Eram passados alguns minutos das 19h do dia 7 de janeiro deste ano quando uma moto com dois ocupantes chegou de repente pela calçada, margeando o muro, silenciosa, até surpreender a mulher que esperava o Uber com o celular nas mãos. Com um gesto brusco, o carona arrancou de suas mãos o aparelho e retornou à rua. Ela demorou segundos para entender o que tinha acontecido, abaixou-se para apanhar os óculos no chão e, em seguida, levou as mãos à cabeça. Não houve tempo nem de se lamentar.

O susto cedeu lugar à agonia de “apagar” o aparelho antes que os criminosos pudessem acessar suas senhas e conta bancária. Feito o Boletim de Ocorrência, tomadas as primeiras providências com o apoio da Polícia Militar, restou a estupefação: indignação, raiva, tristeza – esses sentimentos que os brasileiros conhecem bem, cada vez mais oprimidos pela violência das nossas cidades.

A mulher, no caso, é minha esposa. Passados alguns dias, observava seu semblante cansado, ainda assoberbada pelas inúmeras providências tomadas para reorganizar a rotina - é verdade: a vida de cada um de nós está praticamente toda guardada na memória dos celulares! Mas o cansaço maior era - e ainda é - desse ambiente de insegurança e hostilidade, vem da perspectiva de continuar vigiada pelos olhos cavernosos da violência, atentos ao descuido, ao natural relaxamento de quem gostava de caminhar pelas ruas da cidade onde nasceu. Esta cidade não há mais, está suspensa, e a constatação machuca.

Compartilho com Adriana as dores da cidadania vilipendiada, embora não tenha experimentado pessoalmente a brutalidade do assalto. Revimos as imagens de algumas câmeras de rua. A raiva que sentimos tem por alvo os homens de capacete, um com calça jeans clara, outro de blusa preta, montados em uma moto de pneus alaranjados. São ladrões, vivem de ganhar dinheiro tirando o que é de outras pessoas. Trabalham para alimentar a estatística do crescimento da violência que tira de nós o esforço, a energia e, volta e meia, a vida.

Percebo, no entanto, outros fatos gesticulando exasperadamente por detrás do acontecido, além da presença cada vez intensa e organizada do crime: as desigualdades abissais entre brasileiros, a intolerância enraizada em uma sociedade estratificada em bolhas de pertencimento, o ódio monetizado nas redes sociais. O maior dos nossos desafios, diante dessa rede articulada de problemas, sem dúvida alguma são as respostas desarticuladas e rasteiras do governo e da sociedade.

Como não há um plano robusto de enfrentamento da violência, resta-nos a alternativa de nos acostumarmos a vagar pelas ruas em estado de vigilância permanente, alimentando com ressentimento nossas mentes e corações, cada vez mais vulneráveis às propostas simplistas de combater a violência com mais violência. Nós contra eles! Sendo “eles” as mesmas vítimas desde o século XVI: os pobres, os pretos, os malvestidos.

A violência não é fruto da pobreza, mas aproveita-se dela. Usa seus filhos porque nos becos, ou guetos, das favelas, esquecidos pela chamada Constituição Cidadã, a falta de esperança cria o ambiente para a cooptação. Sem serviços públicos de educação, saúde, transporte e segurança com a mesma qualidade dos oferecidos pela iniciativa privada, não há nem haverá igualdade de oportunidades. Mesmo que estejam em vigência políticas de distribuição de renda. Temos dois países que não se frequentam debaixo do guarda-chuva Brasil.

Como nesta terra sempre grassou a esperança, nasce como mato em qualquer esquina, resta-nos a expectativa de um dia, mais próximo que distante, entendamos o poder de nossas vontades. Já fizemos isso em passado recente, como na vitória contra a inflação, tão bem relatada no livro da merecidamente imortal Miriam Leitão, "Saga Brasileira: A longa luta de um povo por sua moeda". De minha parte, não consigo mais viver como filho de uma das pátrias mais desiguais do mundo. É indecente essa mácula! Precisamos da oportunidade de aprender a andar misturados.

É passada a hora – mas esse tempo de convergência não acaba - de nossas lideranças prestarem obediência às demandas do país. Que se sentem à mesa de negociação para produzir um plano articulado entre as três esferas de poder (federal, estadual e municipal) para qualificação dos serviços públicos oferecidos à população brasileira. Um esforço contínuo, eliminado por acordo o risco de interrupção na sucessão de governos. Sem isso, o Bolsa Família e outras políticas assistenciais se perpetuam como expressão do mais desrespeitoso e cruel populismo.

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É nossa a vontade, é deles a obrigação. Precisamos resgatar nossas cidades das mãos da indiferença. Precisamos exigir dos eleitos a decência de dedicar seus mandatos às necessidades de quem os elegeu. Um dia – que não demore - daremos o grito: Chega!

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