ano, quando este representou a Sele��o Brasileira, enfrentando a Iugosl�via, no Mineir�o. O Galo, trajando amarelo, venceu por 3 a 2, de virada.

Em setembro de 1969, era ele � frente do Atl�tico no embate emblem�tico com a Sele��o Brasileira comandada por Jo�o Saldanha. O Galo vestiu a camisa da Sele��o Mineira e venceu por 2 a 1. Os gols foram de Amauri (42 do 1º), Pel� (5 do 2º) e Dario (20 do 2º).

ARMA Come�ava a� uma rusga com Saldanha. Tamb�m com temperamento explosivo, Saldanha resolveu tirar satisfa��o meses depois. Em 12 de mar�o de 1970, invadiu o CT do Flamengo no Rio, em S�o Conrado. De arma em punho, procurava Yustrich, ent�o comandante do rubro-negro, que j� havia deixado o local. Para muitos, foi uma das raz�es para a demiss�o de Saldanha, substitu�do por Zagallo.

E at� deixar os gramados, em 1982, como t�cnico do Cruzeiro, Yustrich seguiria vivendo como vivera desde o come�o da carreira: sob o signo da pol�mica.

De candidato a boxeador à atuação como goleiro e, mais tarde, treinador de vários clubes entre Minas e Rio de Janeiro(foto: Arquivo EM/D.A Press %u2013 4/9/77)
De candidato a boxeador � atua��o como goleiro e, mais tarde, treinador de v�rios clubes entre Minas e Rio de Janeiro (foto: Arquivo EM/D.A Press %u2013 4/9/77)

Conheci um outro Yustrich

Seu Yustrich. Era como a gente o chamava l� na Rua Dante, 249, no Bairro S�o Lucas, o pr�dio onde mor�vamos. Meu vizinho. Ele no 205, eu no 402. Meu pai sempre se referia a ele como Hom�o. As bolas com as quais a gente jogava pelada, tanto no p�tio do pr�dio como na rua, eram doadas por ele.

Um dia, chegou mais cedo do treino. Eu tinha uns 12 anos. Reuniu os meninos e disse: “Vou levar voc�s pra jogar com time que tenho em Vespasiano. V�o disputar o campeonato da regi�o. Precisam treinar.” Ficamos empolgados: eu, Caqui, Chiquinho, Pelau, Darlan, Miguel (goleiro), Zez�, Luizinho, os irm�os S�rgio e Jorginho (Mal-acabado) Abjaldi, Popola, Nilo, Vanderlei. �amos jogar num camp�o!

E l� fomos n�s em dois carros para o s�tio do Yustrich. Eu no carro dele, um Impala, azul, bonito, com metade do grupo. A outra metade foi num Chevrolet 47, Fleetmaster, com o motorista dele, o Gasolina.

Chegamos, e o outro time j� estava em campo. O Yustrich nos deu o uniforme. Fui logo pegando a 5. Gostava de jogar no meio-campo. Mas ele me chama e pergunta: “O que voc� est� fazendo com a 5? N�o viu que � o maior? Voc� � o beque.” “T� bom”, respondo, mas aviso que n�o visto a 2, pois d� azar.

“Vem c�, vou te explicar algumas coisas”, diz ele. “T� vendo o 9? Assim que pegar na bola, d� nele. Todo centroavante � medroso. T� vendo o 10? D� nele tamb�m, porque se for bom, vai armar l� atr�s e n�o cria problema pra nossa defesa”. E tinha mais: “Vou te dizer e n�o vou repetir. Quem bate primeiro � quem manda.” O placar, n�o me lembro, foi apertado. Caqui, nosso craque. Fez um gol.

Na volta, chegando ao pr�dio, ele chamou o Chico, o zelador, e mandou buscar umas caixas que tinha em casa. Eram salgados de todos os tipos. E vieram tamb�m refrigerantes. Uma farra.

O nosso Yustrich, l� da Rua Dante, era diferente do t�cnico com fama de mau. Meu pr�dio era famoso no bairro por causa da festa junina. E Yustrich bancava tudo: barraquinhas, comida, bebida. Numa delas, mandou fazer umas bombas, tamanho “garraf�o”. Riscou e colocou sob lat�es de lixo. Aquilo explodiu, virou foguete. Na hora, fez sinal para um caminh�o na esquina. Quatro homens desembarcaram lat�es novos. Ele fazia quest�o disso. (ID)


Sob o signo da pol�mica

Cobertor ao sol

Artilheiro do Guaxup� no Mineiro de 1975, o centroavante Marc�o chegou ao Am�rica. No ano seguinte, Yustrich, em sua quarta passagem pelo clube (seriam cinco), se preocupava com o atleta, que admirava. “Ganha peso com facilidade. Tenho de resolver isso e j� sei o que fazer.” Encomendou quatro cobertores. Era ver�o. Terminados os treinos, esticava um cobertor atr�s de um dos gols do CT Vale Verde, mandava Marc�o se deitar, colocava tr�s cobertores por cima e o deixava no sol por pelo menos uma hora. Passou a controlar a alimenta��o do jogador, que emagreceu e voltou a marcar gols.


