Brasil deve registrar quase 800 mil novos casos de câncer por ano até 2028
Projeção inédita para 2026–2028 expõe avanço acelerado da doença, peso dos fatores evitáveis e desigualdades regionais
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O Brasil avança para enfrentar uma das maiores cargas oncológicas de sua história recente. De acordo com a "Estimativa 2026 - Incidência de Câncer no Brasil", divulgada nesta terça-feira (4/2), Dia Mundial do Câncer, pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o país deverá registrar cerca de 781 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028.
Em Minas Gerais, entre os homens, os cânceres mais incidentes são os de próstata, cólon e reto e de traqueia, brônquio e pulmão, seguidos pelo câncer de cavidade oral, que ocupa a terceira posição no ranking estadual. Entre as mulheres, os cânceres de mama, cólon e reto, com taxa de 18,67 casos por 100 mil, e de colo do útero figuram entre os três mais frequentes.
A estimativa exclui os tumores de pele não melanoma, analisados separadamente por apresentarem alta incidência e baixa letalidade. Ainda assim, o volume de diagnósticos segue elevado: aproximadamente 518 mil novos casos anuais no país.
Os dados reforçam o câncer como uma das principais causas de morbimortalidade no Brasil, indicador que combina incidência e mortalidade, e indicam que a doença já se aproxima das enfermidades cardiovasculares como principal causa de morte da população.
Para Márcia Sarpa, coordenadora de Prevenção e Vigilância do Inca, as projeções vão além dos números. “As estimativas, mais do que estatísticas, evidenciam a necessidade de planejar e executar ações efetivas de prevenção, detecção precoce e acesso oportuno ao tratamento do câncer”, afirma.
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Por que o câncer avança no Brasil?
O crescimento da incidência atinge homens e mulheres e reflete uma combinação de fatores estruturais e comportamentais. Entre os principais motores dessa tendência estão:
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O envelhecimento acelerado da população
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A exposição contínua a fatores de risco evitáveis, como tabagismo, obesidade e sedentarismo
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As desigualdades persistentes no acesso à prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce
A nova projeção representa um aumento significativo em relação ao triênio anterior - 704 mil casos novos - e acompanha a tendência global já apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê um crescimento expressivo da carga mundial de câncer nas próximas décadas.
Tumores mais frequentes no país
Desconsiderando o câncer de pele não melanoma, os tipos mais incidentes previstos para 2026 no Brasil são:
- Mama feminina: 78.610 casos por ano (15%)
- Cólon e reto: 53.810 (10,4%)
- Traqueia, brônquio e pulmão: 35.380 (6,8%)
- Estômago: 22.530 (4,3%)
Entre as mulheres, predominam os cânceres de mama (30,0%), cólon e reto (10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e tireoide (5,1%). Entre os homens, lideram próstata (30,5%), cólon e reto (10,3%), pulmão (7,3%), estômago (5,4%) e cavidade oral (4,8%).
Entre os homens, predominam os cânceres de próstata, cólon e reto, pulmão e estômago, refletindo a coexistência de fatores ligados ao envelhecimento populacional e ao estilo de vida ocidental. Observa-se uma transição em que tumores de origem infecciosa, como o câncer gástrico, tendem a declinar gradualmente, enquanto aumentam aqueles associados a fatores comportamentais.
Entre as mulheres, o câncer de mama lidera amplamente, seguido pelos cânceres de cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide. Esse perfil evidencia a influência de fatores reprodutivos, hormonais e comportamentais, além dos determinantes sociais.
“Estamos assistindo à materialização de tendências anunciadas há anos”, avalia Carlos Gil Ferreira, diretor médico da Oncoclínicas e presidente do Instituto Oncoclínicas. “O envelhecimento da população explica parte desse crescimento, mas há um peso enorme de fatores evitáveis, como sedentarismo, obesidade, alimentação inadequada e tabagismo - agora agravados pela disseminação do cigarro eletrônico entre jovens.”
Dois Brasis oncológicos
A análise regional da estimativa do Inca revela que o câncer não se distribui de forma homogênea pelo país. Ao contrário, o Brasil convive com dois grandes perfis oncológicos, moldados por diferenças demográficas, socioeconômicas, ambientais e de acesso aos serviços de saúde.
