Qual o limite de Nikolas?
Nos bastidores do Congresso, a avaliação é que Nikolas operou conscientemente nessa zona de tensão
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A declaração do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre a possibilidade de intervenção dos Estados Unidos no Brasil foi interpretada, no meio político, como um teste dos limites da imunidade parlamentar. A reação à sua fala foi imediata e articulada, com adversários do parlamentar acionando a Procuradoria-Geral da República, a Polícia Federal e o Conselho de Ética da Câmara. Até o momento, o episódio já resultou em seis ações, sendo quatro formais na Justiça e duas de natureza político-institucional.
O conteúdo da fala, isoladamente, não surpreendeu parte dos parlamentares da base do presidente Lula (PT). A defesa de soluções externas, a retórica de ruptura institucional e o questionamento da soberania nacional já circulam há meses em diferentes camadas do bolsonarismo, sobretudo nas redes sociais e em ambientes internacionais alinhados ao grupo. O elemento que precipitou a reação não foi a ideia em si, mas quem a verbalizou.
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O discurso não se originou em Nikolas. Ele vinha sendo ensaiado. A diferença é que, quando parte do deputado mineiro, funciona como balão de ensaio. Um teste para medir até onde é possível avançar e, sobretudo, até onde o sistema institucional reage. Em dois dias, essa reação se consolidou.
O PSOL protocolou representações na Procuradoria-Geral da República por meio dos deputados Ivan Valente (PSOL-SP) e Érika Hilton (PSOL-SP), incluindo questionamentos sobre a associação feita por Nikolas entre o presidente Lula e o regime de Nicolás Maduro. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, acionou a Polícia Federal pedindo abertura de inquérito. Em Minas Gerais, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) anunciou que o partido também levaria o caso à PF e ao Ministério Público. No campo político, o vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff (PT) pediu publicamente a prisão e a cassação do mandato do deputado, enquanto parlamentares da oposição passaram a defender apuração por quebra de decoro.
Para o constitucionalista Paulo Dias Freitas, ouvido pela coluna, o objetivo dos parlamentares ao reagir a Nikolas não é necessariamente punir o deputado, mas demarcar limites. “A imunidade parlamentar protege a manifestação de opinião, mas não é um salvo-conduto irrestrito. Quando o discurso começa a flertar com ingerência estrangeira ou com a ruptura da ordem constitucional, o sistema tende a reagir antes que isso se transforme em precedente”, afirmou.
Nos bastidores do Congresso, a avaliação é que Nikolas operou conscientemente nessa zona de tensão. Ao usar a ação dos Estados Unidos na Venezuela como referência, ele, além de testar os limites constitucionais, deliberadamente inflou os discursos da extrema direita contra a soberania nacional.
Esse movimento ajuda a explicar a rápida mobilização do entorno político do deputado. Na manifestação realizada na segunda-feira, na Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, o vereador Pablo Almeida esteve ao lado de venezuelanos e confrontou manifestantes contrários à intervenção externa. O dado é politicamente relevante. Pablo foi chefe de gabinete de Nikolas Ferreira, e sua atuação no ato foi interpretada por interlocutores locais como evidência de que esse tipo de discurso não se limita à tribuna, mas mobiliza aliados diretos e estruturas políticas associadas ao parlamentar.
O pano de fundo é a reorganização do bolsonarismo para 2026. Com o ex-presidente Jair Bolsonaro preso e fora do jogo eleitoral, o campo passa por uma redistribuição de papéis. O senador Flávio Bolsonaro trabalha uma candidatura de perfil mais institucional, enquanto Nikolas ocupa o espaço do confronto, assumindo a função de catalisador da base mais radical.
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É nesse ponto que o risco se torna calculado. Cada denúncia alimenta a narrativa de perseguição, já testada e validada eleitoralmente pelo bolsonarismo. Se o sistema reage, o discurso se reorganiza em torno da vitimização. Se não reage, a régua se desloca.
FILHA
Um post recente do governador Romeu Zema (Novo), ao lado da filha viralizou nas redes sociais e acabou rendendo comentários irônicos após internautas observarem que a jovem, formada em cinema e radicada em Londres, segue majoritariamente artistas e personalidades associadas à esquerda, entre elas Manuela D’Ávila.
DE VOLTA
O ex-vereador Rubão (Podemos) deixou a secretaria de Esportes da Prefeitura de Belo Horizonte e vai voltar a assumir uma cadeira na Câmara Municipal na vaga de Lucas Ganem (Podemos), que pediu licença do cargo enquanto tem a cassação analisada pela Casa. O vereador era o primeiro suplente do partido e foi o responsável pela denúncia que moveu a investigação contra Ganem. Ele teve a exoneração da secretaria publicada nesta terça-feira (6/1) no Diário Oficial do Município (DOM).
REFORÇO
A entrada de Rubão reforça a chamada “Família Aro” na Câmara de Belo Horizonte. O grupo é comandado pelo secretário de Estado de Governo, Marcelo Aro (PP), e inclui nomes como Professora Marli (PP) e o presidente da Casa, Juliano Lopes (Podemos), que assumiu interinamente a Prefeitura durante as férias do prefeito Álvaro Damião. Com a mudança, o grupo passa a reunir 11 dos 41 vereadores.
VIAGEM
O ex-prefeito de Pocrane, no Vale do Rio Doce, Álvaro de Oliveira Pinto Júnior, conhecido como Juninho do Álvaro, foi condenado pela Justiça de Minas Gerais por improbidade administrativa. A decisão se refere a um processo que apurou o recebimento de diárias por viagens que não teriam sido realizadas durante seu mandato à frente do Executivo municipal. A condenação prevê o pagamento de quase R$ 500 mil, valor que inclui ressarcimento aos cofres públicos, multa civil e indenização por dano moral coletivo. Ainda cabe recurso contra a decisão.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
