Quando o medo é maior que o desejo, a vida paralisa
O que perco ao continuar me protegendo dessa forma? Qual pequeno passo posso dar agora?
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No consultório e na vida, observo um movimento que se repete com mais frequência do que imaginamos: pessoas cheias de ideias, planos e vontade de realizar que permanecem no mesmo lugar. Não por falta de desejo, mas porque, em algum ponto do caminho, o medo ocupa mais espaço do que aquilo que se quer alcançar.
Costumamos tratar o medo como inimigo, algo a ser vencido, superado ou eliminado. Mas essa leitura simplifica demais uma experiência humana complexa. O medo não nasce para nos paralisar; ele nasce para nos proteger. Surge como um alerta, uma tentativa de evitar dor, perda, frustração ou sofrimento. O problema começa quando essa proteção passa a conduzir nossas decisões.
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Quando isso acontece, a pessoa deixa de se mover em direção ao que deseja e passa a organizar a vida para não sentir desconforto. O critério deixa de ser o sentido e passa a ser a segurança. Aos poucos, o desejo vai ficando abstrato e distante, enquanto o medo se torna concreto, imediato e convincente.
Na prática, a paralisia quase nunca é falta de coragem. Ela costuma ser um pacto silencioso com algo que precisa ser preservado. Muitas vezes, o que está sendo protegido é uma experiência passada que não foi bem-sucedida: um fracasso, uma rejeição, uma tentativa que doeu mais do que se imaginava. Outras vezes, nem houve uma experiência direta. O bloqueio nasce de crenças construídas ao longo da vida, de padrões familiares, de histórias ouvidas, de lealdades invisíveis que ensinam, desde cedo, que arriscar é perigoso ou que crescer tem um preço alto demais.
Mesmo quando o desejo existe, algo interno impede o movimento. O psicólogo Albert Bandura mostrou que não basta querer; é preciso acreditar que se é capaz de sustentar o caminho. Ele chamou esse processo de autoeficácia: a crença na própria capacidade de agir, persistir e lidar com os desafios que surgem ao longo do percurso. Quando essa crença é frágil, o desejo até aparece, mas não se sustenta. A ideia silenciosa de “não dou conta” cresce, e o medo ganha força porque a pessoa se sente sozinha diante do que deseja construir.
Assim, mesmo desejando avançar, a pessoa se trava. Não porque não queira, mas porque, internamente, existe um compromisso com a manutenção do conhecido. O medo passa a funcionar como um guardião. Ele impede o passo à frente para evitar que algo “ruim” se repita, ainda que esse perigo pertença mais à memória emocional do que à realidade atual.
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O custo dessa proteção raramente é percebido de imediato. A vida vai ficando menor, as escolhas mais estreitas, as possibilidades adiadas. A pessoa passa a viver mais para não sofrer do que para realizar. Com o tempo, a pergunta deixa de ser “o que eu quero?” e passa a ser “o que é mais seguro?”. Essa mudança, quase imperceptível, cobra um preço alto: o afastamento dos próprios sonhos, metas e objetivos.
O ponto de virada não está em eliminar o medo. Isso, além de irreal, costuma aumentar o conflito interno. A mudança começa quando o medo deixa de ocupar o centro das decisões; quando o desejo é organizado em estratégia, em etapas, em ações viáveis. Quando deixa de exigir um salto e passa a permitir um caminho que pode começar pequeno, mas é possível e sustentável.
Avançar não exige ausência de medo. Exige consciência. Exige reconhecer o que está sendo protegido, questionar se essa proteção ainda faz sentido e assumir a responsabilidade de construir caminhos mais alinhados com quem se é hoje e com o que se deseja agora, não com quem precisou se defender no passado.
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Talvez valha a pena se perguntar: o que exatamente estou protegendo quando não avanço? De que experiência antiga meu medo tenta me poupar? Esse risco ainda é real ou pertence a outro tempo da minha história? O que perco ao continuar me protegendo dessa forma? Qual pequeno passo posso dar agora?
Talvez o maior desafio não seja vencer o medo, mas aceitar que nenhuma vida significativa se constrói apenas a partir do conforto, do seguro e do previsível. Toda escolha que amplia implica algum nível de exposição. Todo passo que se aproxima do que importa carrega algum risco. A questão, então, deixa de ser se vale a pena sentir medo e passa a ser se vale a pena continuar adiando a própria vida.
Em algum momento, proteger-se demais começa a custar aquilo que se deseja viver.
Quando esse entendimento acontece, a vida deixa de ser um território a ser evitado e passa a ser um campo possível de construção. Não se trata de grandes viradas nem de decisões heroicas, mas de pequenas autorizações diárias para existir com mais coerência, ainda que de forma imperfeita e incompleta.
Talvez o medo nunca vá embora por completo. E tudo bem. O que nos possibilita a transformação não é a ausência do medo, mas a decisão de aprender a viver apesar dele. E, pouco a pouco, aquilo que antes nos paralisava passa a nos acompanhar, sem mais impedir o caminho.
“Até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino.” Carl Gustav Jung
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