Entre os homens
Em todas as regiões, o câncer de próstata permanece como o mais incidente, somando cerca de 77,9 mil novos casos por ano, com as maiores taxas concentradas no Sudeste e no Centro-Oeste. A partir daí, no entanto, os padrões regionais se diferenciam.
No Sudeste, o câncer de próstata lidera em todos os estados, seguido de forma consistente pelo câncer de cólon e reto, que ocupa a segunda posição em todas as unidades da federação da região. O câncer de traqueia, brônquio e pulmão aparece como o terceiro mais frequente em São Paulo e no Rio de Janeiro, enquanto em Minas Gerais e no Espírito Santo essa posição é ocupada pelo câncer de cavidade oral.
No Sul, o padrão é semelhante ao observado nas regiões mais urbanizadas do país, mas com maior peso dos tumores associados ao tabagismo. O câncer de próstata segue na liderança, seguido pelos cânceres de pulmão e de cólon e reto. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o câncer de pulmão é o segundo mais incidente entre os homens; no Paraná, ocupa a terceira posição. As taxas da região estão entre as mais altas do país para esse tipo de tumor.
Já no Norte, apesar do predomínio do câncer de próstata, ganham destaque os cânceres de estômago e de pulmão, refletindo a maior influência de fatores infecciosos, condições socioambientais adversas e menor acesso ao diagnóstico precoce.
O Nordeste apresenta um perfil semelhante ao do Norte, com predominância do câncer de próstata, seguido pelos cânceres de cólon e reto e de pulmão. Algumas particularidades se destacam: no Ceará, o câncer de estômago ocupa a segunda posição entre os homens, enquanto na Bahia o câncer de cavidade oral aparece como o terceiro mais incidente.
No Centro-Oeste, o padrão é mais uniforme: em todas as unidades da federação, o câncer de próstata lidera, seguido pelos cânceres de cólon e reto e de pulmão, refletindo um perfil intermediário de transição epidemiológica.
Entre as mulheres
Entre as mulheres brasileiras, o câncer de mama é o mais incidente na quase totalidade dos estados, consolidando-se como o principal tipo de câncer feminino no país. A estimativa aponta 78,6 mil novos casos por ano, com as maiores taxas nas regiões Sudeste e Sul.
No Norte, porém, o cenário ainda revela fortes desigualdades: no Amapá, o câncer do colo do útero permanece como o mais incidente, superando o câncer de mama, com taxa de 30,2 casos por 100 mil mulheres, um indicador direto das dificuldades de acesso à vacinação contra o HPV e ao rastreamento adequado.
O Nordeste apresenta um padrão misto. O câncer de mama lidera na maioria dos estados, mas o câncer do colo do útero mantém taxas elevadas em toda a região, ocupando a segunda posição de forma recorrente.
No Centro-Oeste, o câncer de mama é o mais frequente em todas as unidades da federação, seguido pelos cânceres de cólon e reto e do colo do útero, compondo um perfil intermediário entre as regiões mais urbanizadas e aquelas com maior influência de fatores infecciosos.
No Sudeste, os cânceres de mama, cólon e reto e colo do útero figuram entre os três mais incidentes. As maiores taxas de câncer do colo do útero concentram-se no Rio de Janeiro e no Espírito Santo.
Já no Sul, predominam os cânceres de mama, cólon e reto e pulmão. No Rio Grande do Sul, o câncer de traqueia, brônquio e pulmão ocupa a terceira posição, enquanto no Paraná e em Santa Catarina essa colocação é ocupada pelo câncer do colo do útero.
O que os padrões revelam?
As desigualdades regionais permanecem como elemento central. As taxas mais elevadas de câncer do colo do útero no Norte e no Nordeste, por exemplo, sinalizam dificuldades persistentes de acesso ao rastreamento e ao tratamento oportuno das lesões precursoras.
Enquanto Sudeste e Sul concentram cânceres associados ao envelhecimento e ao estilo de vida urbano, Norte e Nordeste ainda apresentam um perfil fortemente influenciado por fatores infecciosos e por desigualdades estruturais. O Centro-Oeste, por sua vez, reflete um estágio intermediário dessa transição demográfica e epidemiológica.
