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SAÚDE MATERNA

Toda gestante deve repor cálcio contra a pré-eclâmpsia? Entenda o debate

Revisão questiona prescrição do mineral a todas as grávidas, mas a prática já é consolidada e considerada essencial por autoridades de saúde

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Nos últimos anos, a suplementação de cálcio durante a gestação foi considerada uma importante aliada na prevenção da pré-eclâmpsia, uma das principais causas de complicações graves na gravidez que podem levar ao parto prematuro e até morte do bebê e da mãe. Mas uma revisão publicada em dezembro pela Cochrane gerou debate ao questionar a eficácia dessa medida. 

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Há evidências de que o mineral ajuda a controlar a pressão arterial. “O cálcio atua por mecanismos que relaxam os vasos sanguíneos, reduzem a liberação de paratormônio, que é o hormônio que regula os níveis de cálcio no sangue e, como consequência, contribuem para a queda da pressão arterial”, explica a ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, do Einstein Hospital Israelita. 

A pré-eclâmpsia é uma condição potencialmente grave caracterizada pelo aumento da pressão arterial durante a gravidez, geralmente após a 20ª semana de gestação, associado a sinais de disfunções de órgãos como rins e fígado. Estima-se que o problema afete de 2% a 8% das gestações no mundo. O único tratamento definitivo é o parto, muitas vezes prematuro. Daí a importância de estratégias preventivas, como o aporte extra de cálcio.      

Mas a revisão publicada pela Cochrane sugere que os benefícios da suplementação observados anteriormente podem ter sido superestimados. O trabalho reuniu 10 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 37.504 gestantes, e comparou a suplementação do mineral tanto com placebo quanto entre doses altas e baixas.

Para isso, os pesquisadores consideraram apenas estudos de grande porte e concluíram que o suplemento não reduziu a incidência de pré-eclâmpsia, nem alterou de forma significativa outros desfechos relevantes, como parto prematuro, mortalidade materna ou perda perinatal. Segundo os autores, trabalhos anteriores muito pequenos ou considerados pouco confiáveis foram excluídos da revisão por problemas metodológicos ou de confiabilidade.

No entanto, embora represente uma mudança relevante no entendimento do tema, isso não significa que médicos devem abandonar completamente o uso do mineral. “Apesar dessa revisão, ainda há espaço para a suplementação em pacientes de alto risco para pré-eclâmpsia e baixa ingesta de cálcio”, analisa Ana Paula.

Recomendação no Brasil

Essa proposta de mudança surge menos de um ano após o Ministério da Saúde incorporar a suplementação universal de cálcio para gestantes como estratégia de prevenção da pré-eclâmpsia. Em nota enviada à Agência Einstein, a pasta informou que a recomendação atual segue a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Elas integram a Rede Alyne e a Estratégia Antirracista em Saúde, propondo a suplementação de 1.000 mg/dia de cálcio a partir da 12ª semana de gestação, como medida de equidade e proteção”, afirma a nota. “A recomendação fundamenta-se no contexto epidemiológico brasileiro, marcado pelo impacto dos distúrbios hipertensivos da gestação na morbimortalidade materna, com incidência desproporcional entre mulheres negras e indígenas, bem como no baixo consumo alimentar de cálcio na população feminina.”

O documento informa ainda que a pasta está acompanhando eventuais atualizações da OMS sobre o tema “para assegurar que as recomendações adotadas no âmbito do SUS permaneçam baseadas nas melhores evidências disponíveis, conciliando rigor científico, custo-efetividade e compromisso com a equidade e a redução das iniquidades em saúde materna.”

Desde os anos 1980, a ciência estuda os efeitos da suplementação de cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia. “Em 2011, os resultados disponíveis levaram a Organização Mundial da Saúde a recomendar a suplementação do mineral para gestantes de populações com baixa ingestão alimentar”, lembra.

Em nota publicada em 22 de dezembro de 2025, a Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo (Sogesp) reconhece a importância da revisão da Cochrane, mas destaca que uma metanálise anterior havia sugerido benefício do cálcio especialmente em populações com baixa ingestão dietética do mineral. A Sogesp defende que são necessários novos ensaios para esclarecer essa incerteza.

“Por ora, a recomendação não deve mudar para gestantes de alto risco ou com baixa ingestão de cálcio, mantendo a suplementação direcionada nesses grupos enquanto se aguarda posicionamentos de organismos oficiais e novas evidências.”

Ana Paula Beck reitera que o cálcio é considerado um suplemento de baixo risco e seguro para todas as mulheres. “Nas doses recomendadas, entre 500 e 1.500 mg por dia, não há aumento significativo de eventos adversos”, frisa.

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“Gestantes que desejem continuar suplementando podem fazê-lo, especialmente quando há risco de deficiência, mas com expectativas mais realistas sobre seus efeitos.” Na dúvida, converse com seu obstetra para saber a melhor indicação para você.

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