Existe um conjunto de práticas políticas, sociais e culturais que operam de forma coordenada para fazer com que as mulheres desejem a maternidade, sem que isso, em muitos casos, constitua de fato uma escolha livre. No imaginário coletivo, ser mãe ainda é o que valida a mulher, como se houvesse uma incompletude inerente àquelas que não têm ou não desejam ter filhos. 
Para a estrutura social vigente, o filho é apresentado como o principal projeto de vida feminino, sua máxima realização e passaporte para a aceitação pública. No entanto, quando o bebê nasce, a expectativa de um amor avassalador e instantâneo frequentemente dá lugar a um estranhamento desconcertante. O amor materno não é um dado biológico, mas um sentimento construído na aspereza da relação diária e no convívio real.

Esses discursos românticos são, no fundo, uma forma de agressão. A ideia do "instinto materno", por exemplo, foi uma construção histórica deliberada para confinar a mulher ao papel do cuidado, tratando-o como algo natural e exclusivo. Essa narrativa retira a responsabilidade dos pais e do Estado, sobrecarregando a mãe com um peso muito maior do que ela foi autorizada a prever. Ela se vê solitária, com menos tempo para investir em sua carreira e amizades, mergulhada em um processo de isolamento. 


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Um conceito que define bem essa experiência é a ambivalência, mas socialmente não nos é permitido acessá-la. Há uma cobrança para que a mãe performe apenas gratidão, e a invalidação do lado difícil dessa jornada gera uma culpa paralisante. À mãe não é dada a permissão de ser vulnerável; qualquer demonstração de dor é lida como sinal de uma "mãe ruim".

Freud dizia que nenhum outro ato humano é tão repleto de consequências sociais quanto o nascimento de uma criança, e é preciso ser justa: essas consequências recaem quase inteiramente sobre as mulheres. Quando o bebê chega, a liberdade anterior e a rotina conhecida desaparecem, dando lugar a um luto invisível. Na psicanálise, o luto refere-se a perdas significativas, e aqui falamos da perda da identidade da mulher que foi engolida pela função materna. 

O psicanalista Contardo Calligaris afirmava que a figura idealizada da mãe serve para reprimir a mulher real. Nossa cultura, atravessada pela imagem da Virgem Maria, exige uma doação total que desconecta a mãe de seus próprios desejos.

Politicamente, o trabalho de cuidado desempenhado pelas mulheres é a base invisível que sustenta o capitalismo. No livro "Manifesto Antimaternalista", Vera Iaconelli demonstra como a pseudoteoria do instinto materno serviu para desonerar os homens e o Estado do trabalho reprodutivo. É a desvalorização do doméstico que permite o controle dos corpos femininos. As questões da maternidade deveriam ser coletivas, mas acabam sendo tratadas como falhas individuais. As empresas ainda discriminam mães em entrevistas e as políticas públicas permanecem insuficientes. Nos prendem através da culpa e da sobrecarga, pois mulheres exaustas não têm tempo para desejar ou ocupar espaços de poder.

É urgente uma mudança de paradigma. Psiquicamente, a mulher precisa entender que não deixou de existir ao dar à luz; a relação inicial com o bebê deve evoluir para que ela possa se reinventar como sujeito. Politicamente, é necessário que o cuidado deixe de ser um fardo feminino para se tornar uma responsabilidade compartilhada. O caminho para que a sociedade sustente esse processo passa por uma educação que coloque homens e mulheres em pé de igualdade em todas as esferas, substituindo a mística do sacrifício pela ética da equidade.
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