“Esse instrumento [a pesquisa] é fundamental porque ele é um farol que guia a capacidade de planejar no território a intervenção, entendendo, inclusive, o conjunto dos equipamentos, das ofertas assistenciais, dos recursos humanos que precisam ser dimensionados e articulados parta responder os casos esperados”, disse Mozart Júlio Tabosa Sales, secretário de Atenção Especializada à Saúde do MS.
Tendências preocupantes
Chama atenção, no triênio analisado, o aumento expressivo das taxas de câncer de cólon e reto em ambos os sexos, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde os coeficientes ajustados ultrapassam 20 casos por 100 mil habitantes. O crescimento está associado a hábitos alimentares inadequados, como:
- Alto consumo de ultraprocessados e carne vermelha
- Sedentarismo
- Excesso de peso
- Envelhecimento populacional
- Maior acesso ao diagnóstico
Outro ponto de alerta é a retomada do crescimento do câncer de traqueia, brônquio e pulmão, após anos de declínio, sobretudo entre as mulheres. Nas regiões Sul e Centro-Oeste, esse tumor volta a figurar entre os três mais incidentes. Entre os homens do Sul, apresenta a maior taxa do país, quase o dobro da média nacional. O fenômeno reflete o impacto cumulativo do tabagismo no passado e mudanças recentes no consumo de produtos de tabaco, como cigarros eletrônicos e narguilé, especialmente entre jovens urbanos.
A exposição a esses fatores também se relaciona ao câncer de cavidade oral, que no Brasil acomete majoritariamente homens acima dos 40 anos, negros, com baixa escolaridade e histórico de consumo frequente de álcool e tabaco. “Esses padrões refletem a interação entre fatores demográficos, ambientais, hábitos de vida e desigualdade no acesso aos serviços de saúde”, resume Carlos Gil Ferreira, diretor médico da Oncoclínicas e presidente do Instituto Oncoclínicas.
O que pode ser evitado?
Outro sinal de alerta é o aumento da incidência em pessoas com menos de 50 anos, fenômeno observado mundialmente e que começa a se consolidar também no Brasil. “O câncer está ficando mais jovem. Tumores antes típicos da terceira idade agora aparecem em pacientes na casa dos 30 e 40 anos, especialmente o colorretal”, afirma o oncologista. Alimentação ultraprocessada, obesidade precoce, sedentarismo e exposições ambientais estão entre os fatores que ajudam a explicar essa mudança.
O Inca reforça que uma parcela expressiva desses casos poderia ser prevenida. Estratégias como a vacinação contra o HPV (papilomavírus humano), controle do tabaco, alimentação saudável, prática regular de atividade física e rastreamento organizado são fundamentais para conter o avanço da doença.
As infecções seguem como fator relevante, sobretudo nas regiões mais vulneráveis. Mais de 90% dos casos de câncer do colo do útero estão associados ao HPV, o que torna a ampliação da cobertura vacinal uma prioridade. “O Brasil tem um dos melhores programas públicos de imunização do mundo. O desafio é garantir adesão, logística e enfrentar a desinformação”, destaca Carlos Gil.
Avanços e gargalos
Apesar do cenário preocupante, a oncologia atravessa uma revolução terapêutica, com imunoterapia, terapias-alvo e medicina de precisão ampliando as chances de controle e cura de diversos tumores. O maior entrave, porém, segue sendo o acesso. “Hoje, o sistema privado oferece tratamentos comparáveis aos dos Estados Unidos e da Europa, mas ainda há atraso significativo na incorporação dessas tecnologias pelo SUS”, afirma o especialista. “Quando sabemos que muitos desses casos poderiam ser evitados, essa lacuna se torna ainda mais grave.”
Para tumores diagnosticados precocemente, as taxas de cura podem ultrapassar 70%, chegando a cerca de 90% no câncer de mama em estágio inicial. “Mais do que estatísticas, esses números são um chamado à ação. Investir em prevenção, diagnóstico oportuno e acesso ao tratamento é investir em vidas”, diz Gil.
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Para o diretor técnico do Instituto de Oncologia Ciências Médicas (IOCM), Pedro Ribeiro, os dados reforçam a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento adequado. “Apesar dos avanços significativos na oncologia nos últimos anos, o câncer ainda representa um grande desafio de saúde pública. Informar a população, combater o estigma e ampliar o acesso aos cuidados são passos essenciais para reduzir o impacto da doença na sociedade”, destaca.