Fogo em tudo

Yustrich foi contratado pelo Sider�rgica, de Sabar�, em 1964. Quis logo conhecer a concentra��o. N�o gostou do que viu. Camas velhas, assim como os colch�es. Levou tudo pessoalmente para fora da casa e, no quintal, ateou fogo. Enquanto as chamas consumiam o material, foi at� uma loja na pra�a principal, comprou beliches e colch�es novos. Mandou cobrar da dire��o. Ningu�m reclamou. O Sider�rgica acabou campe�o mineiro, seu segundo t�tulo estadual.


De bra�o quebrado

Na final do Mineiro de 1964, Am�rica x Sider�rgica, na Alameda, o time de Sabar� come�ou quente. Fez 1 a 0 com Ernani. Noventa e Aldeir ampliaram ainda no primeiro tempo. No in�cio da segunda etapa, falta em Noventa. Atendido fora do campo, o m�dico constatou fratura. Yustrich d� a ordem: “Coloca no lugar e manda de volta.” Noventa tenta questionar. “J� mandei. Volta l� e joga”. Ao fim, 3 a 1 para o time de Sabar�, campe�o.


Pux�o de orelha

Z� Ernesto era goleiro do Am�rica promovido por Yustrich ao profissional. Morava na mesma rua do treinador, no S�o Lucas. Um dia, no ponto de �nibus, acendeu um cigarro. Yustrich, da janela do apartamento, viu. Foi, tomou o cigarro, o agarrou pela orelha e o arrastou at� sua casa. “Dona Deusdedith, esse sem-vergonha estava fumando. Hoje ele n�o sai, n�o treina. Mas amanh� quero que chegue �s 7h. Vou cheirar sua boca e se estiver fedendo a cigarro, vai se ver comigo”.


Rodo na m�o

Quando foi treinar o Porto, Yustrich decidiu levar Jaburu, atacante do Am�rica. O atleta tinha problemas com a bebida. A mulher do jogador, ao chegar ao apartamento em que iriam morar, procurou Yustrich e disse que tinha medo de ser agredida. Yustrich voltou com um rodo. Entregou a ela e disse, diante de Jaburu: “Voc� vai deixar esse rodo sempre ao lado da cama. Se ele te bater, voc� pega o rodo e bate no teto. Moro aqui em cima. Des�o aqui e acabo com a ra�a dele”.



Entre a cr�tica e o respeito


''O Yustrich tinha a mania de colocar a gente para dividir bolas. Aquilo era perigoso. E tinha outras trucul�ncias nos treinos, como colocar um para carregar o outro nas costas o campo inteiro. Eram treinos arcaicos. Mandava a gente chegar junto e pegar o advers�rio. Eu n�o concordava de jeito nenhum. Mas na parte t�tica era impressionante”

Nelinho, ex-Cruzeiro e Atl�tico



''A gente tinha ido jogar em Porto Alegre, contra o Inter. Na volta, paramos em S�o Paulo. Chovia muito. Tivemos de pernoitar l�. No dia seguinte, pegamos o avi�o cedo. Ao chegar � Pampulha, o Yustrich anunciou que ir�amos direto para treinar. Minha mulher estava em trabalho de parto, mas n�o adiantou. Quando cheguei ao hospital, a M�rcia tinha tido um casal de g�meos: Marcos Vin�cios e Maria Carolina. De repente, batem na porta. Era o Yustrich, com a mulher dele e um buqu� de flores”

Amauri Horta, ex-Atl�tico


''Ele me levava pra casa dele, me colocava assentado na sala e ficava me dando conselhos. Eu era tido como ruim de bola. E n�o convivia com os demais jogadores. Aquilo incomodava o Yustrich, que resolveu me ajudar. Ele me deu for�a. Nas conversas, havia me dito: 'N�o espero nada de voc� no que diz respeito a controle de bola. Vou usar a sua velocidade e sua impuls�o, que � maravilhosa. E vou treinar sua perna direita. Voc� vai se tornar artilheiro'”.

Dario, ex-Atl�tico

0s t�tulos
Mineiro
• 1948 (Am�rica)
• 1952 e 1953 (Atl�tico)
•1964 (Sider�rgica)

Portugal
•Bicampe�o pelo Porto (1955 e 1956)

Ta�a Guanabara
•Flamengo (1970)

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