O Filomeno foi o fundador da equipe Uni�o S�o Bento. Quando era jovem, jogava de lateral e zagueiro, mas era ruim de bola. N�o deixava furar, porque tinha muita vontade, mas n�o tinha toque refinado para tocar a bola. Quando vejo uma turma jogando alegre, unida, acho muito bonito. Futebol traz uni�o.
Quando o Uni�o S�o Bento parou por um tempo, todo mundo estava esparrodado e n�o tinha o que fazer. O futebol era importante para manter o povo unido. Foi por isso que eu voltei com o time, para ficar todo mundo unido. Falei: “Vamos reformar o time”. Ningu�m queria ser o principal. Eu falei: “Ent�o eu vou”. Juntei com o Sidney e o Expedito. A� come�amos, com uma dificuldade danada, pegando uniforme emprestado. Nosso primeiro uniforme foi comprado com o dinheiro do povo. O uniforme dois est�vamos guardando para fazer uma festa agora em dezembro. Ir�amos inaugurar o alambrado e nosso time j� tinha dinheirinho para fazer festa.
Em 5 de novembro, eu estava no servi�o trabalhando. Eram quatro horas e pouco, quando fiquei sabendo da not�cia. Peguei meu telefone, liguei pra casa e minha filha n�o atendeu. Depois atendeu e falou: “Pai, a barragem estourou”. Peguei minha motinha para ir para casa. Vou salvar alguma coisa. Quando cheguei l�, j� era muito tarde. Cheguei perto, mas l� n�o. H� 15 dias tinha sido a �ltima vez que brinquei no campo de futebol. Achava que todo mundo tinha morrido. N�o tinha nem no��o da minha vida. Estava louco. N�o sabia o que fazer. Quando cheguei l�, algu�m falou: “Sua fam�lia est� l� no alto”.
Eu e Maria de Lourdes come�amos a namorar por acaso, h� 35 anos. Tinha um barzinho perto da casa dela e uma pra�a. A gente brincava de bola e paquerava. De vez em quando ia l�, levava um presentinho.
No dia 6, quatro horas da manh�, eu atravessei o mato e vi todo mundo. Foi um al�vio, uma alegria imensa. O primeiro que vi foi meu garoto, o Jardel. Quando vi n�o s� minha fam�lia, mas a comunidade toda, foi uma alegria imensa. N�o sabia o que falar, s� chorava. Bento era um lugar pequenininho, onde todo mundo conhecia todo mundo.
N�o sobrou nada meu l�. Minha casa, n�o sobrou nenhuma parede. Era uma casinha modesta, mas cheia de carinho: tr�s quartos, sala, cozinha, copa, banheiro e �rea de servi�o. Um terreirinho para plantar uma horta. Tinha cebola, couve. Tinha cria��o tamb�m: galinha e cachorro. Foi um milagre. Eu diria obrigado a Deus e depois obrigado a Paula, que saiu avisando as pessoas com a motinha. Ela teve uma coragem imensa de sair de onde ela estava e avisar.
Se eu pudesse salvar s� uma coisa, eu salvaria meu cachorro. Ele � vida. Chamava Jason, tomava conta da minha fam�lia, criei ele para isso. Era um amor. Se pudesse salvar mais, eu tiraria minha cole��o de camisas do Galo. Eu tinha v�rias: antigas, novas, da Libertadores, Copa Brasil, Diego Tardelli. Tinha um punhado. Comprar eu comprei poucas. Muitas eu ganhei.
O que eu quero hoje? Queria a minha comunidade junta de novo. Queria que fizessem uma vila pra n�s. Acabava o jogo, �amos para a pra�a, barzinho da Sandra para jogar baralho, tomar cerveja. Quando perd�amos, �amos pra l� chorar, quando ganh�vamos, �amos pra l� comemorar. Era o jeito que sab�amos viver.